'Instituições democráticas não estão funcionando no Brasil', diz brasilianista

Em entrevista à 'Carta Capital', James Naylor Green criticou a mídia e o judiciário

O brasilianista James Naylor Green, um dos nomes de maior destaque na academia dos Estados Unidos, professor de história latino-americana e diretor da Iniciativa Brasil da Universidade Brown, disse à revista Carta Capital que não há dúvida de que o processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff é "golpe". "O papel representado pelos militares nos golpes do século 20 foi substituído pela cumplicidade da mídia", assegurou.

Sobre o pronunciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal contra a tese do golpe, Green apontou para a tendência do Supremo brasileiro de comentar discussões internas como se fossem debate público. De acordo com Green, essa "politicagem" é extremamente problemática para a democracia brasileira. 

"Os juízes da Suprema Corte dos EUA jamais fazem esse tipo de politicagem. Não tentam influenciar a opinião pública, são mais sóbrios", disse o brasilianista. "(...) a impressão é de que se troca muito facilmente a objetividade legal por perspectivas ideológicas na casa mais alta do Judiciário. Não, as instituições democráticas não estão funcionando. É justamente esse o problema", acrescentou.

Green alerta que os próximos passos no Brasil seriam o impedimento da candidatura presidencial de Lula em 2018, o consenso em torno de um governo provisório de Temer até as eleições e o retorno da aliança PSDB-DEM, com um vice do PMDB. "Muda-se para ficar como sempre foi. Aí nos cabe pensar nos cidadãos que foram às ruas pedir o impeachment e repetiam 'nos devolvam o nosso país'."

"Setores das elites econômicas, políticas e sociais têm uma noção muito clara de como deve ser o Brasil ideal para sua manutenção no poder. Mas, se setores do PT não tivessem entrado nesse esquema, não tivessem jogado eles também o jogo, seria muito mais difícil derrubar Dilma", indicou Green à revista brasileira. 

O professor explica que "o que Michel Temer e Eduardo Cunha precisam entender", contudo, é que a mídia internacional está a par do que de fato ocorre no Brasil. "A manobra institucional para desqualificar Dilma como presidenta está clara", declarou o acadêmico, que acredita que a única saída neste cenário poderia ser a eclosão de um novo escândalo envolvendo diretamente "protagonistas do teatro do impedimento" e que a mídia atuasse de forma crítica e independente. 

Green frisa que a mídia internacional conseguiu ir além do combate entre as narrativas do governo e da oposição, e entendeu que não já justificativa legal para o impedimento da mandatária. "Abriu-se um abismo entre a cobertura da crise política da mídia estrangeira internacional e aquela da brasileira, que se revelou tendenciosa ao extremo", destacou o professor, ressaltando que os correspondentes internacionais demoraram a entender o que de fato ocorria, mas "chegaram a um ponto em comum", com a exceção de The Economist.

"Onde estava a Economist que não pediu a renúncia de Médici, Geisel ou Figueiredo? A publicação jamais foi crítica da ditadura militar e de forma hipócrita e sem legitimidade alguma exigiu a renúncia de Dilma, no que foi devidamente ecoada pela grande mídia brasileira. De qualquer forma, a farsa da votação de domingo 17 na Câmara dos Deputados esclareceu aos muitos correspondentes baseados no Brasil algo que não parecia, para eles, tão evidente. Acabou a confusão entre escândalos de corrupção e as acusações pelas quais a presidenta está sendo julgada."

Green foi um dos mentores de um manifesto contra o impeachment, assinado por milhares de especialistas em estudos da América Latina.

Para ele, a presidente Dilma não errou no tom ao se pronunciar na ONU. "O pronunciamento foi digno e correto. A paranoia, a histeria dos pró-impeachment, ficou nítida no fato de dois deputados da oposição (José Carlos Aleluia e Luiz Lauro Filho) terem sido enviados a Nova York para fazer um contradiscurso, por conta da ideia de que Dilma iria ao exterior para difamar o Brasil."

A crise institucional do Brasil, diz Green, fica clara na Câmara dos Deputados então comandada por Eduardo Cunha (PMDB), quando o peemedebista, por exemplo, se recusa a abrir semelhante processo contra o aliado Michel Temer por crime de responsabilidade. 

"São dois pesos e duas medidas. Ainda mais grave: as acusações seríssimas contra Cunha o deveriam impedir de comandar qualquer processo de impeachment relacionado ao Poder Executivo. A lógica democrática exige que ele seja afastado primeiro, o que não ocorreu. Ele tem interesse direto no resultado e está sob investigação. Daqui, o que tanto nós brasilianistas quanto a imprensa americana observamos é uma crise das instituições e da democracia brasileiras, sequestradas por determinadas personalidades com interesses próprios", alerta.

Perguntado sobre a posição do governo e corporações dos Estados Unidos sobre o processo de impeachment, apontou: "não tenho dúvida de que setores do governo e da economia dos EUA se articulam com os emissários de Temer."