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Os descaminhos e os caminhos para o Rio

Debate aponta problemas do estado e sugere soluções à crise

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Na manhã de ontem, o Rio de Janeiro foi esmiuçado sem cerimônia. O estado cuja capital é conhecida como Cidade Maravilhosa teve seu perfil traçado de forma bem realista em simpósio organizado pelo Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas sobre Democracia (Cebrad), da Uerj, em parceria com o JORNAL DO BRASIL. O evento, que havia começado no último dia 30 com o tema “Desafios e perspectivas do Brasil”, dessa vez teve ênfase nas questões metropolitana e estadual. Mediada pelo jornalista Jan Theophilo, titular do “Informe JB”, a primeira mesa do dia começou de forma consistente com o professor Paulo Baía, que se propôs, em 20 minutos, a sintetizar o modus operandi das elites políticas do Rio. O cientista político demonstrou como elas, a despeito de percalços, vão, ao mesmo tempo, se perpetuando e impondo obstáculos a uma renovação.

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Os palestrantes de ontem: Mauro Osório, Bruno Sobral, Cláudio Alfradique, Paulo Baía, Jacqueline Muniz e Geraldo Tadeu (Foto: José Peres)

Baía exemplificou sua linha de raciocínio. Lembrou que Chagas Freitas, com boa relação com militares, expandiu ainda mais sua influência a partir do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), dominando a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), mesmo sendo Negrão de Lima o governador do Estado da Guanabara à época (1965-1971). O próprio Chagas Freitas ocuparia o cargo entre 1971 até 1975 — e ainda seria governador do Estado do Rio de Janeiro entre 1978 e 1983.

O domínio da Alerj, pontuou o palestrante, foi estratégico na longevidade de lideranças políticas, lembrando que o ex-governador Sérgio Cabral teve mandatos sucessivos como deputado estadual em 1990, 1994 e 1998, ficando à frente da presidência da Alerj por seis vezes, entre 1993 e 2002 pelo PMDB. “Esse domínio do PMDB teve à frente Jorge Picciani e Paulo Melo, que se articularam nos anos 1980”, disse Baía, que terminou sua palestra com uma má notícia: “Não haverá uma grande renovação política na Alerj”. Ele explicou que os políticos associados a esse grupo do atual MDB (sem o P) estão apoiando diferentes candidatos ao governo do estado: Romário (Podemos), Eduardo Paes (DEM) e Índio da Costa (PSD).

Demandas sociais

O simpósio prosseguiu pela manhã entre o pessimismo e o realismo. Bruno Sobral, economista e professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), intitulou sua exposição como “A máquina pública do Estado do Rio frente às demandas sociais”. Ele deixou claro que, na sua visão, a União não assume seu papel de coordenadora da federação brasileira. “O Rio de Janeiro não é tratado como um ente federativo pelo governo federal, que faz apenas o papel de credor’’, disse. O professor ressaltou que essa opção pelo arrocho fiscal em relação ao Rio, ao não fazer políticas de incremento ao consumo, recrudesceu a própria recessão, intensificando os problemas sociais.

Na terceira explanação do dia, Cláudio Alfradique, doutor em ciência política e auditor do Tribunal de Contas do Estado (TCE), tratou dos erros do governo estadual ao atrelar a economia fluminense aos royalties do petróleo, ao exacerbar a política de concessão de benefícios fiscais e imprimir altos custos às obras da Copa do Mundo (2014) e dos Jogos Olímpicos (2016). “Aos incentivos fiscais para grandes empresas, faltou critério, sobretudo em relação ao retorno desse tipo de diretriz para o Rio”, afirmou ele.

Mediado por Gilberto Menezes Côrtes, vice-presidente editorial do JB, o segunda mesa do dia foi aberta pelo economista Mauro Osório, presidente do Instituto Pereira Passos. Seu relato sobre os potenciais econômicos do Rio foi pontuado sobre como o estado vem perdendo oportunidades de levá-los à frente. Osório, contudo, deu um toque de otimismo ao dizer que alguns sinais de recuperação estão à vista. Para materializá-la, ele sugere à Baixada Fluminense algo semelhante ao Plano Marshall, vinculando a atração de atividades produtivas à região a exigência de investimentos em infraestrutura, já que problemas básicos ainda não foram solucionados ali, como abastecimento e esgotamento sanitário.

O debate se manteve em alto nível com a exposição da antropóloga e cientista política Jacqueline Muniz, demonstrando que a opção pela política de segurança associada à estratégia de guerra vem dando errado há décadas no Rio. A produção acadêmica no Rio, acentuou ela, mostra que esse tipo de opção é extremamente equivocada. “O Rio tem uma produção acadêmica que não só se contrapõe à política de guerra como também aponta caminhos”, disse Muniz.

O sociólogo e professor Geraldo Tadeu Monteiro (Cebrad/Uerj) esquadrinhou todo o potencial de conhecimento do Rio e como ele deveria ser utilizado como um poderoso antídoto de enfrentamento da crise. “Temos em nossas instituições de ensino em geral um grande estoque de conhecimento. O problemas de não utilizá-los mais em favor do Rio é político. Nossas universidades são subutilizadas”, afirmou.



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