Moradores se desesperam e criticam falta de ajuda em Minas Gerais 

A chuva voltou a fazer estragos em Minas Gerais neste fim de semana. E sem uma estiagem que dure pelo menos três dias os moradores das cidades atingidas já não sabem o que fazer para limpar suas casas e recuperar o que perderam, naquela que já pode ser considerada a maior enchente da história de algumas das cidades afetadas. O Terra esteve em dois destes municípios e o que encontrou, além do cenário de guerra provocado pela água que levou tudo pela frente, foi muito desespero e tristeza, acompanhados da angustiante sensação de que no ano que vem a tragédia pode acontecer de novo.

A pequena Belo Vale fica a 80 km de Belo Horizonte e é banhada por um dos rios mais temidos da região central mineira, o Paraopeba. O município tem 7.529 habitantes, entre eles a aposentada Maria Antônia, conhecida como dona Mariinha, 70 anos, que contou já ter visto todo tipo de inundação no município, inclusive as de 1997 e 2008, que arrasaram a cidade. "Mas como essa nunca vi. Não há o que fazer. É sempre assim, a Defesa Civil vem, olha, fala que vai nos ajudar e depois vai embora. Na próxima enchente eles estão de volta, mas minha casa está destruída, sem telhados e três cômodos", se desespera.

"Na enchente de 2008 também perdi tudo. A casa caiu e tive que começar de novo, comprar tudo sozinha. Até hoje espero pela ajuda da Defesa Civil e da prefeitura. A única coisa que salva é que o povo daqui é bom, solidário. O prefeito também é daqui, mas depois que ele ficou rico não fez mais nada para nossa cidade. Foi assustador ver a água subindo e a gente perdendo tudo e não poder fazer nada. Uma tristeza danada", relata a aposentada, subindo o tom de voz toda hora que lembrava da ajuda não recebida nas inundações anteriores.

O filho de dona Mariinha, o motorista Antônio Miguel, 40 anos, reforçou os lamentos da mãe, enquanto a ajudava a retirar os escombros e a lama da casa derrubada pela força da água. "O prefeito não faz nada, finge que não vê nossos problemas. Está tudo destruído por aqui e ele diz que tudo está normal. Minha mãe está morando de aluguel porque sua casa está acabada e ela não tem para onde ir. O prefeito Lei (como é conhecido Wanderlei de Castro) está tranquilo e nós aqui nesse sofrimento", criticou.

As ruas de Belo Vale ainda estão tomadas de lama, entulhos e móveis que foram destruídos e jogados para fora das casas pelos moradores. O estudante Marcos Felipe, 23 anos, contou que quando começou a chover ele e o pai não imaginavam o que aconteceria. "Quando a água começou a subir nós olhamos assustados, já que a enchente estava chegando nos fundos do nosso lote, que fica ao lado do rio. A água encobriu nossa casa toda, o prejuízo foi muito grande", lamentou.

Tragédia

Na funerária do comerciante e pastor evangélico Walter Ferreira, 54 anos, a enxurrada quase levou os caixões que ficavam à mostra. Ele contou que teve tempo apenas de retirar as urnas e coloca-las em um local seguro. "A chuva de 2008 foi uma tragédia, mas esta foi uma tragédia maior ainda. Perdemos a placa da loja, a parede aqui dentro caiu, o rio subiu uns 10 m. Vamos ter que recomeçar tudo de novo com uma grande reforma", disse.

Em Belo Vale, nem as casas que ficam na parte alta escaparam da cheia do Paraopeba. A mãe do pedreio Arlindo Willis, 39 anos, mora em uma rua onde a enchente nunca havia chegado. "Desta vez, não teve jeito. O rio subiu mais de 10 m acima do leito e na casa da minha mãe, que fica no alto da cidade, a água chegou a uns 80 cm de altura. A água nunca tinha ido lá. A cidade está arrasada".

Para quem perdeu as casas de vez e não tem o que recuperar, a prefeitura providenciou abrigos. Em um deles está a empregada doméstica Flórida Ribeiro Maia, 50 anos. A moradia dela, que era alugada, ruiu. "Está muito difícil. Já moro de aluguel e a casa onde morava caiu. Não tenho para onde ir com meu filho de 10 anos. Perdi muita coisa, alimentos, móveis, quase tudo. Não sei para onde vou, estou sem destino, essa chuva bateu recorde. Estamos contando com a solidariedade do povo daqui", disse, com esperança.

"A prefeitura só veio aqui hoje e deixou alguns copinhos de água. Para comer, tenho que ir na casa do meu irmão e dividir a comida com ele. O prefeito esqueceu da gente. Na época da eleição, até beijinho ele dava. Tivemos que ficar durante quatro dias dentro de um cômodo de menos de 2 m², passando a noite com muito frio, fome, sem luz e sem água. Não tivemos ajuda de ninguém. Esqueceram de nós", reclamou a dona de casa Maria das Dores Silva, 50 anos.

Prefeito critica desabrigados

Para minimizar o sofrimento do povo de Belo Vale, dezenas de voluntários ajudam no socorro médico às vítimas. Uma delas é a lavradora Nelma Fernandes, 25 anos: "Nós somos da Comunidade Noiva do Cordeiro e estamos fazendo o que for possível para ajudar esse pessoal que está sofrendo com as enchentes. Somos 30 pessoas espalhadas por Belo Vale, tentando amenizar o sofrimento desse pessoal".

O prefeito Wanderlei de Castro recebeu a reportagem na prefeitura e disse que "não está medindo esforços para colocar a cidade em ordem e funcionamento normais. Não temos prioridade com ninguém aqui. Começamos a limpar a cidade desde a entrada para o fundo. Não faltou lugar para os desalojados", assegurou.

"Os que não estão nas escolas, ficam nas casas de amigos e parentes. Do nosso conhecimento, essa é a pior enchente na história de Belo Vale. Vai levar ainda alguns dias para normalizar a água para nosso povo. Sabemos que até agora a cidade tem 22 famílias desabrigadas e 410 famílias desalojadas", disse o prefeito.

Conforme Castro, a Defesa Civil irá enviar 300 kits contendo produtos de higiene e limpeza, cobertores, alimentos e água para a cidade. "Estamos calculando que o prejuízo com essa enchente está em torno de R$ 6 milhões", avaliou. O prefeito disse que as reclamações dos moradores são fruto de desavenças políticas: "Falam mal de mim porque tenho inimigos políticos e eles ficam querendo acabar com a minha carreira. Esse pessoal que ficou nos quartinhos e nas lonas não foi para abrigos porque não quiseram, não acreditaram que as águas iriam subir daquele jeito", afirmou.

Mais chuva em Minas GeraisA Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) informou que haverá chuva forte e intensa até a próxima terça-feira nas regiões Central, Metropolitana, Campo das Vertentes, Sul, Zona da Mata e parte da região Leste, próximo ao município de Caratinga.

O volume poderá ficar entre 100 mm e 150 mm. Como o solo já está totalmente saturado, o risco de deslizamentos é muito alto, independente do volume de chuva que cair, avisa a Cedec. Somente em Belo Horizonte, choveu até agora 228,7 mm dos 296,3 mm esperados para o mês de janeiro, ou seja, 77% do volume previsto. Em todo o Estado, 103 cidades estão em situação de emergência. Outras 54 comunicaram estragos. Quase 2,2 milhões de pessoas foram afetadas. Destas, 13 mil estão desalojadas ou desabrigadas, 12 morreram e duas estão desaparecidas.

Com a chuva intermitente, foram registrados novos alagamentos em Itabirito, a 70 km da capital, e Ponte Nova, na Zona da Mata, onde o rio Piranga ameaça transbordar novamente. Houve também deslizamentos em Ubá, na Zona da Mata, e Ouro Preto, a 100 km de Belo Horizonte. Não houve vítimas, segundo os bombeiros. Em Governador Valadares, na região leste de MG, ainda há 20 bairros alagados pela cheia do Rio Doce, que está 4 m acima do nível normal.