'Acho que o Congresso tem razão em criar CPI', diz Demóstenes

O senador Demóstenes Torres (sem partido - GO) reapareceu nesta quinta-feira no Senado Federal, em meio às polêmicas da criação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as relações do parlamentar com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Aparentemente tranquilo, Demóstenes afirmou que o Congresso Nacional tem razão em apurar os fatos.

"Acho que o Congresso Nacional tem razão para criar a CPMI. Respeito a decisão dos colegas e todos têm direito de assinar o requerimento de criação dela", afirmou. Perguntado se não se sentia constrangido em aparecer no Senado em meio às denúncias envolvendo seu nome, Demóstenes se mostrou à vontade. "Esta é minha Casa, fui eleito para isso", disse.

O parlamentar, no entanto, não quis tecer mais comentários a respeito do assunto e voltou a dizer que só vai dar explicações na semana que vem no Conselho de Ética do Senado. Demóstenes tem até a próxima terça-feira para entregar sua defesa prévia para o conselho.

O requerimento que cria a CPMI para apurar a ligação de Cachoeira com políticos e empresas foi lido em sessão conjunta do Congresso Nacional na manhã de hoje. O ato oficializa a criação da comissão. Os parlamentares que assinaram em favor da CPMI têm até a meia-noite de hoje para retirar o apoio.

Até agora, a comissão conta com o apoio de 330 deputados e 67 senadores. São necessárias as assinaturas de, no mínimo, 27 senadores e 171 deputados. A partir de amanhã, então, começa a contar o prazo de cinco dias úteis para os líderes partidários indicarem os membros que vão compor a comissão. Uma nova sessão conjunta do Congresso foi convocada para a próxima terça, às 19h30, para a leitura dos nomes desses parlamentares.

Depois dessa etapa, os integrantes da CPMI marcam a primeira reunião do grupo, em que escolhem o presidente e o relator. O PMDB deve presidir a comissão - os mais cotados são os senadores Vital do Rêgo (PB) e Romero Jucá (RR). O ex-líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) deve ser indicado como relator do processo.

A CMPI tem o objetivo de apurar práticas criminosas descobertas nas operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, com envolvimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira, agentes públicos e empresas, e possíveis desdobramentos. Pelo requerimento de criação da CPMI, a comissão tem 180 dias para concluir os trabalhos e um custo estimado de R$ 200 mil para a condução da investigação parlamentar. A comissão será composta por 15 deputados e 15 senadores.

Demóstenes e Carlinhos Cachoeira

Em 6 de março de 2012, o senador Demóstenes Torres (GO) subiu à tribuna para dar explicações sobre as denúncias de sua proximidade com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descoberta pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que terminou em fevereiro, com a prisão de Cachoeira e de outras 34 pessoas. Demóstenes disse que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido critérios legais. Dez dias depois, o jornal Folha de S.Paulo publicava um relatório do Ministério Público Federal (MPF) que indicava que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, que admitiu ter recebido o aparelho.

O jornal O Globo noticiou, em 23 de março, gravações da PF que flagraram Demóstenes pedindo para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo e vazando informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes. Em 27 de março, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado para "acompanhar a evolução dos fatos". No dia seguinte, o Psol entrou com representação contra o parlamentar no Conselho de Ética do Senado e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandovski autorizou a quebra do sigilo bancário de Demóstenes, solicitando ainda um levantamento sobre as emendas e os projetos relatados por ele para saber se Cachoeira, acusado de controlar a máfia dos caça-níqueis e de corromper policiais e políticos em Goiás, foi beneficiado.

Nas gravações, Demóstenes também aparece acertando um suposto lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso em 2009. Em outra conversa, Cachoeira pede ajuda no processo de um delegado e três policiais de Anápolis (GO) acusados de tortura e extorsão. Os dois ainda conversaram sobre um "negócio" milionário na Infraero. Na ocasião, Demóstenes teria se valido da relatoria da CPI do Apagão Aéreo para levantar informações e sondar contratos de informática na estatal.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido decidiu abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda.