A mágica por trás da magia do circo

Luiz Urjais, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Tem circo novo na cidade. E, apesar do nome, não veio de Las Vegas, mas de Taubaté, no interior paulista. Dirigida e coordenada pela família Nunes há 30 anos, a compannhia é o que se pode definir de panis et circenses (pão e circo), pois além de ser o único meio de subsistência do clã, é também uma tradição que passa de pai para filho.

O nome Las Vegas vem de uma antiga parceria firmada entre a família e o americano John Smoof, oriundo da cidade americana, e que há cerca de 20 anos trouxe ao Brasil números que, até então, só eram exibidos em cassinos dos EUA tais como o globo da morte, novos saltos de trapézio e técnicas de ilusionismo. O circo já percorreu a América Latina e todo o Brasil, participando de festivais e promovendo turnês locais. No entanto, o que ninguém imagina é que, por trás da alegria contagiante e de toda a magia, esconde-se a história de uma família que, mesmo diante das adversidades, nunca desistiu de realizar o próximo show.

Segundo a matriarca, Eleni Nunes, casada com Junior Nunes há 22 anos, a história do circo Las Vegas se divide em muitos altos e baixos. Ela explica que antes de tomar a proporção de hoje, com doze carretas que carregam os equipamentos, o circo já se resumiu a apenas um caminhão, uma lona e um trailer, feito de forma artesanal, para a moradia da família.

Conheci o Junior no tempo em que o circo era bem precário e conduzido apenas por ele, sua mãe e pai. Naquela época, eles percorriam diversas cidades pedindo recursos para os moradores (água, comida e luz), em troca de apresentações revela.

Eleni se apaixonou e largou o emprego de professora para acompanhar Junior.

Houve muito preconceito de ambas as famílias. Minha mãe não deixava eu ir ao circo e muito menos segui-lo. A família dele não aceitava o envolvimento com alguém que não fosse circense, por achar que eu não aguentaria nem um mês. Diante disso, resolvemos casar, aos 21 anos.

Ela diz que, o início foi muito difícil.

Nosso trailer só tinha uma cama, parecia uma caixinha de fósforo. O pai do Junior pagava a ele um pequeno ordenado e dava refrigerantes para que ele vendesse nos intervalos. Era complicado. Às vezes, eu sentia vontade de tomar um banho de chuveiro ou ver uma TV. Coisas banais que, comparadas ao amor dele pelo circo, não faziam sentido.

É difícil imaginar, olhando para a arena com capacidade para 2 mil espectadores, o estacionamento e uma praça de alimentação para 800 pessoas, que eles já tenham pensado em desistir.

A motivação para vendê-lo veio da tamanha dificuldade em viver do circo. Mas a venda só durou dois meses. Júnior, que sempre sonhou em ter um grande circo, propôs uma sociedade ao pai, que deixou o negócio de frete e retomou o Las Vegas. A parte investida foi a acumulada na venda de refrigerantes.

A reativação do circo foi um grande incentivo para o jovem diretor, que trabalhou bastante para seu crescimento. Hoje em dia, o circo Las Vegas emprega uma equipe de cerca de 100 pessoas, que, conforme a temporada, é renovada, para a manutenção dos espetáculos.

Mágico sonha em formar família e fazer faculdade

O mágico Ikares Monasterio, 25 anos, acompanha o circo Las Vegas há três e diz que foi contratado após uma apresentação que fez no Chile, na época em que integrava um circo peruano. Ele explica que os circos brasileiros oferecem as melhores condições de trabalho da América do Sul.

Comecei trabalhando no circo de minha família, no México. Aos 13 anos, fui contratado por uma companhia do Peru e viajei por toda a América do Sul, participando de festivais. Em qualquer circo, eles pagam ao artista conforme o espetáculo realizado. Se não tiver show, não recebemos. Aqui no Brasil, pelo contrário, os contratos são realizados por temporada, o que nos dá uma segurança maior.

Monasterio conta que ser artista é algo que sempre fez parte de sua vida e que o aplauso do público é o maior incentivo. Contudo, revela que sonha um dia ser bailarino e constituir família.

Ao fim da minha temporada, pretendo voltar ao México, trabalhar novamente no circo dos meus pais e começar uma faculdade de dança. E um dia, quem sabe, formar uma família revela.

O mexicano conta que já viveu situações bem difíceis. Numa delas, no Chile, teve que dar seu passaporte a um dono de restaurante como garantia de que iria pagar as refeições que consumia.

O circo tinha acabado de chegar à cidade de Arica, sob um forte temporal que assolava a região norte do país. Devido à chuva, ficamos uma semana sem fazer apresentações, pois o local estava cheio de lama relembra. Nós fazíamos as refeições em um mesmo restaurante, que, após tanto tempo sem receber, já duvidava que fôssemos pagar. Toda a bilheteria do primeiro show serviu para pagar a dívida com o proprietário.

Criados no circo, herdeiros divergem sobre seus futuros

Para o diretor e apresentador Junior Nunes, a questão de seus filhos começarem a vida artística muito cedo nunca foi empecilho para que, em algum momento de suas vidas, eles optem por morar na cidade. No entanto, ele explica que, mesmo tendo essa liberdade, a chance de trabalhar no circo é única e dá a oportunidade de crescimento cultural.

Eles trabalham e estudam, de forma itinerante. Durante a semana, quando não há espetáculos, têm uma vida normal. Saem para passear, conhecem gente nova. Cada lugar é uma bagagem e uma renovação da própria cultura.

Vindo de encontro à tradição circense, Gustavo, 15, trapezista e responsável pelo globo da morte, diz que não saberia viver sem o circo, e que pensa em levar adiante o negócio do pai .

Atualmente, estou cursando o ensino médio e, quando terminá-lo, penso em prosseguir no circo diz.

Por outro lado, seu irmão mais velho, Lucas, 19, cursou o primeiro período de direito e lamenta não ter dado continuidade à faculdade, pois confessa já ter pensado em largar o circo.

Minha tia, que é da cidade, me incentiva a deixar a vida circense. Além disso, namoro uma menina de Friburgo que mal consigo ver explica o capataz (responsável pela montagem e desmontagem dos aparelhos) que também se apresenta no globo da morte, com o irmão.

Caçula, a malabarista e bailarina Thaynara, 11, se considera muito nova para escolher entre a cidade e o circo, e diz que se largasse os palcos, gostaria de ser psicóloga .