Niemeyer, um disciplinado comunista

Fidelidade ao comunismo fez Niemeyer dar casa a Prestes e seguir determinações do partido

Oscar Niemeyer, morto aos 104 anos, na quarta-feira, tinha uma forte e discreta atuação política. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro desde 1945, mesmo já famoso e respeitado mundialmente, era um fiel e disciplinado seguidor das ordens do partido.

A opção pelo comunismo do arquiteto que faturou alto com seus projetos é explicada de forma simples por seu amigo, o poeta Ferreira Gullar: "Ele era um homem generoso, não podia concordar com uma sociedade desigual. No marxismo, encontrou o sonho de uma sociedade igual. Por isso ele se tornou comunista. Tinha uma visão generosa da sociedade".

Esta maneira de ser, no entender do poeta, reflete-se na própria obra do arquiteto: "Era uma mistura de boa fé, de generosidade e de fantasia, não é à toa que a arquitetura dele é como é", finalizou.

Comunista, não por doutrina

A paixão pelo comunismo e a sua luta por igualdade entre os homens o aproximou também do Movimento dos Sem Terra (MST) que muito abominam, mas Niemeyer aplaudia e elogiava.

Não é por outro motivo que na nota divulgada após sua morte os sem terras lembravam que o arquiteto “não era comunista por doutrina. Mas porque acreditava que todos os seres humanos são iguais e que deveríamos ter as mesmas condições de vida”.

A nota diz que ele “foi acima de tudo um companheiro de todos nós! Desprezava os bens materiais que a classe dominante brasileira tanto idolatra e explora a milhões (...) Defendia e praticava os valores humanistas e, sobretudo, o da solidariedade, contra qualquer injustiça”.

Admiração e ajuda a Prestes

Não se pode dizer que Niemeyer chegasse a desprezar os bens materiais, mas é certo que ele colocava acima de tudo os valores humanistas, a solidariedade e a luta contra injustiças. Em nome destes valores, inclusive, financiou vários companheiros de militância, a começar por Luís Carlos Prestes. Os dois se conheceram em 1945, quando o líder comunista e presidente do PCB, também conhecido como Partidão, retornou do exílio que lhe foi imposto pela ditadura de Getúlio Vargas.

Encantado com o líder comunista e já membro do partido, fez uma ousada oferta para o recém-retornado à pátria: uma sede para o partido. "Ele tinha um escritório na Rua Conde Lage, na Lapa, e sugeriu a Prestes que utilizasse parte do prédio como sede do PCB, o que foi aceito. Ao mesmo tempo, ofereceu emprego para Prestes no seu escritório", relembra Mauricio Azêdo, jornalista que também foi filiado ao PCB, hoje presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Argemiro Ferreira, jornalista e amigo de Niemeyer há décadas, lembra que o “partido cresceu muito e o arquiteto propôs que Prestes ficasse com todo o prédio com a explicação ‘o que você faz é bem mais importante do que o que eu faço’".

A admiração pelo líder comunista culminou com a compra de uma casa, em 1979, quando Prestes, sua segunda mulher, Maria, e os sete filhos que teve com ela retornaram do exílio imposto pela ditadura militar iniciada em 1964. “Neste apartamento ele morreu, em 1990, e Maria mora até hoje”, explica Azêdo.

Na volta deste segundo exílio do líder comunista, Niemeyer ofereceu-lhe uma festa na sua casa na Estrada das Canoas. “Na época, o Prestes já tinha brigado com o Partido Comunista. Fo quando escreveu a famosa Carta aos Comunistas, que marcaria a cisão do Partidão em 1992", narra Ferreira.

Miro e Brizola

A fidelidade ao Partido Comunista levou Niemeyer, em 1982, quando do retorno das eleições diretas para governadores dos estados, a declarar apoio a Miro Teixeira, do então no MDB. Como se recorda Azêdo, então vereador pelo PDT, que foi levado pelo jornalista Ivan Alves, outro comunista de carteirinha, ao escritório de Niemeyer na expectativa de convencê-lo a apoiar Leonel Brizola, do PDT.

Perderam a viagem: “Ele me disse: 'é uma pena que você tenha chegado tão tarde. Acabei de falar com o Miro e vou apoiá-lo'. Ele justificava a decisão dizendo que a candidatura era "representativa do arco político da sociedade e capaz de angariar mais forças políticas". Era o discurso do Partidão”, recorda Azêdo, que seguiu

O tempo, porém, seria irônico com o arquiteto. Brizola (governador) e Darcy Ribeiro (vice-governador) venceram a eleição. Miro acabou ingressando no PDT brizolista. Através de Darcy, que o conhecia desde a época da fundação da Universidade de Brasília (UnB), Niemeyer aproximou-se do governador eleito e se tornou um dos melhores amigos do pedetista:

"Ele projetou o Sambódromo, inaugurado em 1984, e os 504 Centros Integrados de Educação Pública, os Cieps, marca registrada do brizolismo no Rio", explica Azêdo.

Política no Hotel Nacional

Nos anos 80, quando a ditadura militar agonizava, Niemeyer utilizou o Hotel Nacional, em São Conrado, outro projeto seu de 1972 que teve muito destaque, principalmente por ter sido durante muito tempo o único prédio naquele vale à beira-mar. Ali, ele decidiu reunir intelectuais contrários à ditadura militar, como conta Ferreira:

"Na ocasião, foram intelectuais do Brasil inteiro. Ele pagou a estadia de todos. A influência dele para isto acontecer foi fundamental", recorda-se. Entre os participantes estavam os hoje ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Na época, o sociólogo e o líder metalúrgico ainda eram aliados, mas depois tomaram rumos opostos na política. Niemeyer, porém, permaneceu admirador de Lula até o final da vida.

Mas os dois se encontraram pouco, até Lula tornar-se presidente da República e, em um gesto de respeito, admiração e aproximação, convidar o arquiteto para um almoço no Palácio Alvorada, em março de 2003, poucos meses depois de assumir a Presidência da República.

Foi a segunda vez que Niemeyer pisou nos mármores pretos do chão do Alvorada. A primeira tinha sido na inauguração. Naquele almoço comentou com Lula uma de suas filosofias de vida: “A Arquitetura não é muito importante. Importante é a vida. A gente tem que arriscar sempre".

Amigos morrendo

Tendo atingido o centenário, Niemeyer saboreou um lado ruim da longevidade: viu seus amigos partirem. Ele mesmo não falava em morte mas, quando Ferreira cobrou dele o fim das reuniões políticas que costumava realizar no passado, ouviu-o explicar com a maior naturalidade do mundo: “Ah, não estão ocorrendo mais as reuniões, meus amigos estão todos morrendo”.