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Do grupo de 50 venezuelanos que chegou ao Rio há 3 meses, mais da metade ainda batalha por uma vaga no mercado de trabalho

Jornal do Brasil MARIA LUISA DE MELO, malu@jb.com.br

rês meses depois de um primeiro grupo, com 50 venezuelanos, chegar ao Rio, no processo de interiorização promovido pelo governo federal brasileiro em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), a maior parte dos 29 adultos ainda batalha por uma vaga no mercado de trabalho. Sob os cuidados da ONG Aldeias Infantis, parceira da Organização das Nações Unidas, no Itanhangá (Zona Oeste), o grupo já participou de diversos cursos de qualificação. Mas, por enquanto, só nove estão empregados. Outros 15 fazem curso de qualificação em dois hotéis com bolsa de ajuda de custo no valor de R$ 800.

Desde que deixaram a Venezuela na tentativa de se livrar da fome e da miséria provocada pela grave crise político-econômica, uma parcela viveu em abrigos mantidos pelo governo brasileiro em Roraima. Para outro grupo, restaram as ruas. Depois da viagem para o Rio de Janeiro e da chegada ao novo lar, no dia 5 de julho, os refugiados não desejavam outra coisa a não ser oportunidades. Nada mudou. A busca por uma chance de trabalhar em troca de um salário fixo continua sendo o desejo latente. E a maior preocupação é o envio de dinheiro para ajudar a família que ficou para trás, no país comandado pelo presidente Nicolás Maduro.

Um dos nove privilegiados com um emprego foi o mestre de obras Jefferson Pereira, de 41 anos. Ele foi um dos cinco contratados pela importadora de farinha Blume Alimentos, com sede em Olaria (Zona Norte). Pai de oito filhos – metade ainda na Venezuela–, ele será um dos responsáveis por construir uma nova fábrica da empresa, em Itaboraí, na Região Metropolitana. Ele alugou uma casa próxima ao emprego e batalha, ao lado da mulher, quatro filhos e um genro, por uma nova história.

“Alugamos a casa, as pessoas da empresa nos ajudaram com móveis e agora queremos crescer e melhorar. Estou otimista. Estar empregado é fundamental para enviar dinheiro aos filhos que deixei na Venezuela”, diz ele, que vendeu o carro da família para custear a vinda ao Brasil.

Antes desesperado por uma vaga de emprego, o ex-cinegrafista Georddy Bucarito, de 25 anos, ainda não deixou a sede da ONG Aldeias, no Itanhangá. Há um mês, conseguiu uma vaga para trabalhar como auxiliar de cozinha em uma pizzaria próxima à sede da entidade. Lá, dá os primeiros passos para ser pizzaiolo.

“Na Venezuela, eu trabalhava em dois empregos e, no fim do mês, recebia o equivalente a R$ 30, por conta da inflação altíssima. Só tínhamos como comprar comida para três dos cinco dias da semana. Tinha vezes que precisávamos alimentar as crianças com farinha”, conta ele, que é pai de duas meninas, de 2 e 3 anos. No primeiro mês de emprego, ele e a mulher já conseguiram comprar alguns eletrodomésticos para mobiliar o conjugado onde viverão com as crianças a partir do próximo mês. “Cheguei ao Brasil com 800 bolívares, mas não consegui comprar nem 5 reais com eles. Para chegar à Roraima, tive que caminhar por três dias porque não o dinheiro não dava para o transporte”, relembra ele, que chegou ao Brasil há cerca de seis meses com dois irmãos e depois conseguiu trazer um terceiro irmão, pai, mãe, mulher, e duas filhas. “Tendo trabalho, resolveremos todo o resto. Precisamos de oportunidades”, argumenta.

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Georddy, ex-cinegrafista, aprende um novo ofício como pizzaiolo (Foto: Bruno Kaiuca)

Sua mulher ainda está no grupo dos que buscam uma vaga fixa. Ela participa de um curso de qualificação no Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, e conta com bolsa de ajuda de custos no valor de R$ 800. O curso tem duração de seis meses, mas a empregabilidade não está garantida.

Também na batalha por uma oportunidade, a professora de Biologia Yelitza Lafont desespera-se ao lembrar dos três filhos menores que deixou na Venezuela. “Faço o que precisarem que eu faça. Não busco emprego apenas na minha área. O mais importante para mim é enviar recursos ao meu marido, que cuida de três filhos menores que deixei com ele. Vim ao Brasil porque não aguentava mais ver a minha família passar fome”, diz ela, que aguarda retorno de entrevistas de emprego e pretende trazer toda a família ao Brasil. Hoje, seu filho mais velho, de 19 anos, está com ela. Uma outra filha, no Panamá, enquanto três crianças ainda estão com o pai, na Venezuela. “Só conseguirei trazê-los depois de me empregar”.

Eduardo estava na mesma situação há uma semana. Foi quando o desespero deu lugar a uma pontinha de esperança.

“Virei frentista. Estou feliz. Estava muito preocupado sobre o que eu faria no dia que tivesse que sair daqui (sede da ONG) e não encontrasse emprego”, conta ele. “Quando a gente é chamado para trabalhar, sente muita felicidade. Desejo que este dia chegue para todos.”



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