Sob pressão dos inquéritos da PF, Temer tenta retomar rotina e mostrar otimismo

Mesmo visivelmente abatido, o presidente Michel Temer resolveu recobrar o fôlego e enfrentar a agenda de chefe do Executivo em paralelo às investigações policiais que envolvem o seu nome e de gente do seu partido, o MDB. Ontem, na cerimônia de lançamento da pedra fundamental do Reator Multipropósito Brasileiro, em Iperó (SP), ele utilizou cinco vezes a palavra “otimismo” e uma vez o adjetivo “otimista”.

Depois de afirmar que encontrou nos chefes de estado que estiveram na Cúpula das Américas em abril um “otimismo até quase exagerado”, Temer disse que “nós temos às vezes um certo pessimismo”. Em seguida, afirmou sentir o mesmo otimismo ao visitar o local, onde o Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LabGene) desenvolve o protótipo terrestre do submarino nuclear.

“Vamos nos inspirar nesse extraordinário desenvolvimento tecnológico que está sendo feito nessa região, para dizer: vamos ser todos otimistas na convicção mais absoluta de que o Brasil merece esse otimismo”, disse o presidente, sem mencionar a quem se dirige a injeção de ânimo.

A nuvem cinzenta persegue o presidente no campo político, com a baixa popularidade e isolamento dos colegas – até mesmo o candidato do Planalto à presidência, Henrique Meirelles, tem tentado descolar a sua campanha do padrinho político; no econômico, com o dólar oscilando fortemente, mais para cima do que para baixo, crise de combustível, crise nos transportes; e no pessoal, com dois inquéritos na Lava Jato que podem expor seu extrato bancário e conversas telefônicas comprometedoras. Um dos inquéritos investiga irregularidades no Decreto dos Portos, pelo qual o presidente teria beneficiado a empresa Rodrimar em troca de propinas. O outro, diz respeito ao recebimento de recursos indevidos da construtora Odebrecht.

O presidente pretende seguir com cerimônias e articulação política e eleitoral até o fim do mandato, enquanto aguarda o desenrolar das investigações. Na próxima semana sancionará a lei do Sistema Único de Segurança Pública e também assinará decretos que regulamentam o Código de Mineração. O presidente também participará, no dia 18 de junho, da Cúpula dos Presidentes do Mercosul, em Assunção.

No campo político, Temer tenta recompor sua relação com os presidentes do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE) e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que ontem à tarde foi ao Planalto conversar com o presidente sem que o encontro constasse da agenda oficial. Segundo informação de assessores, os dois trataram do esforço concentrado no Congresso na próxima semana. Os parlamentares precisam acelerar as votações de matérias consideradas relevantes para o governo como a Medida Provisória 840 que cria 164 cargos na área de segurança pública e o Projeto de Lei que cria as duplicadas eletrônicas. O texto foi aprovado esta semana na Câmara mas precisa passar pelo Senado. 

Os dois trataram também da corrida eleitoral. Temer quer convencer Maia, pré-candidato à presidência da República pelo DEM, a formar aliança em torno de um candidato de centro para evitar que no segundo turno haja polarização entre as extremas esquerda e direita. Maia já comentou que o momento não é propício para esta definição, uma vez que todos os candidatos considerados de centro estão com níveis semelhantes de aceitação pelos eleitores.