ASSINE
search button

Crítica: 'Sequestro'

Compartilhar

Por 4 anos, a equipe de filmagem de Sequestro  acompanhou as ações da Divisão Antissequestro de São Paulo, filmando prisões, descobertas de cativeiros, salvamentos de vítimas e gravando depoimentos com os envolvidos nos sequestros. Conseguiram captar momentos de fortes emoções, em filmagens com a câmera na mão, misturando cinema direto e jornalismo investigativo. Mas, quem tem a consciência de que ficção e documentário são apenas rótulos para se separar filmes em videolocadoras, já que a linguagem e a verdade cinematográfica como ponto de vista já transcendem sua possível comparação com um documento “real”, se pergunta o porquê de muitas escolhas dos realizadores do filme.

Os créditos iniciais, que explicam a provável origem do boom de sequestros no Brasil e América Latina após o fim da Guerra Fria, já representam bem o que o filme fará uso para estabelecer sua linguagem. Cartelas estilizadas em terceira dimensão, com música de filme policial americano ao fundo, construindo uma trama em moldes clássicos de ficção, comum aos nossos olhos. Essa tentativa de aproximação com a linguagem ficcional policial, que vai da trilha sonora aos planos ágeis com câmera na mão, explica-se rapidamente, ao percebermos que a intenção do filme é, mais que investigar a fundo e conhecer o tema, identificação e choque do espectador. Identificação conseguida através da linguagem já mencionada e, é claro, da vitimização de uma sociedade que estaria à mercê desse “mal” proveniente dos sequestradores. Sociedade essa que se conforta na posição de vítima, vitíma do Estado, dos bandidos, das doenças psicológicas, da corrupção.

E uma visão, que já tem o ponto de vista da polícia e das vítimas, não precisaria apelar para uma montagem que expõe sequestradores e suas famílias sendo humilhados em close, enquanto em contraplano vemos o sorriso vencedor e superior do policial. Policial esse que, como mostrado em diversos trechos do filme, por seu trabalho de dificuldade extrema, já teria naturalmente identificação com o público. Mas não, é necessário ressaltar que o policial não tem tempo para a família, que a vítima foi abusada por uma figura “desumana”. Essa necessidade de se separar o bom do mau, por mais que se justifique e talvez se explique pela proximidade da equipe por um longo período com a Divisão, acaba por esvaziar e deixar superficial um discurso que se propunha a abordar um tema interessantíssimo.

O filme merece destaque pelas fortes imagens conseguidas em um inédito acompanhamento da Divisão, mas peca pela superficialidade da montagem e do discurso final. Vazio o discurso que simplifica a história do sequestro como proveniente de movimentos de esquerda falidos, vazia a contraposição do sequestrador demonizado com o policial santificado. Um filme pode e deve ter um ponto de vista claro (a verdade é que ele sempre terá, querendo ou não). Mas tem de ter consciência da responsabilidade que isso acarreta.

Cotação: * (Regular)