Diretor de Instituto Lula nega ter ameaçado Valério de morte

Paris - O direto do Instituto Lula, Paulo Okamoto, negou nesta terça-feira ter ameaçado o empresário Marcos Valério de morte caso ele divulgasse detalhes sobre o esquema do mensalão, de pagamentos realizados a deputados da base aliada. Às vésperas do início de uma conferência social em Paris, nesta tarde, Okamoto disse que "não tem nenhum motivo para desejar mal a Valério".

"Duvido que ele tenha falado isso", afirmou, constrangido, o diretor do instituto, ao ser perguntado por jornalistas. “Eu? Ameacei ele de morte? E por que eu ameacei ele de morte?”, questionou. Okamoto explicou ter conhecido o empresário “depois do episódio do mensalão” e ainda declarou se sentir "tranquilíssimo" diante das denuncias feitas por Valério, em depoimento à Procuradoria-Geral da República e divulgadas hoje pelo jornal O Estado de S.Paulo.

“Pelo que eu entendi do processo todo, ele (Valério) esclareceu toda a imprensa brasileira, contribuiu com a Justiça, deu os nomes para a Justiça. Tudo que ele tinha para falar, eu suponho que já tenha falado”, sublinhou o diretor do Instituto Lula, amigo do ex-presidente.

Segundo a reportagem, Valério revelou a existência de uma reunião em 2003 envolvendo José Dirceu e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, no segundo andar do Palácio do Planalto. De acordo com a versão do delator, no encontro os petistas acertaram que Valério fecharia empréstimos com bancos para ajudar a financiar o esquema do mensalão.

Nessa primeira etapa, Dirceu teria autorizado a pegar até R$ 10 milhões emprestados. Terminada a reunião, os três teriam subido por uma escada que leva ao gabinete de Lula. Lá, na presença do presidente, passaram três minutos. O acerto firmado minutos antes, ainda segundo a publicação, teria sido relatado ao presidente. De acordo com Valério, Lula deu um "ok".

A entidade de Lula organiza, junto com a fundação francesa Jean Jaures, o Fórum pelo Progresso Social: o Crescimento como Saída da Crise, que ocorre hoje e amanhã em Paris. Lula está na capital francesa para participar da inauguração do evento, no qual vai discursar amanhã. Em Paris desde ontem, ele foi visto pela primeira vez hoje, quando foi à conferência acompanhar a abertura do evento, feita pelo presidente francês, François Hollande, e pela presidente Dilma Rousseff.

O mensalão do PT

Em 2007, o STF aceitou denúncia contra os 40 suspeitos de envolvimento no suposto esquema denunciado em 2005 pelo então deputado federal Roberto Jefferson (PTB) e que ficou conhecido como mensalão. Segundo ele, parlamentares da base aliada recebiam pagamentos periódicos para votar de acordo com os interesses do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Após o escândalo, o deputado federal José Dirceu deixou o cargo de chefe da Casa Civil e retornou à Câmara. Acabou sendo cassado pelos colegas e perdeu o direito de concorrer a cargos públicos até 2015.

No relatório da denúncia, a Procuradoria-Geral da República apontou como operadores do núcleo central do esquema José Dirceu, o ex-deputado e ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares e o ex- secretário-geral Silvio Pereira. Todos foram denunciados por formação de quadrilha. Dirceu, Genoino e Delúbio respondem ainda por corrupção ativa.

Em 2008, Sílvio Pereira assinou acordo com a Procuradoria-Geral da República para não ser mais processado no inquérito sobre o caso. Com isso, ele teria que fazer 750 horas de serviço comunitário em até três anos e deixou de ser um dos 40 réus. José Janene, ex-deputado do PP, morreu em 2010 e também deixou de figurar na denúncia.

O relator apontou também que o núcleo publicitário-financeiro do suposto esquema era composto pelo empresário Marcos Valério e seus sócios (Ramon Cardoso, Cristiano Paz e Rogério Tolentino), além das funcionárias da agência SMP&B Simone Vasconcelos e Geiza Dias. Eles respondem por pelo menos três crimes: formação de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de dinheiro.

A então presidente do Banco Rural, Kátia Rabello, e os diretores José Roberto Salgado, Vinícius Samarane e Ayanna Tenório foram denunciados por formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro. O publicitário Duda Mendonça e sua sócia, Zilmar Fernandes, respondem a ações penais por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O ex-ministro da Secretaria de Comunicação (Secom) Luiz Gushiken é processado por peculato. O ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foi denunciado por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) responde a processo por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A denúncia inclui ainda parlamentares do PP, PR (ex-PL), PTB e PMDB. Entre eles o próprio delator, Roberto Jefferson.

Em julho de 2011, a Procuradoria-Geral da República, nas alegações finais do processo, pediu que o STF condenasse 36 dos 38 réus restantes. Ficaram de fora o ex-ministro da Comunicação Social Luiz Gushiken e o irmão do ex-tesoureiro do Partido Liberal (PL) Jacinto Lamas, Antônio Lamas, ambos por falta de provas.

A ação penal começou a ser julgada em 2 de agosto de 2012. A primeira decisão tomada pelos ministros foi anular o processo contra o ex-empresário argentino Carlos Alberto Quaglia, acusado de utilizar a corretora Natimar para lavar dinheiro do mensalão. Durante três anos, o Supremo notificou os advogados errados de Quaglia e, por isso, o defensor público que representou o réu pediu a nulidade por cerceamento de defesa. Agora, ele vai responder na Justiça Federal de Santa Catarina, Estado onde mora. Assim, restaram 37 réus no processo.