"É como um punhal no coração", diz pai de jovem morto na USP

Um “punhal enfiado no peito” que machuca e não deixa a vítima morrer. Foi essa a analogia feita nesta sexta-feira pelos pais do estudante Victor Hugo Marques, 20 anos, para explicar a dor pela morte do filho. O corpo do jovem foi encontrado na raia olímpica da Universidade de São Paulo (USP), na última segunda-feira, depois de o estudante desaparecer de uma festa promovida pelo grêmio da Escola Politécnica, dias antes, no Velódromo do campus.

Moradores de Osasco, na Grande São Paulo, o bancário José Marques dos Santos e a mulher, a podóloga Vilma da Consolação Costa Santos, ambos com 56 anos, deram entrevista coletiva ao lado do advogado, Ademar Gomes, no escritório dele em São Paulo.

“Isso é um punhal que ficam enfiando no seu coração, machucando, e não deixam você morrer. É uma dor insuportável , e o que nos move é que somos cristãos, acreditamos em Deus. Mas o vazio é profundo: a gente não está preparado para perder os pais, que dirá perder um filho”, disse o pai, para quem o estudante era uma pessoa pacata e gentil. “Meu filho é uma das pessoas mais lindas do mundo, gente. O corpo se foi, mas a alma dele está aqui, dentro do coração da gente”.

Emocionado, o casal divulgou uma conta no Facebook criada para coleta de informações que ajudem a esclarecer a morte do jovem, a qual evitou classificar como assassinato – já que a Polícia Civil apontou escoriações na face do jovem e aparente ausência de água nos pulmões, o que descartaria afogamento. O exame de necropsia do cadáver, contudo, ainda não ficou pronto.

Estudante não usava drogas, dizem pais 

De acordo com o casal, o estudante cujo corpo passou por exame toxicológico, não era usuário de drogas e bebia em festas dentro da normalidade, além de ter o hábito de informar os pais, por mensagem de celular, sempre que saía de casa. Segundo eles, o filho foi com amigos para USP por volta das 22h, e a ausência teria causado preocupação maior quando, no dia seguinte, por volta das 9h, a mãe de um dos amigos os comunicou que a turma não conseguira localizar Vitor.

Conforme a mãe da vítima, os amigos que foram com ele à festa relataram ter visto Vitor pela última vez por volta de 4h30 ou 5h, quando passava apressado, no meio da multidão, aparentemente para buscar cerveja. A festa era do tipo open bar e teria shows da banda CPM22 e do músico Marcelo D2.

“Meu filho saiu pensando em voltar, tanto que arrumou o colchão onde o amigo dele dormiria, como sempre faz. Ele saiu para voltar, queria voltar”, disse a mãe, que informou ter tentado contato com o filho, por celular, mas a ligação parou na caixa postal.

Advogado diz que processará USP e responsáveis por festa 

O casal ainda se disse assustado com as condições do local onde a festa que reuniu cerca de 5 mil pessoas foi realizado. “Estivemos sábado e domingo lá. Aquele Velódromo não é lugar para se fazer uma festa, parece um mausoléu”, avaliou a podóloga.     

“Tem uma marquise lá que só de se subir uma escada, você a acessa – até uma criança pode subir. Não tinha uma câmera de segurança filmando – como uma empresa contrata um evento sem ter câmera funcionando?”, completou o bancário.

O advogado afirmou que acionará na justiça cível a USP, o Grêmio da Poli, que organizou a festa, e a empresa contratada para o evento. “Não se pode um rapaz desaparecer naquela multidão sem ninguém ter visto: isso é inconcebível”, justificou Gomes.

"Morte tem que ser um marco" 

Para os pais, a morte do estudante “tem que ser um marco” para que se evitem outras mortes. “Festas têm que continuar acontecendo, mas em um ambiente de segurança”, definiu Santos.

“A vida do meu filho foi ceifada. Ele tinha sonhos, semana passada tinha terminado de fazer inscrição para fazer intercâmbio... O que me fortalece é que essa medida que tomaram mostrou que a morte dele não foi em vão”, desabafou a mãe, referindo-se à proibição, por parte da direção da Poli, e no dia em que o corpo do jovem foi encontrado, de festas com bebida alcoólica no campus. “Meu filho foi um instrumento (para a mudança nas regras), independente do que possa ter acontecido”, concluiu Vilma.