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Destruição do Museu Nacional do Rio causa tristeza e revolta

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O incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro destruiu a memória de uma cidade que foi capital do império e colocou em primeiro plano o debate sobre os cortes orçamentários que ameaçam a preservação de um patrimônio multissecular.

"Só chorar não adianta, é necessário que o governo federal, que tem recursos, ajude o museu a recompor sua história", afirmou nesta segunda-feira (3), em frente ao prédio destruído, o diretor da bicentenária instituição, Alexandre Keller.

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Fogo tomou conta rapidamente de todo o palácio que abrigava o Museu Nacional, destruindo completamente o acervo da instituição, criada há 200 anos por D. João VI (Foto: José Lucena/AE)

"Clamamos por ajuda. Queremos que as pessoas se indignem pelo que aconteceu aqui. Parte dessa tragédia poderia ser evitada. Não adianta só chorar. Agora temos que agir", insistiu.

Na parte da manhã, funcionários do Museu se abraçavam e tentavam avaliar a magnitude da tragédia. Os ferros retorcidos e os escombros se acumulam no primeiro piso, o teto desapareceu e, em uma das alas, o segundo e o terceiro pisos desmoronaram. A fachada resistiu, constatou uma repórter da AFP.

Equipes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil começaram a entrar, com prudência, no edifício, para verificar se ainda há alguma coisa que possa ser salva de seu imenso patrimônio, disse um porta-voz dos bombeiros à AFP.

A operação é perigosa, em razão dos riscos de desabamentos.

"A fachada é bem resistente, mas muita coisa caiu do teto", afirmou o porta-voz.

"Vamos proceder com muito cuidado para ver se a gente consegue salvar alguma coisa", indicou, acrescentando: "desconheço se alguma sala foi preservada".

O Museu Nacional era o maior museu de história natural e antropológico da América Latina, com mais de 20 milhões de peças e uma biblioteca com mais de 530.000 obras.

A tragédia, que não deixou vítimas e ainda não teve os danos calculados, começou às 19h30 por causas que não foram determinadas até o momento, quando o local já estava fechado ao público.

O edifício de mais de 13.000 metros quadrados, localizado na Quinta da Boa Vista, na zona norte do Rio, foi rapidamente devorado pelas chamas, alimentadas pelos materiais altamente inflamáveis.

Foram necessárias seis horas para que os bombeiros mobilizados controlassem o incêndio. Segundo a imprensa, eles encontraram sérios problemas de logística que retardaram sua atuação.

Criado em 1818 por Dom João VI e instalado desde 1892 no antigo palácio imperial de São Cristóvão, o museu também abriga um excepcional jardim botânico de 40 hectares.

A instituição, que comemorou em junho seu bicentenário, recebia 150.000 visitantes por ano e era um importante centro de pesquisa e estudo, integrado desde 1946 à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O museu era particularmente conhecido por seu rico departamento de paleontologia, com mais de 26.000 fósseis, incluindo o esqueleto de um dinossauro descoberto em Minas Gerais e inúmeros espécimes de espécies extintas, como preguiças gigantes e tigres dentes de sabre.

Sua coleção de antropologia biológica incluía o mais antigo fóssil humano descoberto no Brasil, conhecido como "Luzia".

 

Pesquisadores, estudantes e movimentos sociais convocaram uma manifestação para esta manhã em frente ao museu e na parte da tarde no centro do Rio de Janeiro para denunciar os cortes no orçamento que atrasaram a modernização dos dispositivos de segurança do Museu.

A destruição do exuberante edifício logo liderou os trending topics mundiais do Twitter e, nesta segunda, a hashtag #LutoMuseunacional continuava entre os cinco primeiros.

"É uma perda para todo mundo, para o Brasil, para a UFRJ, para o povo. Não vamos mais suportar este estrangulamento de recursos. Isso é um sinal da falta de investimentos, da falta de recursos e das consequências que isso acarreta", declarou à AFP o diretor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da UFRJ, Roberto Antônio Gambine Moreira.

Os ministros da Cultura e da Educação convocaram uma coletiva de imprensa para as 14h30 em frente ao edifício.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, admitiu no Twitter que "a tragédia poderia ter sido evitada".

"Os problemas do Museu Nacional foram se acumulando ao longo do tempo. Não começaram este ano. Em 2015, por exemplo, foi fechado por falta de recursos para sua manutenção", recordou o ministro, no cargo desde 2017.

"Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos 200 anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar", afirmou o presidente Michel Temer em um comunicado divulgado no domingo à noite.

 

ar-js/mr/tt



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