Guarulhos - O perito criminal Renato Domingos Pattoli, que coordenou a elaboração dos laudos feitos pelo Instituto de Criminalística de São Paulo durante a investigação do assassinato da advogada Mércia Nakashima, disse nesta quarta-feira que o vestígio de terra encontrado no sapato do policial militar reformado e advogado Mizael Bispo de Souza não era compatível com a terra extraída da represa de Nazaré Paulista (interior de SP), onde o corpo da vítima foi encontrado. O perito é oitava testemunha a depor no julgamento, que acontece deste a segunda-feira no Fórum de Guarulhos (Grande São Paulo) e só deve terminar na próxima sexta-feira.
"A quantidade de terra (encontrada no sapato de Mizael) era exígua, mas dá para falar que não era compatível (com a terra da represa). (...) Não era do mesmo lugar", disse o perito, que foi convocado como testemunha de defesa.
Segundo Pattoli, apesar da incompatibilidade entre a terra achada no sapato e a extraída da cena do crime, outros indícios - como a alga - apontam que "o sapato esteve na represa", explicou, ao ser questionado pelos advogados de Mizael.
No primeiro dia de júri, o biólogo Carlos Eduardo de Mattos Bicudo, uma das testemunhas de acusação, afirmou que as algas encontradas no calçado do réu eram compatíveis com as existentes na represa onde Mércia foi achada morta. Ao responder uma pergunta da defesa de Mizael, o biólogo disse também que era grande a possibilidade de ele ter adentrado à represa. Segundo ele, o réu teria pisado a uma profundidade entre 20 e 50 centímetros, já que as algas vivem dentro da água.
A defesa de Mizael tenta provar, em júri, que o réu não esteve na cena do crime e, para tanto, tenta apontar supostas falhas da investigação. Entretanto, Pattoli negou que tenha havido problemas na realização dos laudos. "Não há que se falar em falha", completou.
O depoimento de Patolli começou por volta das 9h50, quando o perito começou a explicar que os laudos técnicos elaborados durante a investigação tiveram como base o depoimento da "testemunha ômega", ou seja, o pescador que disse à polícia ter visto um carro sendo atirado na represa, o que possibilitou a localização do corpo de Mércia. "Ponto básico da reconstituição do crime era a visão. Por isso testamos a acuidade visual da testemunha", disse.
O perito também foi questionado sobre o por quê de não terem sido feitos disparos de arma de fogo na reconstituição do crime. Segundo ele, quando a reconstituição foi feita, ainda não se sabia que ela havia sido atingida por tiros - pois o corpo da vítima permaneceu 19 dias submerso na represa e, na época, ainda passava por laudo necroscópico.
O caso Mércia
A advogada Mércia Nakashima, 28 anos, desapareceu no dia 23 de maio de 2010, após deixar a casa dos avós em Guarulhos (Grande São Paulo), e foi encontrada morta no dia 11 de junho, em uma represa em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. A perícia apontou que ela levou um tiro no rosto, um tiro no braço esquerdo e outro na mão direita, mas morreu por afogamento quando seu carro foi empurrado para a água.
13 de março - O advogado e policial militar reformado, Mizael Bispo, acusado de matar a ex-namorada Mércia Nakashima, chega para o terceiro dia de seu julgamento no Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo
O ex-namorado de Mércia, o policial militar reformado e advogado Mizael Bispo de Souza, 43 anos, foi apontado como principal suspeito pelo crime e denunciado por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. De acordo com a investigação, Mércia namorou durante cerca de quatro anos com Mizael, que não se conformava com o fim do relacionamento amoroso. A Promotoria também denunciou o vigia Evandro Bezerra Silva, que teria o ajudado a fugir do local, mas seu julgamento ocorrerá separadamente, em julho deste ano.
Preso em Sergipe dias depois da morte de Mércia, Evandro afirmou ter ajudado Mizael a fugir, mas alegou posteriormente que foi obrigado a confessar a participação no crime, sob tortura. Entretanto, rastreamento de chamadas telefônicas feito pela polícia com autorização da Justiça colocaram os dois na cena do crime, de acordo com as investigações. Outra prova que será usada pela promotoria é um laudo pericial de um sapato de Mizael, no qual foram encontrados vestígio de sangue, partículas ósseas, vestígios do projétil da arma de fogo e uma alga típica de áreas de represa.
Mizael teve sua prisão decretada pela Justiça em dezembro de 2010, mas se escondeu após considerar a prisão "arbitrária e injusta", ficando foragido por mais de um ano. Em fevereiro de 2012, porém, ele se entregou à Justiça de Guarulhos e, desde então, aguardava ao julgamento no Presídio Militar de Romão Gomes - enquanto o vigia permanece preso na Penitenciária de Tremembé. Mizael nega ter assassinado Mércia e disse, na ocasião, que a tratava como "uma rainha". Já o vigia afirmou, em depoimento, que não sabia das intenções do advogado e que apenas lhe deu uma carona. Se condenados, eles podem ficar presos por até 30 anos.