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Rio

Livro retrata 70 ilhas das baías de Guanabara e Sepetiba, além de outras oceânicas

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Clicadas por Marco Terranova, as fotos do livro "lhas cariocas” (Andrea Jakobsson Estúdio) sugerem um passeio. Mas, se rolar aquela chuva, vale apreciar as imagens com as observações de seis autores, que instigam, em seis capítulos, o leitor a fazer uma viagem ao passado desses pedaços de terra cercados pelo mar tão injustamente esquecidos pelos moradores da capital. Ao todo, são 70 ilhas: 42 na Baía de Guanabara, 11 na Baía de Sepetiba e 17 oceânicas.

Entre elas, o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti destaca a Ilha de Bom Jesus, localizada em uma ponta da Cidade Universitária. Ela abrigou o Asilo dos Inválidos. conta ele, que recebeu os mutilados da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), entre os quais o famoso baiano Príncipe Obá II D’África, filho de africanos forros. “Amigo de Dom Pedro II, era, ao mesmo tempo, monarquista, abolicionista e engajado na luta contra o racismo. O Asilo também acolheu soldados da Guerra dos Canudos (1896-1897). A Ilha de Bom Jesus aloja ainda a igreja de nome homônimo e o convento dos franciscanos construídos em 1705”, salienta Nireu.

Nireu faz sobressair, na publicação, o conjunto de ilhas incorporado à Cidade Universitária. Dele, o historiador assinala o caso da Ilha de Sapucaia, que foi sendo degradada ao longo dos séculos 19 e 20. Nas palavras de Nireu, “um paraíso que virou lixão”. Em seu texto, ele diz que a “revista Careta, em 27/07/1929, registra que diariamente eram recolhidas, em média, 550 toneladas de lixo e despejadas na Ilha da Sapucaia. “Há histórias e edificações importantes nas ilhas da cidade. E há muita coisa se degradando que tem imensa importância histórica”, alerta Nireu.

Macaque in the trees
Exuberante, a Ilha Comprida se destaca no arquipélago que vem sendo frequentado por turistas e mergulhadores. Ali, a vegetação de restinga sobrevive com pouca água, e as bromélias têm importante participação na manutenção do ecossistema (Foto: Marco Terranova)

Algumas delas serviram para a defesa de invasões, como a Ilha da Laje. na Baía de Guanabara. Uma de suas atrações, o Forte Tamandaré, também se deteriora, dificultando o estudo de seu importante passado. Nireu diz que nela o revoltoso baiano Cipriano Barata ficou encarcerado em um presídio político lá instalado no século 19.

Professor titular do Departamento de Ecologia da UERJ, Carlos Frederico Duarte realça, no livro, a natureza do Arquipélago das Cagarras. Para ele, trata-se de um conjunto que teve sua biodiversidade mais bem preservada, na comparação com outros em que, devido à ocupação do solo, hoje estão desfigurados. A Ilha Comprida é talvez a mais exuberante da série ali encontrada. “Por isso, esse arquipélago se tornou um monumento natural, uma categoria de unidade de proteção, em que se reconhece o conteúdo ambiental. No caso, há nele uma vegetação de restinga que resiste ao fato de haver uma quantidade de água diminuta, já que as ilhas, em função de seu relevo, não formam nascentes e, portanto, córregos e cursos d´água”. As águas da chuva, que se depositam em bromélias, ajudam a manter a vida no lugar. Grupos de cactos, à vontade ali, são encontrados com frequência no arquipélago.

Geógrafo, com pós-doutorado em Geologia, Marcelo Motta fez o primeiro capítulo no qual explica a formação das ilhas. “Elas têm a ver com toda a evolução geológica do litoral carioca. O Rio é resultado de uma colisão continental ocorrida há 600 milhões de anos. Depois disso, aconteceu a abertura do Oceano Atlântico com a separação dos continentes sul-americano e africano”. Para o Rio de Janeiro, a consequência foi um belo conjunto de relevos da cidade e das ilhas em seu entorno. “As ilhas são os relevos submarinos, que deixam expostas as pontas dessas montanhas submersas”, explica Motta.

Paquetá, diz o geografo, é um exemplo de formações rochosas unidas pela areia trazida pelas ondas. “Ali, há rochas que são pequenas ilhotas bordando a ilha principal”. Ele diz que os índios utilizavam as ilhas cariocas, por conta da biodiversidade. Já os portugueses as exploravam como base militar. Com o tempo, as ilhas vão ficando esquecidas. “A moreninha”, romance de Joaquim Manuel de Macedo, é de uma época (século XIX) em que as ilhas tinham maior relevância na sociedade. Hoje, observa o geógrafo, ilhas como a das Cobras e da Laje têm usos militares, ou seja, de proteção ou mesmo de formação profissional, como é o caso da Escola Naval na Ilha de Villegagnon, próxima ao Aeroporto Santo Dumont.

Hoje em dia a maioria dos cariocas não ocupa as ilhas. A Ilha da Tijuca, uma das exceções, é frequenta por praticantes de Stand up paddle. Já as Ilhas Cagarras já têm um apelo turístico e são visitadas por mergulhadores. A Ilha do Farol, a mais isolada do Arquipélago das Cagarras, é um ponto de referência para os navegantes.

Macaque in the trees
No entorno da ilha que inspirou o romance "A moreninha", de Joaquim Manuel de Macedo, um exemplo de formações rochosas unidas pela areia trazida pelas ondas. São ilhotas de argila com importante conteúdo geológico (Foto: Marco Terranova)

Mas é pouco diante das 70 ilhas cariocas. Pesquisá-las é se deparar com histórias fascinantes como a de Luiz del Fuego (1917-1967), que morava na Ilha de Tapuamas de Dentro, ao sul de Paquetá. Feminista, naturista, ativista e política, ela oferece mais um motivo para ler “Ilhas cariocas”, organizado pelo oceanógrafo David Zee. O lançamento será no dia 31, na Livraria da Travessa, com uma conversa com os autores.

Nesse caso, boa parte dos cariocas, ao que parece, têm muito mais a ouvir do que falar sobre esses paraísos maltratados e esquecidos em torno do continente.

Mapas históricos

 Um dos capítulos do livro é sobre a cartografia das ilhas cariocas. As navegações nos mares da cidade era intensa. Por isso, a Baía de Guanabara, nos séculos 16, 17 e 19, aparece em mapas de holandeses, franceses, portugueses, ingleses e espanhóis. “Foram muitos registros cartográficos ao longo dos séculos da Baía de Guanabara. O sistema de defesa, desde o Rio colonial, utilizou ilhas para conter previsíveis invasões de navios no que transitavam pelo Oceano Atlântico”, diz a professora de historia da PUC Heloisa Gesteira, que cuidou dessa parte na publicação. O mapa nesta reportagem é de 1631 e integrava um atlas. Ele retrata as baías da Guanabara, de Sepetiba e da Ilha Grande, esta pertencente a Angra dos Reis.

Para Heloisa Gesteira, as correntes marítimas facilitavam a vinda de embarcações. “O Rio era muito visitado. Navios ingleses, por exemplo, que iam em direção ao Oceano Índico, costumavam aportar no Rio até o século XVIII para se abastecer e fazer manutenção das embarcações”.

Não por acaso, acrescenta a professara, os franceses tentaram estabelecer uma colônia em 1550. “A fundação do Rio está associada justamente a invasões franceses no nosso litoral”. O Rio nesses séculos foi de suma importância para o controle do Oceano Atlântico. Nesse contexto, há algo vergonhoso à nossa história: imensas quantidades de navios chegando da África com pessoas escravizadas na cidade.



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