Jornal do Brasil

Rio

Visita teatralizada no Grande Templo Israelita resgata a Praça Onze como ponto de encontro entre negros e judeus

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

A Praça Onze, na Cidade Nova, foi palco de um inusitado encontro nas primeiras décadas do século passado. O compositor e pintor Heitor dos Prazeres chegou a batizar o local de Pequena África, por conta da numerosa população negra que habitava a praça, em busca dos baixos preços oferecidos. O mesmo atraiu os imigrantes judeus que deixavam a Europa em fuga à perseguição nazista. Não fosse a modernização da cidade, que demoliu o intenso comércio e as mais de mil casas existentes para a construção da Avenida Presidente Vargas, entre 1941 e 1944, a primeira sinagoga construída na América do Sul, que custou 270 mil contos de reis, estaria hoje em plena atividade. Toda essa história é contada na visita teatralizada, aberta ao público, em “Grande Templo Israelita”, que acontece aos domingos, às 11h, com ingressos a R$ 1.

Macaque in the trees
Quatro atores conduzem o público pelo Grande Templo Israelita, no Centro, numa visita teatralizada que lembra a chegada dos judeus ao Rio e seu contato com os negros (Foto: José Peres)

A sinagoga, que se mantém fechada, é resgatada como cenário para falar da relação entre estas duas populações, no texto muito bem costurado pela roteirista Daniela Chiandler, de 51 anos, autora de vários projetos realizados em espaços tombados, como a própria igreja. Quatro atores se revezam pelo templo, as atrizes Júlia Drummond e Diana Vaisman, que atuam e cantam caracterizadas como melindrosas, assim como os atores Nano Max, o judeu, e Gabriel Hipóllyto, o negro, que toca violão enquanto conta histórias como a de Tia Ciata, como era conhecida a negra baiana Hilária Batista de Almeida. Além de percorrer as ruas da região vendendo quitutes, ela era uma Iya Kekerê, ou seja, a principal auxiliar do pai de santo do candomblé que frequentava. Graças a seus conhecimentos da medicina africana acabou curando uma ferida na perna do então presidente Venceslau Brás. Em troca, a polícia deixou de perseguir as rodas de samba frequentadas por nomes do quilate de um Pixinguinha.

Trata-se de uma etapa na história da região que foi um mangue pouco habitado, conhecido como Largo do Rocio. O cenário começou a mudar a partir do Segundo Reinado, quando passa a atrair a atenção do governo de Dom Pedro II. Um chafariz em pedra, instalado na praça para abastecer a região, foi projetado para o local pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny. O batismo como Praça Onze de Junho só ocorreu posteriormente, em uma homenagem à vitória brasileira na Batalha do Riachuelo contra o Paraguai, ocorrida nesta data, em 1865.

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Quatro atores conduzem o público pelo Grande Templo Israelita, no Centro, numa visita teatralizada que lembra a chegada dos judeus ao Rio e seu contato com os negros (Foto: José Peres)

A apresentação do grupo começa pelo hall do templo, inaugurado em 1932, a partir do projeto vencedor de um concurso pelo arquiteto italiano Mario Vodret, adaptado por outro italiano, Guido Levy, judeu, que também assinou o palacete do Parque Lage, no Jardim Botânico, na Zona Sul da cidade. Situado na esquina das ruas Tenente Possolo e Henrique Valadares, a construção da sinagoga, com duas majestosas torres de 26 metros, foi viabilizada pelas economias dos comerciantes judeus.

Hábitos e tradições

No início, os atores discorrem sobre a cultura judaica e a trajetória do povo pelo mundo. Muitos deles acabaram sofrendo perseguições dos portugueses e foram parar em locais como Nova York, nos Estados Unidos. Antes de entrar na igreja propriamente dita, os alunos de uma escola pública que acompanhavam a visita na última quinta-feira — quando, além das terças-feiras, ocorrem encontros agendados — cobriram suas cabecinhas com solidéus, ou quipás, usados pelos judeus para lembrar a presença de Deus. “A cúpula da igreja também tem a mesma forma”, destacou um dos atores. Entre outras coisas, os visitantes aprendem que a Torá, livro mais sagrado da religião judaica, escrito sobre um pergaminho, é organizado em rolos dispostos nas sinagogas em torno de pedaços de madeira. Já o candelabro de sete braços, denominado menorá, é o símbolo mais antigo do judaísmo e do povo judeu.

As atrizes, por sua vez, lembram o drama das polacas, judias polonesas alvos de tráfico de mulheres brancas, que chegaram ao Brasil sob a promessa de encontrarem maridos e acabaram prostituídas. A graciosa Júlia Drummond revela curiosidades como a manutenção do hábito dos judeus russos de tomar sopa, mesmo sob o calor de 40 graus do Rio de Janeiro. E, mais adiante, revela: “Cheguei ao Rio em pleno carnaval. Ninguém me apontou como judia, me jogaram confete e serpentina, e tive a certeza de que nunca mais voltaria à Rússia”.

A peça itinerante, que termina no salão de festas da sinagoga, conta detalhes saborosos da vida urbana do Rio nas primeiras décadas do século passado, com as viagens de bonde — chegam a mencionar a crônica “Como se comportar nos bondes” de Machado de Assis, de 1833 — e com o intenso comércio local, onde “prestamistas” (ambulantes) dividiam espaço com açougues kosher, vendedores de bagels (rosquinhas trançadas salpicadas de gergelim), hospedarias, chapelarias, sapateiros, livrarias, casas de tecido, tipografias, cortiços, casas de cômodos e até fábricas, como a Manufactura de Cerveja Brahma Villiger & Companhia, na Visconde de Sapucahy, entre outros negócios introduzidos pelos imigrantes judeus. Devidamente compostos com o ornamento, lamentam o fim do uso dos chapéus: “Se foram, como um hábito de homens e mulheres daquela época”.

Segundo a autora, até então os textos existentes sobre os tempos áureos da Praça Onze contavam as histórias dos dois povos separadamente. “Mas eles estavam juntos”, argumenta. O projeto foi patrocinado pela Prefeitura do Rio e pela Secretaria Municipal de Cultura, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, a Lei do ISS.



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