Disputa por ouro em Serra Pelada deixa de fora Curió

Vasconcelo Quadros , Jornal do Brasil

BRASÍLIA - A guerra entre dirigentes das entidades que disputam o controle do minério no Sul do Pará não terá mais a participação do personagem que se tornou símbolo do maior garimpo a céu aberto do mundo. Depois de quase 30 anos exercendo o papel de pêndulo na correção de forças na região, o ex-prefeito de Curinópolis, Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, não tem mais influência sobre Serra Pelada, o garimpo que ele administrou com mãos de ferro e disciplina de caserna como interventor nomeado pelo ex-presidente João Figueiredo em maio de 1980.

Curió esteve à frente de quase todas as decisões relacionadas ao garimpo até março do ano passado, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a cassação de seu segundo mandato de prefeito do município criado em sua homenagem, Curionópolis ao qual o distrito de Serra Pelada e seus seis mil habitantes pertencem e o colocou num semi-ostracismo.

Ele participou de todas as reuniões que definiram o destino do garimpo. Curió foi decisivo nos acordos que resultarão na reabertura do garimpo diz um funcionário graduado do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Com um potencial estimado em mais de 20 toneladas de ouro avaliadas hoje em mais de R$ 1,2 bilhão , platina e minério, Serra Pelada será um garimpo mecanizado, cuja exploração deverá ficar a cargo da empresa canadense Colossus através de um contrato que substituirá o atual parceria de pesquisa feita com a Cooperativa dos Garimpeiros de Serra Pela (Comigasp), detentora da concessão de lavra.

Curió sai de cena para fazer o acerto de contas com o passado. É dele que deverão partir as revelações que podem levar o governo a localizar os 59 guerrilheiros desaparecidos no Araguaia entre 1972 e 1975, episódio que serviu como ponte para Curió estabelecer-se no garimpo, cinco anos depois. Antes, em 1979, comandou a operação militar que visou, sem sucesso, por fim ao nascente MST, na Encruzilhada Natalino (RS).

Em Serra Pelada a história de Curió se confunde com a tragédia e o Eldorado que o garimpo representou no seu auge, em 1983, ano em que morreram, num só desmoronamento, 19 garimpeiros e, ao mesmo tempo, foram retiradas do grande buraco onde se espremiam mais de 80 mil homens, 13,9 toneladas de ouro. No total, entre 1980 e 1992, quando foi fechado, Serra Pelada pariu cerca de 42 toneladas de ouro ou algo como US$ 1,3 bilhão em valores atuais.

Serra Pelada hoje escapou ao controle de Curió e de seu seguidores. Os 100 hectares recheados de minério valioso e a cava de mais de 100 metros de profundidade e superfície equivalente a cinco campos de futebol agora tapada por um lago que se originou do lençol freático e das chuvas torrenciais próprias da região é alvo de uma ferrenha disputa que já causou a morte de vários garimpeiros e sindicalistas, o último deles, Josimar Elizio Barbosa, ocorrido em maio do ano passado.

Funcionário exonerado em março deste ano do gabinete do senador licenciado e hoje ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, o jornalista e presidente da Associação dos Garimpeiros de Serra Pelada (Agasp), Antônio Carvalho Duarte, conhecido como Toni Duarte, diz que a campanha contra ele, acusado de se beneficiar do novo modelo de exploração da região, foi desencadeada por seu ex-aliado e agora adversário político, Raimundo Benigno Moreira, presidente do Sindicato dos Garimpeiros de Serra Pelada.

Ele desviou dinheiro liberado pelo governo ao sindicato e construiu uma granja de frangos no interior de São Paulo e uma auto-escola em Marabá acusa Toni Duarte que chama seu adversário de Raimundo Maligno.

Os dois travam uma ferrenha disputa pelo controle de parte do minério e dos 43 mil garimpeiros de Serra Pelada. Benigno fez circular em Brasília um dossiê em que acusa Toni Duarte de ter se juntado ao presidente da Comigasp, Gesse Simão, e a Colossus para tentar controlar a região. Diz que seu adversário recebe vantagens da mineradora, tenta fechar contratos suspeitos com o Ministério do Trabalho para treinar filhos de garimpeiros e, por fim, sugere que ele se aproveita da proximidade com Lobão.

Toni Duarte também tem munição contra o adversário. Diz que ele é um dos responsáveis pelo assassinato do garimpeiro Manoel Batista Oliveira, ocorrido em novembro do ano passado. Também debita na conta de Benigno uma suspeita de pedofilia e os prejuízos causados à Vale na interdição da Estrada de Ferro Carajás, no Sul do Pará, resultado de uma ação conjunta entre garimpeiros e sem-terra do MST, em 2007, e a invasão dos garimpeiros aos rejeitos da cava, esta semana. A ação foi repelida pela polícia.

O ministro Edson Lobão e a Colossus nada têm a ver com essa briga. Sou dirigente de entidade e formamos parceria diz. Procurado pelo Jornal do Brasil através de sua assessoria, o ministro não quis dar declarações.

Toni Duarte garante que uma das lutas da Agasp é levar para os garimpeiros os cerca de R$ 350 milhões referentes às sobras de ouro e paládio que estavam guardados na Caixa Econômica Federal quando o garimpo foi fechado. Diz que só em ouro são 912 quilos, retirados de 400 lotes, e que podem acabar ficando nas mãos de apenas 78 pessoas que reivindicam o cabedal na Justiça.