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Segurança da Kiss diz que errou a saída no dia da tragédia

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Nem um segurança da Boate Kiss escapou de errar a direção da saída no dia da tragédia que causou a morte de 242 pessoas e deixou mais de 600 feridas em Santa Maria (RS). A declaração foi dada nesta quinta-feira, em mais um dia de depoimentos no processo criminal sobre o caso, no fórum da cidade.

Para a tarde de hoje, estavam previstos mais quatro depoimentos de vítimas, mas apenas três compareceram ao fórum. A primeira delas foi Pablo Ricardo Pacheco, que, no dia 27 de janeiro deste ano, atuava pela primeira vez como segurança da Kiss, a serviço de uma empresa terceirizada. Pablo já frequentava a boate antes de trabalhar lá e, na visão dele, a política da casa era a de “quanto mais gente (entrar), melhor”, pois seria sinônimo de mais lucros para os donos.

Na hora do tumulto, depois que o incêndio começou, Pablo diz que ficou nervoso e, apesar de conhecer a boate, saiu em direção à única luz que enxergava. Na verdade, era o banheiro masculino, perto da saída. “Tinha muita gente lá dentro”, comentou o segurança.

Pablo relatou ainda que, depois de fazer muito esforço, conseguiu sair do banheiro. Porém, na confusão, acabou caindo no chão, no hall de entrada da Kiss. “A fumaça era muito forte, o pessoal vinha trombando. Quase desmaiei. E ali eu fiquei. Só consegui sair porque me tiraram dali”, relembrou o segurança, acrescentando que, quando estava no chão, foi atingido por jatos de água vindos dos bombeiros.

O segurança não chegou a ver o começo do incêndio. Achou que fosse uma briga e só foi avisado que era fogo por um colega de serviço. Ao entrar no banheiro em busca de uma saída, viu que as pessoas no local ainda estavam vivas, pois, até então, era possível respirar no local. Ele criticou o trabalho dos bombeiros. “Se eles (bombeiros) tivessem entrado ali (no banheiro) para mostrar a direção da saída para as pessoas, mais gente teria se salvado”, analisou Pablo.

Uma curiosidade em relação ao depoimento do segurança na tarde desta quinta é que ele mudou parte de sua versão em relação ao que havia dito à Polícia Civil. No inquérito, ele relatou que trabalhava para a empresa de segurança terceirizada desde o dia 31 de dezembro de 2012 e com carteira assinada. No fórum, ele contou que era a primeira noite em que trabalhava na Kiss e que não tinha vínculo empregatício formal. O rapaz falou que, durante o inquérito, distorceu esses fatos a pedido do dono da empresa de segurança, que o procurou logo que ele recebeu alta, depois de 18 dias de internação.

O segundo depoimento do dia foi de Douglas Araújo Rissi, que era frequentador da Kiss. Ele disse que, no momento da confusão, a porta entre a pista de dança e o hall da entrada da boate estava fechada. “O pessoal estava batendo, e ninguém abria. Acredito que tinha alguém do outro lado impedindo a porta de ser aberta”, disse.

Douglas relatou ainda que chegou a ouvir alguém que estava em cima do palco gritar “fogo”, mas não se recorda quem foi nem se o aviso veio pelo microfone. Mais adiante, ele confirmou o que havia dito à Polícia Civil: que o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, foi quem fez o alerta sobre o fogo, falando ao microfone.

Assim como outras vítimas relataram em depoimentos anteriores, o jovem falou que havia um táxi estacionado bem em frente à boate e que esse veículo também atrapalhou a saída das pessoas.

O último depoimento desta quinta foi o de Jéssica Montardo Rosado, que estava bem em frente ao palco quando o fogo começou. Ela também contou que o vocalista da Gurizada Fandangueira avisou sobre o incêndio no microfone.

Jéssica relatou que não teve muitas dificuldades para sair da boate, pois ainda era possível ver que as luzes estavam ligadas. “Só escureceu quando eu cheguei na porta (de saída)”, contou. Ela chorou ao lembrar que foi barrada ao tentar voltar à boate para tentar encontrar seu irmão, Vinícius Montardo Rosado, que morreu na tragédia aos 26 anos. Ele saiu e entrou na Kiss várias vezes para resgatar pessoas, mas Jéssica só ficou sabendo disso depois. O pai de Jéssica e Vinícius, Ogier Rosado, acompanhou o depoimento da filha e também se emocionou.

O último depoimento do dia deveria ser o de Fabiano Lopes dos Santos, que atuava como porteiro da Kiss, mas ele não foi localizado. Uma nova intimação deve ser feita para tentar encaixá-lo nas demais audiências deste mês.

Em Santa Maria, estão previstos mais depoimentos de vítimas na próxima semana, nos dias 24, 25, 26 e 27 de setembro. Haverá também audiências para ouvir vítimas nas cidades gaúchas de Uruguaiana, Horizontina, Passo Fundo, Quaraí e Caxias do Sul. O juiz Ulysses Fonseca Louzada já manifestou a intenção de ir a todas elas. A vítima que daria depoimento em Rosário do Sul (RS) se mudou para Santa Maria e deve ser ouvida nessa cidade.

Além do vocalista da Gurizada Fandangueira, respondem ao processo criminal pelas 242 mortes e os mais de 600 feridos os sócios da Kiss, Mauro Hoffmann, o Maurinho, e Elissandro Spohr, o Kiko, e o roadie da banda, Luciano Bonilha Leão. Eles são acusados por homicídios qualificados com dolo eventual (doloso) e tentativas de homicídio qualificado. Apenas Marcelo de Jesus dos Santos compareceu à audiência desta quinta-feira.