Rio

Rocinha em movimento

Moradores e profissionais de saúde apontam razões para a intensa migração interna na favela

Devido aos tiroteios, a Favela da Rocinha tem assistido a um fluxo intenso de moradores que pegam suas malas, móveis e eletrodomésticos e vão viver em outras localidades, como Muzema e Tijuquinha, no Itanhangá, na Zona Oeste da cidade. Profissionais de saúde e alguns residentes, porém, têm testemunhado deslocamentos internos. Por diferentes motivos, habitantes dali optam por sair de um para outro dos 25 sub-bairros da comunidade, onde, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 70 mil pessoas se concentram (no censo feito pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), esse número aumenta para 101 mil em área de 865.032 m²).

A violência, obviamente, influencia essas transferências internas. “Conheço uma pessoa, por exemplo, que mudou da parte mais próxima do bairro da Gávea na Rocinha, no sub-bairro 199, para o Portão Vermelho, perto da Estrada da Gávea, onde há menos violência”, diz um profissional de saúde, sem se identificar, salientando que quanto mais se mora perto do miolo, ou melhor, do interior da Rocinha, maior a exposição a tiroteios.

Macaque in the trees
A violência não é o único motivo de mudança dentro da Rocinha. Próxima aos prédios de classe média fica a Estrada Lagoa-Barra, cujo acesso se torna mais um atrativo à comunidade (Foto: Marcos Tristão / Jornal do Brasil)

O profissional de saúde também descreveu algo dramático. “Há pessoas e famílias que se mudaram para lugares mais perigosos, porque o aluguel é mais barato. E o que os torna mais em conta são justamente os constantes confrontos entre traficantes e policiais ou mesmo entre traficantes de diferentes facções. Trata-se de famílias que vivem em situação de extrema pobreza”, diz ele.

O profissional de saúde aponta onde ocorrem mais confrontos com troca de tiros. Segundo ele, a parte mais alta da Rua Um, vizinha à Encosta do Morro Dois Irmãos, e a parte mais baixa da Ruas Dois, contígua à localidade do Valão, são os pontos mais perigosos e, portanto, mais afeitos a deslocamentos de moradores.

Um outro morador diz que os tiroteios mais duradouros movimentam o mercado imobiliário informal que funciona na Rocinha, já que os confrontos fazem com que famílias procurem corretores.

Outros residentes apontam mais motivos para estas mudanças. “Há pontos na Rocinha onde a falta de saneamento é mais crônica”, diz o morador. O que é curioso é que, por causa dos laços que fez na Rocinha, esse tipo de morador prefere se manter na comunidade. Outro ponto é o acesso ao transporte, mais fácil em lugares mais próximos à Estrada da Gávea e à Estrada Lagoa-Barra.

Macaque in the trees
Embora fique na parte alta da Rocinha, o Laboriaux é considerado lugar nobre para se morar, pela natureza e acesso à Estrada da Gávea (Foto: Marcos Tristão / Jornal do Brasil)

Outro morador já se deu conta de que há áreas que inspiram mudanças pelo fato de o adensamento ser tão absurdo que chama atenção até mesmo na adensada Rocinha. O sub-bairro Cidade Nova é um deles. Ali, há tantas construções de moradias que a entrada de luz e de ventilação nas casas fica totalmente comprometida. Há lugares também em que o problema de falta d´água e de energia elétrica é frequente e também leva pessoas a se mudar para outros locais na Rocinha, onde tais serviços estão mais bem equacionados.

Um dos lugares mais valorizados é o sub-bairro do Laboriaux, no pico da Rocinha. Com Mata Atlântica exuberante, sem tantos problemas em relação à água e luz, ainda conta com a Rua Maria do Carmo, que o liga à Estrada da Gávea. Nesse caso, são razões bem parecidas às que estimulam as mudanças da classe média carioca.



A violência não é o único motivo de mudança dentro da Rocinha. Próxima aos prédios de classe média fica a Estrada Lagoa-Barra, cujo acesso se torna mais um atrativo à comunidade
Embora fique na parte alta da Rocinha, o Laboriaux é considerado lugar nobre para se morar, pela natureza e acesso à Estrada da Gávea


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