Vitória apertada expõe enfraquecimento de Temer e fortalecimento da barganha

A um ano das eleições, analistas preveem crescimento de 'falsa oposição' disputando mais verbas

O presidente mais impopular do mundo, segundo uma pesquisa do grupo de análise política Eurasia, conseguiu mais uma vez que denúncias contra ele fossem rejeitadas, numa votação apertada na Câmara de Deputados. Michel Temer (PMDB) afirmou que a “verdade venceu”, após somar 251 votos pela rejeição da investigação, contra 233 favoráveis. Cientistas políticos, entretanto, apontam para um enfraquecimento do seu governo, e uma tentativa de descolamento político da economia, defendido por Temer para se manter no poder. 

A Câmara rejeitou na noite da última quarta-feira (25) a segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o presidente - organização criminosa e obstrução da Justiça. No início de agosto, o presidente já havia se livrado de uma denúncia por corrupção passiva, também resultante das delações da JBS. O governo venceu ambas as votações após semanas de intensas negociações e a ampliação de emendas parlamentares.

>> Temer é o presidente mais impopular do mundo, diz pesquisa

>> Plenário da Câmara rejeita denúncia contra Temer por 251 a 233 votos

“Há um desgaste do governo nos últimos tempos, e diante disso, podemos projetar que as reformas, e principalmente a da Previdência, vão ficar emperradas”, disse o cientista político, Eurico Figueiredo, diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF.

O mercado, como Eurico, desconfia da capacidade de o Presidente emplacar reformas diante do resultado acirrado na votação. A Reforma da Previdência é uma das mais aguardadas pelos investidores, seguida da Tributária. Apesar do alívio diante da vitória do peemedebista, o desgaste de Temer é evidente aos olhos do mundo todo. 

O jornal francês Le Monde também reforça que, ainda que o presidente se veja livre da acusação, ainda pode ser processado novamente até o final do seu mandato. A salvação presidencial não significa que os parlamentares vão querer cometer um "suicídio eleitoral", faltando um ano para as eleições gerais do país, registrou o periódico argentino Clarín, apontando que a expressão é do deputado Darcisio Perondi, do PMDB. 

>> 'Le Monde': Vitória de Temer por margem estreita sinaliza enfraquecimento

>> 'Clarín': Próxima aposta de Temer, reforma da Previdência sofre resistência

“Parece que o governo Temer aposta no descolamento da economia e política, no sentido de afirmar que, mesmo com o descrédito político, a economia vai bem com a aprovação de reformas”, explicou Eurico lembrando que desde que o presidente assumiu o lugar de Dilma Roussef, que sofreu impeachment no ano passado, sua popularidade – que já não era alta – só caiu.

Ao citar os resultados da votação, Temer defendeu uma retomada do crescimento da economia após um período de recessão e a queda da inflação e dos juros, apesar de, ao mesmo tempo, haver uma alta na informalidade. "A economia voltou a crescer depois da maior recessão da nossa história. Essa é a maior obra de meu governo. Com a melhora da economia, estamos reencontrando os empregos, os investimentos estão voltando, o consumo das famílias está crescendo”, disse o peemedebista que obteve dois êxitos em seu governo até agora. 

>> "A verdade venceu", diz Temer em vídeo ao agradecer deputados

Um deles foi a PEC do Teto de Gastos, que estabelece o controle das despesas públicas, restringindo-as à inflação do ano anterior por um período de 20 anos; e a Reforma Trabalhista, que altera regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e prevê pontos que poderão ser negociados entre empregadores e empregado. 

O presidente finaliza sua fala dizendo que, com a ajuda do Congresso Nacional e de todos os brasileiros – mesmo diante de sua evidente impopularidade -, será possível fazer ainda mais.

Um ano para as eleições

Desgastes, escândalos de corrupção, instabilidade, negociação e descrédito popular, o turbulento cenário político brasileiro está longe de terminar. A um ano das eleições de 2018, Michel Temer ainda tem muito tempo de governo pela frente, e um agitado ano eleitoral que promete esquentar as disputas. 

“Esse um ano do Temer vai ser uma espécie de treinamento para uma flexibilização do mercado político, ou seja, significa que esse um ano é um ensaio de um projeto para a política individualizada, de centralização partidária, na perspectiva de que cada parlamentar seja um negociante”, disse a cientista política Clarisse Gurgel. 

Para a especialista, o momento é de uma falsa oposição, já que a quebra de partidos, como o PSDB, no apoio ao presidente não significa que o projeto dos tucanos não seja o de aprovar as reformas propostas por Temer. “É, na verdade, uma forma irrisória de forçar que Temer sinta sua fragilidade e libere mais dinheiro público para esses parlamentares”, acrescentou. 

O líder do PT, deputado Carlos Zarattini (SP), criticou a votação, dizendo que o governo teve de gastar muito dinheiro em liberação de recursos para comprar um resultado semelhante à primeira denúncia. Foram 12 votos a menos a favor de Temer nessa denúncia, o que na avaliação da oposição mostra uma crise na base. “E ainda perderam votos, mesmo gastando bilhões, diante desse esforço foi um resultado muito ruim, e mostra que o governo não conseguirá votar mais nada na Câmara”, disse.

Entre os tucanos, foram 23 votos contrários e 20 favoráveis ao relatório do deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), pelo arquivamento da denúncia. O plenário registrou ainda 25 ausências e 2 abstenções. O presidente da Casa, Rodrigo Maia, não votou. A base aliada precisava de 172 votos (entre "sim", ausências e abstenções) para impedir a admissibilidade da denúncia. 

Clarisse comenta que nesta falsa oposição, “cada parlamentar fica liberado para forçar uma negociação individualizada. Esse seria, então, um ensaio para um modelo parlamentarista. O que se quer é que os parlamentares tenham o poder de execução desse poder público”. 

“Temer está ameaçado e forçado a sentar nessa mesa de negociação”, destacou a cientista política. 

O líder da Minoria, deputado José Guimarães (PT-CE), prevê o agravamento da situação das contas públicas devido às recentes decisões de Temer para agradar sua base aliada na Câmara. "Qual é o Brasil que vai amanhecer amanhã? Com um governo sem base social, um governo que só tem uma maioria parlamentar, mas que não tem base nenhuma na sociedade brasileira para tomar medidas que possam retomar o crescimento da economia brasileira. Calcula-se que são R$ 33 bilhões que foram negociados com refis e tudo aquilo que vai arruinar ainda mais as contas da presidência da República", avaliou.

Enquanto a base governista disse que a vitória de Temer é uma "virada de página", deputados da oposição afirmaram que, até as eleições de 2018, o Brasil é um país "sem rumo". 

>> Líderes na Câmara comentam votação de denúncia contra Temer

>> "Depois dizem que a Lava Jato quer acabar com a corrupção", diz Lula sobre Temer

“Tudo vira mercadoria: decisão política, pronunciamento, etc, tudo que se faz é uma negociação para que Temer se mantenha no poder. A política nesses termos, assim como o mercado de qualquer coisa, vai assumindo uma dinâmica meio habitual, e o parlamentarismo é um modelo que permite essa circulação maior da negociação, porque o poder de execução não vai mais estar centralizado em uma pessoa como o presidente”, finalizou Clarisse Gurgel.