Agricultura pode contribuir para redução das emissões de carbono

Além de ganhos em produtividade, boas práticas agrícolas e o manejo adequado do solo podem contribuir para que a agricultura passe, em pouco tempo, de uma das principais emissoras de carbono para uma grande sequestradora do gás, causador do efeito estufa.

A comprovação foi feita pelo estudo "Mitigando Emissões de Gases na Agricultura: Bases para o Monitoramento do Programa ABC", apresentado na quarta-feira (27), na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília. A pesquisa é resultado de uma parceria entre Embrapa, Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e Embaixada Britânica. Experimentos científicos feitos em todas as regiões brasileiras confirmaram a hipótese de que, com o manejo adequado, a recuperação de pastagens degradadas aumenta consideravelmente o estoque de carbono no solo.

O projeto reuniu dados sobre o estoque de carbono que servirão como base de ação para políticas públicas na agricultura brasileira nos próximos anos, podendo ainda contribuir em ações internacionais no setor.

O estudo foi o primeiro no Brasil a utilizar um método alinhado ao Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), por isso aceito no mundo todo. Centenas de outros já haviam tratado do tema, mas cada um seguindo uma metodologia própria, sem conexão com o IPCC. “O objetivo foi gerar informações que possibilitassem a tomada de decisões para o Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono)”, explicou Eduardo Delgado Assad, pesquisador da Embrapa e um dos coordenadores do estudo.

O projeto considerou duas ações recomendadas pelo Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas (Plano ABC), que são: a adoção de manejo adequado das pastagens e introdução dos sistemas de produção Integração Lavoura Pecuária (ILP), Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) e Sistemas Agroflorestais (SAF). Modelos considerados potenciais sequestradores de carbono.

Para comprovar que a agricultura brasileira tem potencial para sequestrar grandes quantidades do gás, foram coletadas mais de 4 mil amostras de solo em 242 pontos, componentes de cinco biomas e distribuídos pelas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, tornando-se um dos maiores esforços mundiais para medição de carbono.

As amostras georreferenciadas de acordo com o IPCC foram medidas e monitoradas num trabalho iniciado em 2010. O resultado atestou que o Brasil tem condições de aumentar seu sequestro de carbono e cumprir com as metas de redução de emissão de gases de efeito estufa com as quais se comprometeu, voluntariamente, na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15).

O estudo mostrou que a expansão de pastagens recuperadas e dos sistemas ILP, ILPF e SAF contribui de forma efetiva para a mitigação de gases do efeito estufa na agricultura brasileira. A previsão apontada pelo trabalho é que a recuperação de uma área de 19 milhões de hectares de pastagem degradada pode reduzir as emissões de CO2 em 132 milhões de tCO2eq até 2020. Eduardo Assad adiantou que segunda-feira (01) os resultados deste estudo serão entregues oficialmente aos Ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e do Meio Ambiente, em apoio às ações de redução de carbono a serem adotadas e como relevante contribuição para futuras políticas públicas na área. Para o pesquisador, agora é preciso buscar formas de tornar essas práticas de medições e monitoramento acessíveis ao produtor.

“A agricultura sempre foi uma grande emissora, mas, se for bem feita, é uma grande sequestradora. Para isso, é importante medir quanto os bons sistemas tiram de carbono da atmosfera, evitando assim que o aquecimento global atinja patamares incontroláveis”, explicou Assad. A proposta apresentada é que a medição desse estoque nos sistemas seja feita a cada cinco anos.

Participaram do evento de lançamento do estudo o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, o embaixador do Reino Unido no Brasil, Alan Charlton, o coordenador do estudo e pesquisador da Unicamp, Hilton Silveira Pinto, e o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller. Para o presidente da Embrapa, é preciso ter um olhar inteligente sobre os recursos naturais, principalmente num contexto onde os impactos das mudanças climáticas já são uma realidade: “Desde a Rio+20, percebemos a importância de focalizar cada vez mais a agenda da sustentabilidade, promovendo a viabilidade e competitividade da agricultura, que ainda é bastante carbonizada. O estudo mostra que estamos buscando alternativas a essa nova realidade e aos novos desafios”.