PMs prendem suspeito e desfilam em carro aberto em Alagoas

Um vídeo que se tornou viral entre alagoanos nas redes sociais chocou a Comissão de Direitos Humanos da OAB e abriu mais uma crise na segurança pública no Estado mais violento do Brasil.

O vídeo (sem data) mostra um comboio com sete viaturas da Polícia Militar e mais uma à frente levando um preso em carro aberto pelas ruas da cidade de Penedo (173 km de Maceió). Os rostos dos policiais são cobertos por bala clavas, espécies de máscaras.

A cena foi gravada por um cinegrafista amador, que chega a comentar: “Eita! Bandido”. Em seguida, completa: “Pegou bandidão, hein?”

“Independente de ser um criminoso a polícia não tem direito de expor o homem como foi feito. Ficamos chocados com a cena grotesca. A polícia acha que estamos nos tempos de Lampião e eles são as volantes”, disse o presidente da comissão de DH da OAB, Daniel Nunes.

Cangaceiro mais famoso do Nordeste, Lampião e seu bando foram mortos na grota de Angicos- entre Alagoas e Sergipe em julho de 1938 por volantes. O grupo teve as cabeças arrancadas e exibidas em cidades do interior nordestino, “provando” que Lampião estava liquidado. Também era uma forma de evitar que o bandido virasse herói.   

O vídeo foi entregue ao Comando da Polícia Militar, que abriu sindicância para apurar o caso.

Sobre a crise 

A crise na segurança alagoana se arrasta desde 25 de agosto, quando o jovem Davi da Silva, 17 anos, durante revista policial, sumiu após entrar em um carro da PM, no conjunto Cidade Sorriso I, parte alta da capital alagoana. Para as autoridades que investigam o caso, ele está morto.

No dia 3 de novembro, cinco acusados em crimes foram assassinados no bairro de Guaxuma- litoral norte de Maceió, por PMs, que dizem ter sido recebidos a bala ao tentarem sustar um assalto a uma residência. Informes recebidos pelos policiais diziam que eles roubariam R$ 200 mil da casa. O caso é investigado pela Polícia Civil, que na quinta-feira pediu a prorrogação do inquérito à espera do resultado das provas técnicas.

Em um ano, 12 militares foram mortos de maneira violenta em Alagoas (acidentes, confronto com bandidos ou suicídio), três deles no último mês. O sargento José Luiz da Silva foi assassinado nesta quinta-feira, após Manoel Antônio da Silva, conhecido como Toinho da Matriz, tomar a arma dele e atirar. O motivo teria sido um som alto. Toinho é foragido da polícia desde 2013, mas tem pelo menos duas casas na região. O crime aconteceu a 300 metros da delegacia de Matriz de Camaragibe (70 km de Maceió).

Em novembro, Edivaldo Teotonio Gomes, de 46 anos, estava em uma van, a paisana. Identificado por criminosos, foi executado próximo à Polícia Rodoviária Federal, no bairro Tabuleiro dos Martins, parte alta da capital. Adelson Santos da Silva foi morto com um tiro de escopeta. Ele parou o carro para trocar um pneu em direção a Maceió, quando foi abordado por criminosos. Segundo testemunhas, o objetivo era eliminar Adelson "porque ele era militar".

Nesta semana, o futuro governador Renan Filho (PMDB) teve reunião com a secretária Nacional de Segurança Pública, Regina Miki, pedindo a continuidade do programa Brasil Mais Seguro em Alagoas. Lançado pelo Governo Federal, o Brasil Mais Seguro promove investimentos nas polícias e nas perícias para diminuir a impunidade.

Porém, mesmo com os investimentos, incluindo a construção de presídios, as delegacias de Alagoas estão superlotadas. Números divulgados mostram que 500 presos aguardam transferência.