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Pantanal Carioca

Passeio de três horas de barco pela reserva ambiental na Barra da Tijuca ainda é desconhecido de quem mora no Rio de Janeiro

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Imagine um lugar em que você passeia de barco por uma reserva ambiental, povoada por uma farta variedade de aves, jacarés, capivaras, vegetação intocada; dependendo do ângulo, com a visão do perfil da Pedra da Gávea e silêncio. Muito silêncio. O parentesco com a atração turística de Mato Grosso do Sul rendeu a denominação: Pantanal Carioca, fantástico tour ainda desconhecido da maioria dos moradores da Cidade Maravilhosa, acessível em uma hora e meia de percurso pelo Canal de Marapendi, rumo à Lagoa de Marapendi, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio. Por três horas, ao longo de 22 km de ida e volta, o visitante vai se sentir fora da cidade e mais perto do céu.

“Dependendo do ângulo, nem parece que a gente está no Rio. Chama a atenção a preservação e a volta desta vegetação nativa de restinga, da fauna e da flora, apesar da proximidade de uma área urbanística mais organizada. É uma zona rasa, plana e úmida, de fácil acesso”, descreve o oceanógrafo David Zee. Quem percebeu o potencial turístico do labirinto de 30 pequenas ilhas desertas naquela extremidade, já na altura da Reserva de Baependi, foi o carioca Rômulo Britto Júnior, 46 anos, um dos 150 barqueiros em atividade no complexo lagunar da Barra da Tijuca, que há cinco anos transporta cerca de duas mil pessoas por ano na rota com seu Barra Water Shuttle. “No início eram 80% de estrangeiros, hoje há um equilíbrio com os brasileiros e cariocas”, distingue.

Macaque in the trees
Uma garça moura ensaia seu voo pela vegetação de restinga (Foto: Marcos Tristão)

Para quem vem da Zona Sul, o passeio começa na doca próxima ao Hortifruti do Jardim Oceânico, porém, a saída pode ser agendada de qualquer ponto do percurso que, invariavelmente, terá três horas de duração. A prévia, quase que uma aclimatação, atravessa o Canal de Marapendi, por onde costumam circular vários barcos que transportam moradores das ilhas ou de condomínios que querem ir à praia ou ao continente, além de turistas hospedados na infinidade de hotéis existentes ao longo do percurso. “Olha o quebra-molas”, alerta Rômulo, para que as pessoas levantem os pés do apoio no barco e não se molhem com as marolas formadas pelo deslocamento das embarcações.

Nesse primeiro trecho, apesar da relativa tranquilidade da ‘rua’, se comparada ao trânsito frenético de veículos em terra firme, ainda predominam além da vegetação os prédios altos característicos da Zona Oeste, bem como a poluição de plásticos e lixo acumulados junto às raízes dos arbustos e árvores. Aos poucos, a paisagem começa a se alargar na medida em que a balsa trimarã de Rômulo, com capacidade para 15 pessoas, passa a se aproximar da Lagoa de Marapendi. Como um toque de mágica, a poluição desaparece, e o silêncio se intensifica, quebrado apenas pela trilha sonora de bossa-nova, escolhida a dedo, de acordo com o perfil do grupo.

Quando o barco passa sob a ponte da Avenida Alvorada começam a aparecer os primeiros pescadores, que aproveitam a fartura de tainhas com suas tarrafas e a facilidade do nível raso das águas salobras. Em seguida apontam as cabecinhas dos biguás, que reagem à agitação dos peixes provocada pelo ruído da embarcação e começam a fazer revoadas em bandos com rasantes, para garantir suas cotas de alimentação. Espetáculo gratuito fornecido pela natureza. Enquanto isso, trafegam pelo céu pequenas e grandes garças brancas com seu elegante voo. Muitas delas preferem permanecer descansando nos galhos da vegetação, como se não houvesse amanhã. Rômulo chama atenção sobre a diferença de temperamento entre as garças brancas (Ardea alba) e as garças mouras (Ardea cocoi), essas últimas mais tímidas e reservadas e igualmente belas.

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O bando de biguás, nadando e em voos rasantes para pescar tainhas (Foto: Marcos Tristão)

Quanto mais perto da reserva de Baependi, em seguida ao Hotel Grand Hyatt, no sentido Recreio dos Bandeirantes, a orla fica mais próxima e de alguns pontos dá até para ver trechos da Avenida Sernambetiba. Os prédios desaparecem e a sensação de integração com a natureza se amplia. Rômulo costuma desligar o motor do barco no trecho mais largo da lagoa, para que os visitantes possam ouvir o silêncio. A seguir, começam a aparecer as primeiras ilhotas desertas, cobertas de vegetação de restinga. Durante a semana, é possível encontrar alguns pescadores de rede por ali, fora isso, nenhum vestígio de civilização, apesar do trecho ficar atrás do Rio Design e da Vila Olímpica. Nos fins de semana, há alguns praticantes de esportes aquáticos. No mais, só se veem o verde das árvores e o azul das águas.

Gastronomia e jacarés

Na volta, na medida em que se aproxima o Jardim Oceânico, o perfil da Pedra da Gávea passa a emoldurar o passeio. Rômulo brinca que vai do Pantanal à Veneza, onde cerca de 10 mil habitantes se concentram nas dez ilhas iniciais, sendo as mais povoadas a Ilha da Gigoia e a Ilha Primeira, por cujo canal se pode apreciar e usufruir das atrações gastronômicas da região: só na orla das duas ilhas são 12 estabelecimentos, fora os demais existentes no interior. O acesso para quem vem do continente é permitido pelos barqueiros, sempre disponíveis para fazer os deslocamentos por preços que vão de R$ 1 para moradores e de R$ 3 a R$ 5 para visitantes. Já Rômulo cobra R$ 120 por adultos e R$ 95 para crianças pelo passeio ao Pantanal, com descontos para locais e grupos.

E é no meio dessa ‘civilização’ que fica o berçário dos jacarés, localizado num trecho de mangue onde as fêmeas costumam depositar seus ovos. Ali, é possível ver os répteis de todos os tamanhos, sobretudo nos dias de sol e nos períodos de maré baixa. Na vegetação de mangue, também proliferam caranguejos e o cheiro não costuma ser agradável, graças ao gás metano formado pelo acúmulo de folhas mortas no fundo, revolvido pela hélice do barco. De qualquer forma, é uma emoção à parte apreciar a mansidão e a preguiça dos jacarés quando próximos à superfície das águas. As capivaras também habitam todo o percurso, embora o JORNAL DO BRASIL não tivesse a chance de avistá-las no dia em que fez o trajeto.

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Pescador lança sua tarrafa no trecho mais raso da Lagoa de Marapendi (Foto: Marcos Tristão)

Um dos hoteleiros que está sempre oferecendo a atração do Pantanal Carioca a seus hóspedes é Eduardo Serra, 41 anos, que há dois anos montou o simpático hostel Casa do Mundo, na beira da Ilha da Gigoia. “É um oásis, muita gente que mora na Barra nem sabe que isso existe”, vibra. Foi o caso da família que desfrutou do passeio no mesmo barco que o JB, na quarta-feira passada. Embora nascidos no Brasil, o casal Hugh e Joanne Murdoch, 76 e 73 anos, de origem inglesa e uruguaia — e com total aparência de gringos acentuada pela comunicação em inglês —, moradores do Recreio dos Bandeirantes, e seu filho Phillip com a nora Renée, ambos de 50 anos, ela, americana, moradores do Itanhangá, foram todos introduzidos ao Pantanal Carioca. “Lindo demais!”, suspirou Joanne, que leu sobre o passeio e resolveu experimentar a aventura com a família.



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