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Economia de SP é novo pilar de discurso de Doria para 2022

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A economia será o novo pilar do discurso do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), para a construção de sua pretendida candidatura à Presidência da República em 2022.

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João Doria (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil )

Até aqui, o tucano considerava estabelecidas duas outras linhas retóricas: segurança pública e combate à pobreza na área mais carente do estado, o vale do Ribeira.

Auxiliares de Doria acreditam que os bons números da economia paulista, em relação ao conjunto do país, podem formar uma base direta de comparação com o desempenho do governo Jair Bolsonaro (sem partido).

Segundo a Secretaria da Fazenda paulista, o estado cresceu 2,6% em 2019, ante cerca de 1% do país.

Essa melhoria possibilitou um pequeno efeito cascata de arrecadação que deverá ter repercussões neste ano de eleições municipais, com um aumento de 8% na distribuição da parcela do ICMS (principal imposto estadual) que cabe às 645 cidades paulistas.

Houve também um reforço de caixa extra, com o sucesso do programa de parcelamento de dívidas do mesmo tributo. Foram pouco mais de R$ 10 bilhões arrecadados, mais de três vezes a expectativa inicial, e quase R$ 3 bilhões já entraram como parcela única.

Entre técnicos, a expectativa é de que o Produto Interno Bruto paulista suba um pouco mais em 2020, talvez algo acima de 3%.

Isso embasa, para a área política do governo, o discurso de que São Paulo é mais responsável pelo crescimento brasileiro do que a área econômica de Bolsonaro.

Membros do governo, como o secretário Henrique Meirelles (Fazenda), já vêm propagandeando a criação de 291 mil vagas —a maior do país, o que é uma boa frase de efeito, mas que escamoteia o fato óbvio de que São Paulo tem a maior população brasileira e concentra 1/3 de seu PIB.

Os dados foram publicado na manhã desta quarta (8) por Doria em sua conta no Twitter, na qual ele usualmente publica fotos de reuniões com empresários.

Emprego é um ponto especialmente sensível no debate sobre o estado da economia, já que apesar da redução em 2019 ele ainda atinge 12 milhões de brasileiros e é geralmente o último ponto em que melhorias hoje levemente aferidas por indicadores macroeconômicos são sentidas pela população.

Além disso, embora a tônica no Palácio dos Bandeirantes não seja de considerar a ideia de que obra ganha eleição viável, há também preocupação em mostrar serviço na área.

Também foi feita nesta quarta (8) a licitação que o estado já fez de estradas, trecho de 1.200 km por R$ 1,1 bilhão. A concessão à iniciativa privada deve estar finalizada até o fim do ano, com instrumentos que visam a redução no custo do pedágio.

O vice-governador, Rodrigo Garcia (DEM), elaborou também um sistema para o acompanhamento online de todas as obras estaduais.

O programa começou a funcionar no fim do ano e pretende ser uma ferramenta de cobrança do secretariado em um ano que promete apresentar algum espaço fiscal para investimento, por menor que seja.

Se todo o pacote será comprado pelo eleitor potencial, é outra história.

O governador apresenta bastante dificuldade com sua imagem: o Datafolha mostrou no domingo (5) que, entre os brasileiros que o conhecem, 69% confiam pouco no paulista. Apenas 7% o consideram bastante confiável.

Já rivais potenciais em 2022 estão melhor. O apresentador da Globo Luciano Huck é visto como muito confiável por 21%, Bolsonaro, por 22%, o petista Luiz Inácio Lula da Silva, por 30%, e o ministro Sergio Moro (Justiça), por 33%.

Estrategistas do PSDB consideram que a desvantagem é reversível, mas depende do trabalho sobre pontos indicados em pesquisas qualitativas: o excessivo caráter paulista de Doria e sua imagem autossuficiente, vista em alguns grupos como arrogante ou elitista.

Assim, mesmo a ideia de apresentar São Paulo como modelo embute riscos: moradores de outras regiões podem ressentir um ar de superioridade em tal propaganda.

A segurança seguirá sendo um carro-chefe da marca que Doria pretende vender. Os números mais recentes apontam quedas inéditas na taxa de homicídios, seguindo uma tendência que já se observava em 2017.

O outro ponto fala diretamente ao Nordeste: o projeto Vale do Futuro. Nele, o tucano pretende apresentar soluções para qualificar mão de obra e melhorar indicadores no vale do Ribeira, dono dos índices de desenvolvimento humano mais baixos de São Paulo.

Como diz um aliado de Doria, é preciso ter algo a mostrar como exemplo para o eleitorado mais pobre e conservador —que oscila entre o petismo e o bolsonarismo hoje. Por óbvio, o Vale do Futuro tem de dar algum resultado para a tática funcionar.

Há questões de ordem interna também. No PSDB, há setores que acreditam ser possível minar a candidatura presidencial do governador.

Por isso há um trabalho de promoção de nomes alternativos dentro da sigla, como o governador Eduardo Leite (RS), embora mesmo esses adversários de Doria admitem que será muito difícil barrar o paulista no cenário atual.

Isso pode até antever um racha interno, com os adversários do governador migrando para uma eventual candidatura de Huck —que já é apadrinhado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas cuja real intenção de disputar ainda é alvo de dúvidas.

Hoje, os pró-Doria dão de ombros e afirmam que o governador muda de partido, se for o caso, para 2022 —considerando, claro, a manutenção do cenário atual.

Não parece ser tão simples, dado que a costura de alianças em um ambiente em que o PSDB não é mais o partido dominante da polarização histórica recente com o PT será bastante mais complexo.

Agremiações como o DEM e o PSD tendem a sair reforçadas do pleito municipal, o que deixará os tucanos na obrigação de manter o controle da capital paulista.

E isso é algo longe de estar assegurado, até pelas dúvidas sobre as condições de o prefeito Bruno Covas concorrer, dado que está em tratamento de câncer.(igor Gielow/FolhaPress)