Rio

Um lar para os jambeiros

Rua do Riachuelo tem tapetes púrpura formados pelos estames das 38 árvores plantadas há oito anos

Quando Machado de Assis escolheu o cenário da Rua Matacavalos para o encontro do casal mais famoso de sua obra literária, Bentinho e Capitu, protagonistas de Dom Casmurro, jamais poderia imaginar que em 1865 o logradouro viria a se chamar “do Riachuelo” – em homenagem à batalha naval que consagrou a vitória brasileira na Guerra do Paraguai. E muito menos que ali passariam a predominar jambeiros, que tingem de rosa-choque tudo o que há sob suas copas. Do boêmio Largo da Lapa, onde a rua começa, à decadente Rua Frei Caneca, brotam 38 pés de jambo ao longo de seus quase 2 km, cujas flores e frutos entram no auge durante a primavera.

A introdução dos jambeiros é recente, integrou o projeto de revitalização da rua realizado pela prefeitura há cerca de oito anos. Da família das Myrtaceas, o gênero escolhido para a rua no Centro da cidade foi o das Syzygiums, de formato cônico e ramificações abundantes, cujas flores são formadas por quatro pétalas agrupadas e inúmeros estames que viram tapetes púrpura sob a copa da árvore, que não costuma passar de 15m. Segundo a secretaria municipal de Conservação e Meio Ambiente, foi a espécie mais indicada e propícia ao local, “de acordo com análise técnica que avalia condições climáticas e tipo de solo”.

Quem aproveita a presença verde é a pernambucana Vera Lúcia Silva dos Santos, 63 anos, que mora na rua há 36 e trabalha em um dos hospitais existentes por ali: “Gosto de comer jambos, eles têm o sabor da minha terra”, diz, sem saber que os jambeiros, originários da Índia e de algumas ilhas da Malásia, no sudeste asiático, estão presentes em todo o país.

Alguns mais frondosos outros ainda bem mirrados, os pés de jambo já estão carregados de frutos doces de polpa branca e suculenta. O Passat azul placa LJE 7861, abandonado perto da esquina com a Rua Henrique Valadares, por exemplo, está coberto pelo tapete púrpura, assim como vários trechos da calçada. É o garçom Antonio Milton, há 30 anos no Bar do Gomes, fincado há 50 na esquina com a Rua Gomes Freire, quem sinaliza: “Antes, a Rua do Riachuelo era mais larga, as três pistas passaram a duas e os jambeiros também foram introduzidos na reforma de revitalização feita pela prefeitura. Nunca comi, mas as pessoas dizem que é gostoso”, pondera. Rodrigo Cabral, 28 anos, que desde pequeno trabalha no restaurante Victor, de sua família, ali perto, é outro que nunca provou: “É uma fruta da roça, aqui fica suja pela poeira da rua mas, mesmo assim, tem gente que pega. Lindo é o tapete que fica no chão”, elogia.

Um perfil eclético

São novas histórias para uma rua que remonta ao ano de 1573, onde já havia o caminho que saía do local escolhido para a construção dos Arcos da Lapa. Ela contornava o Morro de Santa Teresa (Morro do Desterro) e seguia rumo à Aldeia Martim Afonso, perto da atual igreja de Santana. Recebeu várias denominações, como Caminho para o Engenho Pequeno, Caminho para a Lagoa da Sentinela, Caminho que vai para São Cristóvão, Caminho da Bica – originado da grande Chácara com este nome situada à esquerda do logradouro - e Caminho de Matacavalos, por conta dos atoleiros que atravancavam o deslocamento desses animais.

Foi ali que morou o General Osório (1808-1879), ministro da Guerra de D. Pedro II, na casa onde hoje funciona a Academia Brasileira de Filosofia, local também escolhido pelo republicano Benjamin Constant (1836-1891), que faleceu no endereço. Em 1870, o Hospital da Ordem do Carmo, fundado em 1773, hoje em pleno funcionamento, foi transferido para a Rua Matacavalos. O velho e o novo convivem em harmonia, a exemplo do charmoso ateliê O Sobrado, que reúne sob um mesmo e acanhado espaço de bolsas estilosas a guloseimas, e a União Beneficente de Choferes, que ocupa o prédio inaugurado pelo ex-presidente Juscelino Kubitscheck na década de 1960.

Sagrado e profano

Outro convívio harmônico é o do sagrado com o profano, este último representado pelo Clube Democráticos e a Gafieira Lapa 40º, com as igrejas Nossa Senhora de Fátima, reduto de portugueses, e a Capela Menino Jesus, sem deixar de lado a Igreja Evangélica da Lapa. A arquitetura é uma miscelânea de estilos, que vai do eclético ao colonial, passando pelo art déco.

O trânsito intenso e a variedade de estabelecimentos são outras marcas da rua, com bares para todo tipo de paladar, supermercados, comércio miúdo, academia de ginástica e casa de sinuca, entre outras modalidades. Verdadeiro carnaval que combina muito bem com os kitschs tapetes cor- de- rosa-choque formados pelos jambeiros.