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Movimento negro com mais peso no Valongo

Comitê do cais toma posse com dez entidades de matriz afrodescendente e meta de acelerar cumprimento de exigências da Unesco

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON, rogerio.daflon@jb.com.br

Transformado em Patrimônio Mundial em 2017, o Cais do Valongo, na Região Portuária, passou a contar, desde ontem, com um comitê gestor. Com 17 membros, a posse dele foi no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O grupo será responsável pelas decisões sobre como o sítio histórico será preservado, seguindo as diretrizes da Unesco, e nasce da necessidade de acelerar o cumprimento das exigências estipuladas pelo órgão internacional, com prazos que variam entre este ano e 2019. A agência das Nações Unidas exige que se crie um centro de interpretação sobre as pessoas escravizadas que chegaram ao Valongo vindas da África. Determina ainda que sejam feitos o projeto educativo, o tratamento paisagístico e a continuidade da pesquisa arqueológica do local. Na posse do comitê, uma celebração de matriz africana animou a cerimônia.

Macaque in the trees
Comitê do Cais do Valongo toma posse (Foto: Fotos de divulgação/Iphan)

O comitê contará com dez entidades associadas ao movimento negro, entre elas o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro, o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos do Negro, o Centro Cultural Pequena África, o Instituto Pretos Novos e a Associação da Comunidade Remanescente de Quilombo da Pedra do Sal. Entre as instituições públicas, há, além do Iphan, a Fundação Cultural Palmares, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), a Secretaria Municipal da Cultura, a Secretaria de Estado da Cultura, a Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp), o Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e a Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro (Riotur).

O cais data de 1811 e servia ao desembarque e ao comércio de pessoas escravizadas. Mais de um milhão delas teria passado pelo cais. Em 1843, contudo, o local foi coberto pelo Cais da Imperatriz, para receber a então imperatriz Teresa Cristina de Bourbon, então esposa de Dom Pedro II. E, no contexto da reforma urbana do então prefeito Pereira Passos (1902-1906), o próprio Cais da Imperatriz foi ocultado por um novo piso ali.

Macaque in the trees
Festa de matriz africana (Foto: Fotos de divulgação/Iphan)

O cais será o centro de um seminário a ser organizado pela prefeitura, no Museu do Amanhã, no qual já será apresentado um estudo arqueológico mais completo da região. O comitê já começa a se reunir na primeira semana de setembro.

O comitê já decidiu que a sinalização no cais terá de ser acompanhada por uma iluminação cênica. Já o Centro de Interpretação, além de aprofundar os estudos e apresentá-los a pesquisadores ou visitantes, terá uma exposição do acervo arqueológico encontrado nas escavações na região portuária.

O plano de gestão, a ser tocado pelo comitê gestor, prevê a realização de jornadas de educação. A ideia é promover o maior número de debates sobre o Cais do Valongo. Os planos do comitê gestor também vão ter de incluir a solução para alguns problemas na região do Valongo. Um deles é um muro do Hospital dos Servidores, atrás do qual há um depósito de lixo hospitalar. O muro impede a circulação total ao longo do cais. Outro obstáculo a ser superado é o prédio Docas Pedro II, projetado pelo engenheiro André Rebouças no século 19. O edifício está ocupado pela ONG Ação da Cidadania contra a Fome, que diz que só saíra de lá indenizada ou para uma outra edificação. Ainda há o casario do Quilombo da Pedra do Sal com sérios problemas estruturais.



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