Após saída de Demóstenes, DEM defende CPI sobre Cachoeira 

No dia em que o ex-líder do DEM no Senado, Demóstenes Torres (GO), pediu para se desfiliar da legenda por força das denúncias de sua ligação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, a liderança do partido na Câmara defendeu a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para analisar o caso. 

"Queremos fazer um debate aberto com a sociedade", afirmou nesta terça-feira Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), segundo o qual a comissão vai permitir que se avalie a "extensão dos malfeitos revelados". 

A divulgação de novos documentos e escutas telefônicas da Operação Montecarlo da Polícia Federal, que investiga os negócios de Cachoeira com políticos e agentes públicos, aumentou a pressão para a instalação da CPI proposta pelo deputado Delegado Protógenes (PCdoB-SP) e defendida tanto por líderes da base governista quanto da oposição. 

O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), disse que pediu uma análise técnica sobre o requerimento da CPI e que aguarda informações sobre o inquérito em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF). "Vamos olhar as investigações para que se tenham melhores condições de avaliar se é necessário ou não uma nova CPI, o (processo no) Conselho de Ética ou nenhum dos dois", disse.

Para o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), "tudo indica" que a Câmara vai instituir a CPI. "Já há assinaturas necessárias, e agora a Mesa tem de analisar se elas são suficientes e se há fato determinado", disse. O líder do PT, Jilmar Tatto (SP), disse que as "ramificações" da operação da PF têm de vir à tona. "Não temos que ter medo da verdade, até porque não podemos aceitar, numa democracia, que o crime organizado se instale no aparelho de Estado", sustentou. "A bancada do PT é favorável à instalação da CPI." A posição foi acompanhada pelo líder do PR, Lincoln Portela (MG).

No início da tarde de ontem, o Psol entregou a Marco Maia um pedido para que a Corregedoria investigue os deputados Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) e Sandes Júnior (PP-GO) pelas ligações com Cachoeira. O documento diz que escutas indicam "relações suspeitas e transações obscuras" entre Leréia e um dos chefes da organização de Cachoeira, além de "conversas suspeitas" entre Júnior e o contraventor.

Após a análise do caso, a Corregedoria decidirá se o processo será encaminhado ao Conselho de Ética. No entanto, algum partido pode representar diretamente ao conselho. O líder do Psol, Chico Alencar (RJ), não descartou a possibilidade. "Não vamos fazer cara de paisagem. A instituição tem de estar empenhada na investigação disso tudo, e o partido não titubeará em ir ao Conselho de Ética, tendo mais elementos", disse.

Na semana passada, o Psol representou contra o deputado Rubens Otoni (PT-GO), que teria recebido recursos de Cachoeira para financiar sua campanha à prefeitura de Anápolis em 2004. A Corregedoria abriu prazo para Otoni apresentar defesa. Ontem, Leréia divulgou uma nota dizendo que não iria se pronunciar até receber os dados do inquérito. Os deputados Sandes Júnior e Rubens Otoni não se manifestaram.

Integrantes da Frente Parlamentar Mista de Combate à Corrupção participaram da reunião do Psol com o presidente da Câmara para reforçar o pedido, feito na semana passada, para que a Mesa Diretora obtenha informações completas sobre as investigações. "Temos de ter conhecimento dessas peças para a proteção da nossa imagem", disse o presidente da Frente, Francisco Praciano.

O líder do PPS, Rubens Bueno (PR), também esteve presente e disse que o partido "está disposto a investigar para valer, começando pelos deputados do partido", referindo-se à denúncia de que Cachoeira teria emprestado dinheiro ao deputado Stepan Nercessian (RJ), que já se licenciou do partido até que sejam concluídas as investigações. "Ele mesmo pediu investigação sobre si, e o partido confia nele", disse Bueno.

Demóstenes e Carlinhos Cachoeira

Em 6 de março de 2012, o senador Demóstenes Torres (GO) subiu à tribuna para dar explicações sobre as denúncias de sua proximidade com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descoberta pela operação Montecarlo, da Polícia Federal, que terminou em fevereiro, com a prisão de Cachoeira e de outras 34 pessoas. Demóstenes disse que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido critérios legais. Dez dias depois, o jornal Folha de S.Paulo publicava um relatório do Ministério Público Federal (MPF) que indicava que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, que admitiu ter recebido o aparelho.

O jornal O Globo noticiou, em 23 de março, gravações da PF que flagraram Demóstenes pedindo para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo e vazando informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes. Em 27 de março, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado para "acompanhar a evolução dos fatos". No dia seguinte, o Psol entrou com representação contra o parlamentar no Conselho de Ética do Senado e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandovski autorizou a quebra do sigilo bancário de Demóstenes, solicitando ainda um levantamento sobre as emendas e os projetos relatados por ele para saber se Cachoeira, acusado de controlar a máfia dos caça-níqueis e de corromper policiais e políticos em Goiás, foi beneficiado.

Nas gravações, Demóstenes também aparece acertando um suposto lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso em 2009. Em outra conversa, Cachoeira pede ajuda no processo de um delegado e três policiais de Anápolis (GO) acusados de tortura e extorsão. Os dois ainda conversaram sobre um "negócio" milionário na Infraero. Na ocasião, Demóstenes teria se valido da relatoria da CPI do Apagão Aéreo para levantar informações e sondar contratos de informática na estatal.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido decidiu abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda.