Disparidade entre redes pública e privada marca ranking do Enem 2012

No Colégio Bernoulli, segundo colocado de2012, professores chegam a ganhar até R$15 mil mensais

Nesta semana, foi divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) o ranking das escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2012. Como esperado, as primeiras colocações são de escolas do ensino privado. Das escolas estaduais do Rio de Janeiro, a que melhor representou a rede foi o Colégio Estadual José Leite Lopes, a Escola Nave, que ficou na 891° colocação geral. Os dois primeiros colocados foram o Colégio Objetivo Integrado, de São Paulo, e o Colégio Bernoulli, de Minas Gerais, ambos particulares. O resultado só confirma, mais uma vez, a disparidade entre os ensinos privado e público, e como uma estrutura sólida de ensino e a valorização do professor fazem a diferença no resultado dos alunos.

Em colégios como o Objetivo e o Bernoulli os alunos passam por processo seletivo e avaliação de currículo para integrar as instituições. Lá, incentivam, principalmente, o respeito entre alunos e professores. Disponibilizam materiais tradicionais e equipamentos tecnológicos para as aulas. No caso do Bernoulli, os alunos estudam com apostilas personalizadas, produzidas por uma editora própria, a partir de ideias da equipe de professores da instituição. A programação do conteúdo leva em consideração a experiência dos professores. Além disso, as condições de trabalho incluem flexibilidade na escolha da carga horária e da matéria a ser lecionada.

O diretor de ensino do Colégio Bernoulli, Rommel Fernandes Domingos, explica a rotina na instituição e avisa que a valorização do professor é essencial para o desempenho escolar positivo, e que a escola tem papel importante nessa questão. “A valorização acontece, primeiramente, a partir de um ambiente bom de respeito, amizade, interação. Tanto da direção da escola com os professores, quanto da classe docente entre eles. Espaço para troca de informações, dividindo tarefas, experiências. Cabe à escola construir esse espaço. Além disso, existe conversa para que o professor lecione o que lhe interessa. A escola se esforça muito para tentar cumprir as solicitações dos professores. Ela tenta ao máximo facilitar o dia a dia do professor”, revela Rommel.

Assim como o colégio mineiro, o Colégio Objetivo também garante ações de reconhecimento à profissão de educador. O professor da escola Francisco Achcar explica que as relações criadas entre instituição, professores e alunos garante um ambiente de trabalho saudável para a realização das aulas. Além disso, Achcar explica que as necessidades dos professores são sempre levadas em conta. “A flexibilidade é uma característica importante do colégio. Caso atentemos para um problema, alguma dificuldade, a gente adapta para corresponder. Todos estão sempre em contato, fazemos reuniões periódicas, a flexibilidade se deve a informalidade que está nas relações que criamos aqui”, comenta Achcar.

Com realidade extremamente distinta, a rede pública fluminense aderiu à greve em agosto deste ano, e uma das grandes reclamações dos professores era a falta de autonomia didática e a autoridade dos governos na aplicação de conteúdo. Ao contrário do que acontece no colégio particular mineiro, o material das redes públicas do estado e do município é imposto pelas secretarias de educação, com conteúdo duvidoso e padronizado, segundo os professores das redes. Não há diálogo e os educadores são meros intermediadores de conteúdo, não participando da elaboração das provas. De acordo com os professores, isso impede que as dificuldades individuais de cada aluno sejam acompanhadas. Além disso, a estrutura é extremamente precária: as salas não têm ar-condicionado, nenhum material tecnológico é disponibilizado e as condições de conservação são mínimas.

Além disso, a discrepância entre os salários dos professores das duas redes é enorme. Enquanto o salário mais alto garantido aos professores pelo governado do Estado é de R$ 2.679,85 por 40 horas trabalhadas semanalmente, os professores do colégio Bernoulli ganham, em média, R$ 15 mil. O desempenho das duas redes jamais poderia ser o mesmo, sequer comparável.

Entre as escolas estaduais que aparecem mais bem colocadas nos rankings de cada ano, a maioria é colégio técnico, ou ligado a uma universidade, como o Colégio de Aplicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Cap-Uerj). Este ano, o Cap-Uerj ficou de fora da listagem e a explicação pode estar em um erro na contabilização do número de estudantes que fizeram o a prova. Em 2011, o Cap-Uerj garantiu o 60° lugar geral e, em 2010, ficou em 24°. Vale ressaltar que a Escola Nave integra os ensinos regular e técnico. Dos colégios estaduais de ensino regular o melhor colocado em 2011 ficou na 2001ª posição geral, enquanto em 2010, a escola estadual com melhor desempenho ocupou a colocação 1189ª. Isso aponta para um problema crônico no sistema público de ensino do Rio.

A professora Vera Nepomuceno, diretora do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe), critica a avaliação padronizada, quando as realidades dos sistemas público e particular são extremamente diferentes. Vera também aponta ainda para os problemas estruturais, que impedem a existência de ambientes favoráveis ao aprendizado.

“Temos que entender que não temos que fazer avaliação igual para as duas redes, que são tratadas de forma diferente. Gostaria, inclusive, que fosse comparado o salário dos professores e a grade dos alunos, quanto tempo de cada matéria os alunos têm nessas escolas [particulares]. Preciso fazer esse destaque porque é muito injusto com o aluno do ensino público. Veja a realidade desses professores que estão nas primeiras dez colocações, com salário que cria condições de sobrevivência e desenvolvimento intelectual. Ainda tem o problema da estrutura dos prédios. Lidamos cotidianamente com esses problemas. Existem escolas com problema de falta d’água, que é uma coisa básica, e outras com problema elétrico. Sem climatização, em salas com 45 alunos, onde o espaço é para 30, com o calor do verão do Rio, qual a capacidade de fixar conteúdo? Nenhuma. O ensino particular acaba tendo preparação e estruturação que leva os alunos a garantir os resultados”, critica.

Vera ainda lembra que as discrepâncias socioeconômicas influenciam também nesse tipo de resultado. Para ela, avaliar igualmente alunos que vivem realidades financeiras, culturais e familiares completamente diferentes é um erro.

“Outro aspecto é a condição socioeconômica. Não tem como comparar alunos carentes, que vivem em comunidades violentas, com a violência da polícia, onde famílias precisam ‘vender almoço pra comprar a janta’, com extrema instabilidade emocional, que precisam trabalhar para ajudar família. Por isso há um grande abandono, com índice de evasão muito alto. Não podemos associar as realidades. É muito diferente do aluno da escola particular, que viaja todo ano, que frequenta cinema, teatro, com outras vivências culturais. Achamos injusta a comparação, pela situação de vida dos alunos. Não tem como tratar como igual o que é completamente diferente”, comenta.

Falta professor na rede, que se desestimulam a trabalhar, ganham mal, e precisa cumprir horário em três, quatro escolas. Vê a realidade desses professores que estão nas primeiras dez colocações, com salário que cria condições de sobrevivência e desenvolvimento intelectual, para contribuir no conteúdo das aulas. A realidade é muito cruel, é preciso comparar tempo de disciplinas, salários e condições de trabalho. Não dá para colocar na mesma balança.

Durante a greve deste ano, os professores receberam como resposta propostas mínimas da Prefeitura de Eduardo Paes, que terminou por impor um plano de carreira em que mais de 90% da categoria não estava representada. Já o governo de Sérgio Cabral sequer apresentou propostas. No fim, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, interveio convocando audiência conciliatória entre os governos e a categoria para que a greve terminasse. Mesmo com o fim da greve e aceitando as propostas de reajuste salarial dos governos, os professores deixam claro que ainda é preciso muito mais para que a educação pública atinja nível de excelência. 

*Do programa de estágio do Jornal do Brasil