Chaim Litewski : Boilesen é um ser quase ficcional

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Sugerida em filmes e peças de teatro, a associação entre empresários brasileiros (particularmente os paulistas) e a ditadura militar (1964-1985), um tema tabu no país, é investigada a fundo no documentário Cidadão Boilesen, vencedor do festival É Tudo Verdade deste ano. Escrito e dirigido pelo jornalista Chaim Litewski, o filme recorre a depoimentos de parentes, amigos, historiadores, políticos, militares e ex-integrantes da luta armada para traçar o perfil do controverso industrial Henning Albert Boilense, frequentador das altas rodas. Há décadas os mistérios envolvendo a personalidade e a trajetória de Boilesen fascinavam o diretor que, num primeiro momento, pensou em escrever um livro sobre o empresário.

Cada nova descoberta sobre ele só fazia aumentar meu interesse pelo personagem. Boilesen é um ser quase ficcional, parece que viveu uma dicotomia tipo Jekyll e Hyde, noite e dia compara o diretor, radicado em Nova York, em entrevista por e-mail ao Jornal do Brasil.

O apoio de certos setores da indústria e do comércio à repressão durante a ditadura não é exatamente uma novidade. Mas, com certeza, Cidadão Boilesen é o primeiro a investigar essa relação a fundo. Qual foi a principal motivação para o filme?

Boilesen é um ser quase ficcional, parece que viveu uma dicotomia tipo Jekyll e Hyde, noite e dia. Esse interesse me acompanhou por muitos anos. Em 1994 comecei a me organizar no sentido de realizar um documentário sobre Boilesen e seu tempo. O grande problema de qualquer pesquisador é saber quando devemos parar, quando devemos botar um ponto final na pesquisa. Quando finalmente, dois anos atrás, recebi a pasta do SNI (órgão substituído pela Abin) referente ao Boilesen, achei que era o momento apropriado de encerrar a pesquisa. Acho que fui movido por curiosidade e interesse pelo tema.

Esse interesse o persegue desde quando, exatamente?

Acho que a primeira vez que ouvi falar de Henning Boilesen foi em 68. Suponho que devo tê-lo visto na televisão, possivelmente na (TV) Tupi. Fiquei intrigado pelo fato de ele ser o diretor da Ultragás (minha família consumia, como tantos milhões de famílias brasileiras, gás liquefeito entregue, religiosamente, todas as semanas em caminhões repletos de botijões) e por ser, curiosamente para mim, dinamarquês (a Dinamarca para mim sempre foi modelo de sociedade e população liberal). Lembro perfeitamente do dia em que ele foi assassinado, 15 de abril de 1971. Nessa época já se falava, à boca pequena, que Boilesen ajudava a financiar a Operação Bandeirante. Decidi escrever alguma coisa a respeito da vida dele pois me lembro de recortar e guardar obituários que saíram nos jornais e revistas. Soube, anos mais tarde, da publicação de um livro sobre Boilesen na Dinamarca (Likvider Boilesen, de Henrik Kruger). Desisti de escrever um livro e comecei a pensar num documentário biográfico. Cada descoberta só fazia aumentar meu interesse e fascinação sobre o personagem.

O senhor foi vítima da repressão política? Tem em seu círculo de amizades ou familiares que tenha sido?

Não fui vitima de repressão política. Tenho amigos que foram.

Cidadão Boilesen é, antes de tudo, uma cinebiografia de Henning Boilesen. Mas até que ponto o filme pode ser visto como um documentário sobre a estrutura do financiamento da tortura durante a ditadura militar?

Acho que Cidadão Boilesen é ambos (cinebiografia e um estudo sobre os primórdios da Operação Bandeirante). Mas, acima de tudo, é uma tentativa de pensar história em termos audiovisuais.

Espera-se imparcialidade de um documentário. O quão difícil ignorar as informações prévias sobre ele, um personagem vilanizado pela esquerda?

De maneira alguma esse projeto deve ser visto, considerado ou percebido como revanchista ou revisionista. A idéia foi sempre incentivar o maior número possível de opiniões sobre Boilesen. Isso foi feito através de dezenas de entrevistas e fartamente ilustrado com material audiovisual, incluindo jornais da tela, arquivos de televisão, filmes de ficção, documentários, arquivos oficiais e particulares, fotos, jornais e revistas, arquivos de áudio, documentos oficiais, músicas e outros materiais iconográficos. Não partimos de nenhum conceito predeterminado. Os diferentes pontos de vista foram articulados e respeitados.

Qual a função do uso de trechos de filmes (Batismo de sangue, de Helvécio Ratton, Pra frente, Brasil, de Roberto Farias) e leitura de uma peça (Sonata tropical) no documentário? Fornecer contexto (visual)?

Servem, fundamentalmente, para ilustrar idéias. Mas como também são produtos culturais/artísticos, fica talvez uma proposta de pensar esse tipo de material, considerado não histórico, como algo que também possa servir a quem trabalha com história e sua a representação audiovisual.

Apesar da gravidade do assunto abordado, a trilha sonora sugere ironia, zombaria. Por que essa escolha?

Ironia, talvez. Zombaria, não. O tipo de música utilizado era tremendamente popular na época. Para mim, a trilha musical também sugere tensão e causa um certo desconforto.

O senhor conseguiu a contribuição de ex-guerrilheiros, militares, pesquisadores e até do filho de Boilesen. Quem ofereceu mais resistência a falar sobre o executivo?

Todos que quiseram falar, falaram. Muitos falaram mas não quiseram gravar entrevistas. Outros simplesmente não quiseram falar. Sempre fomos muito transparentes em relação ao documentário. Explicamos a todos exatamente sobre que o documentário tratava. Com clareza e transparência. Não tivemos resistências. Alguns quiseram falar, outros não.

Em um determinado momento do filme, um psiquiatra dinamarquês comenta que Boilesen encontrou no Brasil uma cultura onde pudesse exercer seus impulsos mais primitivos (associados ao sadismo), o que não lhe era permitido num país como a Dinamarca. Isso não lhe pareceu ofensivo (como brasileiro)? Ou o senhor concorda com ele?

Essa é a opinião de alguém que conheceu e conviveu com Boilesen durante um período. Ebbe é psicólogo e refletiu muito sobre a personalidade de Boilesen que, parece indicar, tinha um quê de violência. Por outro lado, algumas pessoas falam de Boilesen com carinho. Aparentemente, cuidava da família e amava os filhos. É difícil para mim, já que não conheci Boilesen pessoalmente, concordar ou discordar da posição do Ebbe.

Não faz muito tempo, o Uruguai alterou a Lei de Anistia contra militares e a Argentina determinou que eles sejam julgados na justiça comum. O senhor espera que o documentário cause algum impacto na sociedade brasileira?

Para ser absolutamente sincero, não tenho ideia do tipo de impacto que esse documentário possa causar na sociedade brasileira. Espero que sirva de ponto de partida para que se estude mais profundamente esse tema. Para mim isso já seria uma grande vitória.

Que verdade sobre Boilesen o senhor conseguiu extrair depois de tantas pesquisas e entrevistas?

Como se diz, a verdade tem sempre três lados: a minha, a tua e a verdadeira. Eu acho que na medida em que o documentário oferece um leque de visões, opiniões, conceitos e memória sobre a época discutida, eu certamente espero que auxilie o espectador interessado em um entendimento maior sobre o período em questão.