Niemeyer, um disciplinado comunista

Fidelidade ao Partido fez Niemeyer apoiar Miro Teixeira em 82 e dar casa a Prestes

Oscar Niemeyer, morto aos 104 anos de idade às 21h55 desta quarta-feira, tinha também uma atuação política muito forte. Foi filiado ao Partido Comunista Brasileiro desde 1945,e era fiel seguidor das ordens do partido.

A fidelidade chegou a tal ponto que Niemeyer apoiou a candidatura de Miro Teixeira(MDB) nas eleições municipais de 1982 no Rio de Janeiro.

Ao Jornal do Brasil, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, disse que Niemeyer justificativa de que Miro era "representativo do arco político da sociedade, candidatura capaz de angariar mais forças políticas", de acordo com o Partido Comunista Brasileiro.

Outras histórias, envolvendo apoios financeiros a figuras como Luís Carlos Prestes e uma reunião no Hotel Nacional, em São Conrado, antes do fim da ditadura, mostram a força política de Niemeyer, nem sempre retratada quando se fala do arquiteto.

Ele contou, em maio de 2011, que chegou a ser preso duas ou três vezes durante a Ditadura Militar, na sede do Departamento de Ordem Política e Social(DOPS):

"Mas não posso me queixar não, porque só me incomodavam. Não sofri como outros amigos que foram presos, apanharam e conheceram tortura. Nada disto ocorreu comigo. Eles tinham prazer de me levar para a polícia e fazer inquérito", comentou Niemeyer.

Admiração e ajuda a Prestes

Em 1945, Oscar Niemeyer foi apresentado a Luís Carlos Prestes, político do Partido Comunista Brasileiro e que voltava do exílio ao Brasil após a queda de Getúlio Vargas.

Encantado com Prestes e também filiado ao Partidão, Niemeyer fez uma oferta ousada para o recém-retornado à pátria: uma sede para o PCB.

"Ele tinha um escritório na rua Conde Lage, na Lapa, e sugeriu a Prestes que alugasse o prédio como sede do Partido Comunista Brasileiro, o que Prestes aceitou. Além disso, ele ofereceu emprego para que Prestes trabalhasse no escritório", contou Azêdo.

Argemiro Ferreira, jornalista e amigo de Niemeyer nas últimas décadas, deu mais detalhes sobre a utilização daquele edifício nos anos seguintes:

"O partido cresceu muito, e o Niemeyer então disse ao Prestes: fique com o prédio todo para você. O que você faz é bem mais importante do que o que eu faço".

O apoio de Niemeyer, admirador de Prestes, era também financeiro, que culminou na compra de uma casa para Prestes, na segunda vez em que o comunista voltou ao Brasil após um período de exílio:

"Niemeyer comprou um apartamento para Prestes e a mulher, Maria, morarem. E lá Prestes ficou até morrer, em 1990", relembra Azêdo. 

Ferreira, muito amigo de ambos na época em que Prestes voltou ao Brasil, conta que Niemeyer fez uma recepção para o amigo em sua casa, no Alto da Boa Vista:

"Na época, o Prestes já tinha brigado com o Partido Comunista, e tinha escrito inclusive a famosa Carta aos Comunistas, que marcou a cisão do Partidão", relembra ele.

Miro e Brizola

Azedo contou em detalhes sobre o momento em que Oscar Niemeyer, ao contrário do que se esperaria de um comunista em 1982, declarou apoio ao candidato do MDB, Miro Teixeira, nas eleições municipais do Rio de Janeiro em 1982:

"Estava com outro jornalista comunista, Ivan Alves, e fui levado ao escritório do Niemeyer para ver o momento em que ele ratificaria apoio ao Leonel Brizola, do PDT. Ele, porém, chegou e disse a mim: 'uma pena que você tenha chegado tão tarde. Acabei de falar com o Miro e vou apoiá-lo'.", relatou Azêdo, que ouviu de Niemeyer que "Miro seria capaz de angariar mais forças políticas.

O tempo, porém, seria irônico com o arquiteto. Graças à amizade com Darcy Ribeiro, que conhecera em Brasília, Niemeyer ficou muito próximo de Brizola, vencedor da eleição. Tão próximo que tornou-se um dos melhores amigos do pedetista:

"Ele projetou o Sambódromo, inaugurado em 1984, e projetou os 504 Centros Integrados de Educação Pública, os Cieps, marca registrada do governo Leonel Brizola"

Hotel Nacional, pólo intelectual

Já no final do período da ditadura, Niemeyer utilizou o Hotel Nacional, projetado por ele mesmo em 1972, para uma reunião de intelectuais. Esse episódio é contado por Argemiro Ferreira, que relata alguns detalhes de como tudo aconteceu:

"Na ocasião, foram intelectuais do Brasil inteiro, e ele pagou a estadia de todos no Hotel. A influência dele para que isso acontecesse foi fundamental", contou ele, que ainda lembrou a participação de dois ex-presidentes do Brasil nessa reunião: Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, e Lula, na época um líder sindical do ABC Paulista:

"Lula se reuniu com vários líderes sindicais e essa conversa foi muito importante, transformada inclusive em livro depois".

Ferreira diverte-se ao lembrar de um diálogo com Niemeyer em julho de 2012, sobre as famosas reuniões com amigos em sua casa:

"Quando eu perguntei a ele sobre isso, ele disse, com a maior naturalidade do mundo: 'Ah, não estão ocorrendo mais as reuniões, estão todos morrendo'", ele era assim mesmo", finalizou Ferreira.

Generosidade no socialismo

Ferreira Gullar, poeta e admirador de Oscar Niemeyer, pensa que muito da ideologia política do arquiteto vinha de sua própria natureza, humilde e generosa:

"Ele era um homem generoso, ele não podia concordar com uma sociedade desigual. No marxismo, ele encontrou o sonho de uma sociedade igual, e por isso ele se tornou comunista. É uma visão generosa da sociedade", diz Ferreira Gullar, que define com poucas palavras o arquiteto, em várias dimensões:

"Era uma mistura de boa fé, de generosidade e de fantasia, não é à toa que a arquitetura dele é como é", finalizou o poeta.

MST e PCB homenageiam

Em nota oficial, o Movimento dos Sem-Terra homenageou Oscar Niemeyer, que sempre apoiou a causa da reforma agrária:"Niemeyer foi um sábio, solidário e comunista!

O povo brasileiro e a humanidade perderam um de seus melhores amigos que viveu ao longo do seculo 20.Niemeyer foi mais do que um arquiteto, foi um amante da vida  e um incansável defensor da igualdade entre todos os seres humanos. Era comunista, não por doutrina.

Mas porque acreditava que todos os seres humanos são iguais e que deveríamos ter as mesmas condições de vida.

Por isso, foi acima de tudo um companheiro de todos nós!Desprezava os bens materiais que a classe dominante brasileira tanto idolatra e explora a milhões, para acumular cada vez mais...Defendia e praticava os valores humanistas e, sobretudo, o da solidariedade, contra qualquer injustiça.O MST tem um imenso orgulho de ter sido seu amigo, companheiro e ter recebido seu apoio.Teremos nele, sempre, um exemplo de vida.Grande Oscar, seguiremos te encontrando por aí... nas suas obras e lembranças!Direção Nacional do MST"

O site do Partido Comunista Brasileiro destaca a história de Niemeyer no partido, do qual foi presidente de honra a partir de 1992:

"Sua luta, sua história, seu compromisso com o marxismo e o socialismo, assim como a sua arte e ciência marcaram indelevelmente a memória do tempo presente.

Camarada Oscar Niemeyer, presente!", diz o trecho final da nota.

>> Música e comoção no último adeus a Oscar Niemeyer