SP: multidão usa droga a uma quadra de churrasco na Cracolândia 

São Paulo - Quem foi ao "Churrasco da Gente Diferenciada - Versão Cracolândia", que ocorria na tarde deste sábado na rua Helvetia, centro de São Paulo, ficou em dúvida. Enquanto uma multidão estava reunida na esquina da alameda Dino Bueno, a apenas uma quadra, na alameda Barão de Piracicaba, um grupo de usuários de crack, quase do mesmo tamanho, se aglomerava para aproveitar um descuido do policiamento e fumar abertamente. A fumaça do churrasco se confundia com a do tóxico.

Notando a aproximação da reportagem do Terra, um usuário fez ameaças com um objeto perfuro-cortante. Pouco depois, uma viatura estacionou ao lado, o que motivou uma dispersão indecisa. Dezenas de dependentes químicos iam de uma esquina à outra, ora para pegar um pedaço de pão, ora para matar a vontade de crack. Aparentavam desorientação. Entidades de defesa dos direitos humanos colocaram cartazes de protesto contra a presença policial no perímetro.

Salsichão assado era servido em pães franceses distribuídos pelos organizadores: mais de 40 organizações, incluindo o Psol-SP, deputados estaduais de esquerda, o movimento Ocupa Sampa e a Marcha da Maconha. Os organizadores distribuíram um manifesto contra a ação policial na Cracolândia, classificada por eles como higienista e intencionada a criminalizar a miséria.

Segundo Maria Albertina Galvão, da Ação da Cidadania contra a Fome, a organização arrecadou um montante em dinheiro de doações, com o qual comprou carvão e alimentos, mas colaborações espontâneas de pessoas que foram ao evento tornaram impossível contabilizar tudo o que foi consumido. Dezenas de quilos de carne, frutas e vinagrete foram adquiridos, preparados e distribuídos gratuitamente. Um bar foi usado como ponto de apoio pelos churrasqueiros. O sucesso foi enorme entre os moradores de rua das proximidades e também dos usuários que circulam pela região.

A manifestação, que reeditou o "Churrasco da Gente Diferenciada" em Higienópolis, contou com a presença da Pastoral do Povo de Rua da Arquidiocese de São Paulo na figura do Padre Júlio Lancelotti. O religioso exaltou o evento e criticou a Operação Centro Legal, que desde o dia 3 de janeiro ocupa a Cracolândia e dispersa usuários.

"Você vê algum grande traficante aqui? Quem está aqui é o usuário, apenas. Quem lucra com a Cracolândia está bem longe daqui. Esta foi uma operação policial midiática", disse.