Um plebiscito para revisão da Lei da Anistia

Este é o desejo da filha de Rubens Paiva

Ao receber das mãos do governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), uma cópia do registro oficial da prisão do ex-deputado Rubens Paiva, a psicóloga Maria Beatriz Paiva Keller, 52 anos, não conteve a emoção. Na tarde desta terça-feira (27), ela obteve a comprovação legal de que seu pai foi preso no Destacamento de Operações e Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), no Rio de Janeiro, em 1971. Há 40 anos aguardando pelo corpo de Paiva, Maria Beatriz sugere uma mobilização da sociedade brasileira por um plebiscito popular pela revisão da Lei da Anistia.

"Seria bom a sociedade pensar profundamente na revisão (da Lei da Anistia). São crimes hediondos contra a humanidade. O Brasil não pode passar batido desse jeito. Enquanto países vizinhos elaboraram de maneira muito mais efetiva, ainda estamos no 'espera, não pode, tem a lei'. Cabe à sociedade resolver. Por que não fazer um plebiscito popular? Faça um plebiscito popular e o povo vai dizer sim ou não", defendeu ela.

O documento fazia parte do arquivo pessoal do coronel da reserva Julio Molinas Dias, 78 anos, assassinado a tiros na capital gaúcha em 1º de novembro, quando chegava de carro em sua casa. Após o crime, a Polícia Civil gaúcha repassou o arquivo à Comissão Estadual da Verdade, que também entregou uma cópia ao coordenador da Comissão Nacional da Verdade, Cláudio Fonteles. No acervo de Molinas Dias, foram encontrados também detalhes sobre uma manobra para ocultar a responsabilidade de militares ao atentado no Riocentro, em 1981.

"A sensação que eu tenho é que a história do meu pai está inacabada. Para nós, familiares, isso ainda não acabou, é como se você saísse de um filme que não tem final. A Comissão da Verdade está aí para colocar um 'the end' na história de muitas famílias, de pessoas torturadas e maltratadas", disse Maria Beatriz em discuro hoje no Palácio Piratini. "Há 40 anos meu pai foi tirado de casa. Por que tanta demora? Por que essa morosidade? Por que as pessoas não encaram de frente essa história trágica?", questionou ela.

Reconciliação passa pela verdade

Tarso Genro, que foi ministro da Justiça no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, elogiou a atuação "republicana" da Polícia Civil gaúcha ao entregar o arquivo à Comissão e afirmou que "o outro lado", referindo-se aos militares, tem que tornar público as suas ações durante a ditadura militar para que ocorra uma reconciliação da história do País.

"Todo ato de busca da verdade é um ato de reconciliação, e ela só é possível dentro da verdade e da possibilidade das pessoas assumirem suas responsabilidades públicas. Aqueles que lutaram contra o regime militar assumiram publicamente, foram presos, torturados, mortos. Isso está esclarecido, mas o outro lado da história não está contado. O Brasil, a nação, os jovens, precisam saber o que aconteceu para que a democracia se firme cada vez mais", disse o petista.

Traumas de infância

A filha de Rubens Paiva relatou os momentos traumáticos sofridos após o desaparecimento do pai, quando ela tinha 10 anos de idade, e revelou que às vezes mentia para os colegas na escola quando era perguntada sobre sua família.

"Eu fui poupada por ser a filha menor. No dia que tiraram ele de casa, lembro de minha mãe falando para eu ficar no quarto, só que depois que papai foi levado, a coisa ficou mais pesada. Os coleguinhas da escola perguntavam 'cadê seu pai?', e eu não conseguia dizer que estava preso, pois na cabecinha duma criança, o preso é criminoso, e ele não era. Algumas vezes eu dizia que ele tinha morrido", contou Maria Beatriz.

"Isso não coloca um ponto final, pois a minha família não sabe onde ele foi enterrado, e eu temo pela verdade, porque existem teses de que o corpo foi destruído. Para uma filha, isso é triste", concluiu ela.