Rio

Comerciantes resistem e aguardam fim das obras do VLT na Marechal Floriano para devolver dias melhores à Avenida

As obras de construção da Linha 3 do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) realçam as contradições do histórico trecho de 905 metros da Avenida Marechal Floriano, no Centro. Ali, as equipes da empresa escavaram ossadas que jaziam sob o que foi a Igreja de São Joaquim — provavelmente da elite carioca —, bem como uma bola de ferro e outros testemunhos dos tempos da escravidão, do século 18. A decadência até hoje não superada pelo histórico de criminalidade da região, associada aos transtornos provocados pelas obras, tem provocado o fechamento de estabelecimentos comerciais que, surpreendentemente, convivem com exemplos de sucesso. A visitação ao histórico Centro Cultural da Light, de 1911, por exemplo, cresceu em relação a 2017, e o Hotel Belga, inaugurado em fevereiro de 2017, dobrou seu movimento.

Primeiros estabelecimentos da cidade com esta bandeira europeia, o Belga Hotel e a Belga Brasserie, instalados no mesmo prédio, de 1927, com fachada tombada na esquina de Marechal Floriano com a Rua dos Andradas, destoam do ambiente decadente. Antes, o imóvel alojava o Motel Planalto, de altíssima rotatividade e péssima fama. O belga Koen Lizen, 47, há oito anos no Brasil, escolheu o endereço pela proximidade com o Porto Maravilha. “É um lugar fantástico, tem a ver com o nascimento do Rio de Janeiro e passou muito tempo abandonado, como também ocorreu com áreas históricas europeias. Acredito que o resgate vai acontecer, embora possa demorar mais que o previsto”, especula Lizen.

Macaque in the trees
O Belga Hotel, com seu prédio de cinco andares com fachada art déco modernizada (Foto: Marcos Tristão)

Embora prefira não revelar o valor do investimento, é óbvio que não foi pequeno, pela qualidade da restauração realizada por dentro e por fora do imóvel. “Quando cheguei, a fachada estava parcialmente coberta e o interior quase em ruínas. Pude constatar, porém, que se tratava de uma joia. Fizemos a reforma em nove meses. São 25 quartos em cinco pavimentos, onde reinterpretamos o estilo art déco, agora mais moderno, usando material que reuniu cimento branco com pedrinhas de mármore de várias cores”, exemplifica.

Desde a inauguração, a equipe começou a investir na conquista da vizinhança, que reúne empresas e instituições como o Banco Central, a Embratel, a Light e a Companhia Estadual de Gás (CEG), entre outras, com shows de jazz e eventos gastronômicos. Foi esse o público que fez dobrar o movimento inicial. Na contramão de seus vizinhos, Lizen não demonstra impaciência em relação às obras do VLT: “Vai ficar melhor quando terminar”, aposta, conformado e sem pressa.

Outro que não se deixa abater pela bagunça generalizada é o espanhol Aníbal Gonzalez, um ativo e gentil senhor de 86 anos, proprietário do tradicional Principado das Louças. A casa, fundada em 1º de abril de 1959 na Rua da Passagem, chegou à Marechal Floriano em 1970, num espaço gigante, de quatro sobrados, em 1º de abril de 1970 — pelo visto, Gonzalez deposita confiança na data da mentira. A loja, onde é possível encontrar tudo para montar um hotel ou restaurante, fora cama e mesa, sofreu uma redução, com as obras, de 30% na clientela do varejo. “A obra atrapalha, ficou difícil chegar aqui”, admite o comerciante que, nem por isso, como o belga, perde o entusiasmo. “Dizem que a obra acaba em dezembro. Não resta dúvida de que vai ficar melhor. Teremos em frente à loja a estação Principado do VLT”, orgulha-se.

A assessoria do VLT confirma a inauguração até o fim do ano da Linha 3 — quatro quilômetros ligando o Aeroporto Santos Dumont à Central do Brasil. Enquanto isso, contudo, parece que há mais perdas do que ganhos. Roberto Curry, presidente da Sociedade de Amigos da Rua da Carioca e Adjacências, vice-presidente do Sindicato dos Lojistas — que representa 30 mil estabelecimentos — e também proprietário da Mala Ingleza — fundada em 1900 e há 12 anos na Marechal Floriano —, lamenta: “Na Sete de Setembro, as lojas começaram a fechar antes das obras do VLT, como a Tele-Rio. Depois, 80% dos estabelecimentos entre a Praça Tiradentes e a Ramalho Urtigão também fecharam. Já começaram a fechar lojas na Marechal Floriano”, diz, sem citar exemplos, “e até o fim do ano fecharão mais. Além do VLT, há uma desordem urbana terrível, provocada pelos ambulantes. Só na Rua Uruguaiana fecharam a Mundo Verde, a Sonho dos Pés e a Ricardo Eletro”, lista.

A também tradicional Casa Paladino, aberta na Marechal Floriano, em 1906, talvez a mais antiga sobrevivente do endereço, já resistiu a várias crises. Dessa vez, a obra do VLT reduziu em 20% a clientela da casa, cujas maiores atrações são os sanduíches e omeletes. “Há muita desordem no entorno e todos os transtornos que uma obra traz. Muitas vezes os pedestres ficam sem ter por onde passar. Só esperamos que o prazo de conclusão seja cumprido”, pondera o funcionário Antônio Rodrigues da Silva, com 23 anos de casa.

No pacote de decadência, as quatro estrelas vão para o Cine Floriano, cuja situação nada tem a ver com o VLT. As pichações e a aparência de abandono dos elegantes traços art déco da fachada verde atestam o longo período que a sala deixou de funcionar. Cedeu lugar a mais um dos estacionamentos rotativos abertos na Marechal Floriano.

Um testemunho do início da distribuição de energia elétrica em São Paulo e no Rio de Janeiro, o grupo canadense Light chegou na capital paulista em 1899 e foi autorizado a funcionar no Rio de Janeiro em 1905. Aqui, não apenas cuidou da iluminação como dos transportes de bondes, responsáveis pelo surgimento de bairros como Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. Muitas dessas histórias são contadas no imponente imóvel em estilo Renacença Americana, onde funciona o Centro Cultural Light — empresa privatizada em 1996 —, na Marechal Floriano. Também na contramão dos lojistas, se comparado igual período de visitação, entre eventos técnicos e culturais, o público de 2018 superou o de 2017: foram 10.891 visitantes este ano, ante 9.640 no anterior.

Fundado em dezembro de 1837 na Marechal Floriano, em homenagem ao imperador ainda menino, o imponente prédio do Colégio Pedro II, depois reformado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny, foi pioneiro no país em instrução secundária oficial. Na época, acreditava-se na educação como um importante elemento de construção do processo civilizatório e de fortalecimento do Estado na formação da nação brasileira. Em 1874, o edifício foi ampliado por Francisco Joaquim Béthencourt da Silva, discípulo de Montigny, que deu à escola sua atual fachada em estilo neoclássico. A mais significativa transformação do prédio ocorreu em 1875, quando foi construído o salão nobre. O espaço passou a sediar a colação de grau de Bacharel em Letras do colégio, cerimônia que, dada a sua importância, costumava receber o Imperador Pedro II. A decadência da instituição, entretanto, nada tem a ver com as obras do VLT, e sim com seu esvaziamento, iniciado pela ditadura militar instaurada em 1964.

Outro destaque do endereço é o Palácio do Itamaraty, construído por Francisco José da Rocha, o conde de Itamarati, entre 1851 e 1855. O projeto de estilo neoclássico é de outro discípulo de Montigny, o brasileiro José Maria Jacinto Rebelo. A parte traseira do palácio ganhou um espelho d’água habitado por cisnes e cercado por palmeiras imperais, conjunto que realça a nobreza do espaço. De 1927 a 1930, o imóvel foi alvo de reformas assinadas pelo famoso arquiteto francês Joseph Gire, autor de três outras obras icônicas da cidade, o Edifício A Noite, na Praça Mauá, e os hotéis Copacabana Palace e Glória, hoje quase uma ruína pela desastrada reforma do empresário Eike Batista. O prédio, cercado por um generoso jardim, sediou o governo republicano, o Ministério das Relações Exteriores e hoje é escritório de representação do Ministério das Relações Exteriores. Foi o oitavo prédio tombado no país, em 1938.

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O Palácio do Itamaraty (Foto: Marcos Tristão)

Quanto à avenida propriamente dita, denominada Vila Verde, em 1632, consta das atas da Câmara dos Vereadores que nasceu ali o primeiro foco de crimes da cidade, onde se fazia o serviço de cargas e produtos agrícolas das zonas suburbanas. Por temer os criminosos e alcoólatras, os primeiros agricultores optaram pelas partes mais altas do vizinho Morro da Conceição. Até o início do século 20 eram duas vias, Estreita e Larga de São Joaquim, sendo que essa última recebeu a denominação ao ser ampliada e ganhar 20 metros de largura. Em 1706, ocorreu a primeira citação à uma rua no local, a Julião, que ia da Rua da Vala até a do Valongo (hoje Camerino), onde funcionou o maior mercado de escravos da cidade, de 1776 a 1831. Depois, a Rua Larga passou a se chamar Marechal Floriano, em homenagem ao militar, segundo presidente do Brasil, entre 1891 a 1894.



O Palácio do Itamaraty
O Belga Hotel, com seu prédio de cinco andares com fachada art déco modernizada