Crítica teatro - 'Breu', por Ana Lúcia Vieira Andrade

Um intrigante espetáculo com texto de Pedro Brício, jovem dramaturgo que vem se destacando no panorama teatral do Rio de Janeiro nos últimos anos, está em cartaz no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil:  Breu, com direção de Maria Sílvia Siqueira Campos e Miwa Yamagizawa, a peça, que se passa nos anos de 1970,  período da repressão política, mostra um dia no relacionamento de duas mulheres que pouco se conhecem, mas que buscam se observar e se compreender numa relação  em que sentimentos como desconfiança, medo, raiva e solidariedade se misturam. Ao entrar no espaço do teatro, o espectador se depara com uma penumbra que logo se transforma no breu a que se refere o título.  Lá, ele é convidado a experimentar as sensações da personagem vivida por Kelzy Ecard, Carmem, uma cega que contrata a ajuda de uma jovem para a realização de tarefas domésticas.  Na intimidade do ambiente da cozinha, no qual o espectador é inserido através de um cenário belo e marcante, extremamente realista, onde as personagens cozinham, abrem as janelas, lavam louça, segredos são pouco a pouco revelados e experiências privadas adquirem um sentido existencial amplo.

Ao iniciar a peça com o relato de um sonho, Pedro Brício parece propor ao público uma reflexão sobre os limites do gênero dramático, pois trabalha de maneira propositadamente preguiçosa com o imperativo de criar tensão ou conflito.  Não existe de forma clara, na construção inicial do texto, o desenho de uma vontade dirigida à realização de determinado objetivo.  Os diálogos giram em torno de preferências culinárias e de acontecimentos cotidianos; no entanto, essa suposta banalidade esconde o medo, o abandono e a impotência diante do contexto político da época retratada.  Assim, Breu é a cegueira de uma personagem, a  de uma época e também a escuridão, o autoritarismo, a falta de solidariedade daquele e de todos os tempos.

O trabalho conjunto das encenadoras explora de maneira competente as tensões subjacentes aos diálogos.  No elenco, Kelzy Ecard se destaca pela segurança com que explora a solidão e os sentimentos contraditórios de sua Carmem.  Também Andréia Horta apresenta de maneira hábil a jovem Aurora, que vai passando, ao longo do espetáculo, por diferentes gradações, da insegurança e aparente ingenuidade ao domínio mais sólido da situação.

Bom programa para os que se abrem a um teatro mais preocupado em descobrir diferentes possibilidades de ser.

Cotação: ** (Bom).