'NYT': O desvanecimento da esquerda na América Latina

Reportagem analisa cenário da política no Brasil, Argentina, Colômbia

Matéria publicada nesta terça-feira (4) pelo jornal norte-americano The New York Times observa que a Colômbia rejeitou um acordo de paz com os rebeldes marxistas no domingo, entregando uma vitória pública para o ex-presidente conservador que fez campanha apaixonadamente contra ela. No mesmo dia, os eleitores no Brasil entregaram uma retumbante derrota para o partido de esquerda que foi derrubado nas eleições municipais.

Segundo a reportagem esses fatos são apenas mais um sinal da mudança da América latina para a direita. Em menos de um ano, os eleitores têm contrariado o movimento de esquerda, quando na Argentina elegeram um ex-banqueiro de investimentos como presidente e no Brasil os legisladores expulsaram sua presidente de esquerda. 

"Simplificando, os conservadores estão em ascensão na América Latina", disse Matías Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas.

O Times comenta que muitos fatores estão alimentando essa tendência. A queda acentuada dos preços das commodities corroeu o crescimento econômico ao redor da América Latina e diminuiu o apoio aos governos de esquerda. A influência das mega-igrejas evangélicas está se expandindo, enquanto se observa o surgimento de políticas socialmente liberais canalizando a insatisfação generalizada com o status quo.

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O Times analisa que a grande mudança de comportamento político pode ser vista em casos como os poderosos presidentes de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e Cristina Fernández de Kirchner, da Argentina, que enfrentam investigações de corrupção.

Ainda assim, os analistas políticos advertem que a tendência não envolve necessariamente uma rejeição total das políticas que ganharam admiração e votos para os governos de esquerda nos anos anteriores. Por exemplo, Michel Temer e Mauricio Macri, os líderes de Brasil e Argentina, têm manifestado apoio à manutenção de programas de combate à pobreza populares.

O jornal norte-americano acrescenta que o novo presidente do Peru, Pedro Pablo Kuczynski, contou com uma aliança com a esquerda para derrotar seu rival, Keiko Fujimori, filha de Alberto Fujimori, ex-presidente preso. Da mesma forma, a votação de Colômbia sobre o acordo de paz mostra um exemplo de como a política imprevisível está ganhando espaço em algumas partes da América Latina. 

Líderes ao redor da América Latina estão prestando mais atenção a mudança dos humores em seus países, aponta o New York Times. No Chile, a presidente Michelle Bachelet retornou ao cargo após um deslizamento de terra em 2013 em uma plataforma para tentar reduzir a desigualdade.

No Brasil, um país de 206 milhões de cidadãos, representando metade da população da América do Sul, a mudança para a direita se desenrolou em um contexto de crescente divisão política, observa o New York Times.

O noticiário descreve que partidários da presidente deposta, Dilma Rousseff, argumentam que sua expulsão era o equivalente a um golpe de Estado, uma visão que pesou sobre a legitimidade do governo Temer, o ex-vice-presidente que se rebelou contra ela. Os candidatos de seu partido também foram severamente derrotados nas eleições para prefeito nas maiores cidades do Brasil.

Mas o Partido da Social Democracia Brasileira, que teve suas origens na oposição à ditadura militar do país antes de evoluir para um agrupamento mais conservador agora ancorado na coligação de Temer, marcou grandes ganhos. Um dos membros do partido, João Doria, um ex-apresentador de um reality show agora é prefeito em São Paulo, a maior cidade do Brasil.