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Caminhos percorridos por Darwin já têm demarcação concluída no trecho que vai de Niterói a Maricá

Trecho faz parte da trilha de 74km que pode ser percorrida a pé até Saquarema

Jornal do Brasil CELINA CÔRTES, celina.cortes@jb.com.br

Quando o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) percorreu o litoral de Niterói ao Rio Macaé, no interior do Estado do Rio de Janeiro (leia trechos do diário na página ao lado), jamais poderia imaginar que sua expedição seria transformada na Rota Darwin — 74 km da estação hidroviária da Praça Arariboia, no Centro de Niterói, à divisa de Saquarema com Maricá —, 186 anos depois. O jovem, nascido de família aristocrática inglesa, que estudou geografia e ciências naturais contra a vontade paterna, que o preferia médico, partiu aos 22 anos a bordo do navio Beagle, em 27 de dezembro de 1831, rumo à viagem de cinco anos pelo mundo que o ajudou a formular sua revolucionária Teoria da Relatividade Biológica. Ele chegou ao Rio em 1832 e explorou, a cavalo, a região de Niterói a Saquarema, numa emocionante incursão à exuberante Mata Atlântica, até então, uma ilustre desconhecida dos europeus.

Macaque in the trees
O mapa indica a trilha da Rota Darwin, entre Niterói e Saquarema, demarcada, por enquanto, até o limite entre Niterói e Maricá (Foto: Reprodução)

A ideia da rota amadureceu a partir da parceria entre o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), o Instituto Chico Mendes de Conservação Ambiental (ICMbio) e as prefeituras de Niterói, Maricá e Saquarema, firmada em 2017. Na última quinta-feira, Alex Figueiredo, administrador do Parque Natural de Niterói (Parnit) e o voluntário Felipe Ayres concluíram a demarcação até o limite Niterói-Maricá, na Serra da Tiririca, uma das três unidades de conservação ambiental que a rota atravessa na terra de Arariboia.

A demarcação, sinalização rústica que reproduz a pegada de uma bota, é marcada pelas características de cada trecho do Projeto de Sistemas Brasileiros de Trilhas, com o qual o ICMbio pretende interligar o país, a pé, do Oiapoque ao Chuí. A Rota de Darwin é marcada pela imagem de um primata que alude à Teoria da Evolução, que derrubou, em pleno século XIX, dogmas religiosos ao atribuir a evolução da raça humana à seleção natural. Segundo o engenheiro florestal Axel Grael, secretário Executivo de Niterói, trazer Maricá e Saquarema ao projeto integra a construção de uma trilha de longo curso, de norte a sul do país. “Procurei o ICMbio para propor a incorporação da trilha nos três municípios e, assim, ampliar a conservação ambiental com estímulos mútuos”, explica. O projeto visa a atingir não apenas os turistas que apreciam o trekking, como pesquisadores.

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Alex Figueiredo e Felipe Ayres concluem a demarcação do trecho de Niterói (Foto: Marcos Tristão)

Ao sair do Centro de Niterói, a rota passa pela Área de Proteção Ambiental (APA) do Morro do Gragoatá, pelas cavernas do Museu de Arte Contemporânea (MAC), pela Ilha da Boa Viagem, pelas pedras do Índio e de Itapuca, e segue para o bairro de São Francisco em direção à sede do Parnit, no setor Montanha da Viração, de onde se observa uma vista panorâmica da orla, devidamente apreciada por Darwin. Daí, segue pela trilha Tupinambás rumo à Ilha do Pontal, com grande diversidade de fauna, que vai do biguá ao gavião-de-calda branca. Ali, o visitante também pode se surpreender com a beleza do bosque vermelho, formado pelo cambuí, pequena árvore da família Myrtaceae, com seu caule avermelhado.

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Insetos perambulam pela trilha de acesso à nascente do afluente do Rio João Mendes, na Serra da Tiririca, por onde Darwin andou (Foto: Marcos Tristão)

A partir de então, a Rota Darwin corta o bairro de Itaipu e passa pelo Parque Estadual da Serra da Tiririca (Peset), prossegue pelo mangue do Canal do Camboatá e pela trilha Córrego dos Colibris. Conforme o geógrafo Thiago Leal, da Secretaria de Meio Ambiente de Niterói, um dos objetivos da rota é privilegiar áreas da cidade ainda sem apelo turístico, como a própria Serra da Tiririca — de onde parte uma aprazível trilha de 410m até a nascente de um afluente do Rio João Mendes, no trecho de uma fazenda hoje totalmente reflorestada —, assim como a Ilha do Pontal e a Pedra de Itaocaia, em Maricá, de onde se aprecia outra vista panorâmica para a orla fluminense. Daí em diante, a rota passa pela APA de Maricá, pelas praias de Itaipuaçu, de Barra de Maricá, pela unidade de conservação Refúgio de Vida Silvestre, pela APA das serras de Maricá, perto do Canal de Ponta Negra, e acaba na divisa com Saquarema.

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Os trechos do diário de Darwin, escritos entre 4 e 22 de abril de 1832 (Foto: Editoria de arte)

Por onde Darwin passou, contudo, ninguém sabe ao certo. É consenso que ele partiu da Praça Arariboia, porém, haveria três alternativas para que alcançasse a nascente da Serra da Tiririca e a fazenda Itaocaia — locais que ele certamente conheceu —, onde se impressionou com a senzala de escravos. A recém-criada Rota Darwin, por sinal, é uma versão atualizada e ampliada dos Caminhos de Darwin, com 2,2km, cuja ideia nasceu em 2001 na Companhia de Recursos Minerais. Depois, professores da Universidade Federal Fluminense (UFF) providenciaram a demarcação do percurso, com cartazes explicativos, que vem sendo explorado por estudantes e visitantes da região.



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