Luciana Abade, JB Online
BRASÍLIA - Cada vez mais comuns no Brasil, os protestos ambientalistas dividem opiniões. Há poucos dias, a Polícia Rodoviária Federal deteve 11 pessoas que davam apoio logístico a três ativistas do Greenpeace que faziam rapel na ponte Rio-Niterói para estender uma faixa de 50 metros de comprimento por 30 metros de altura. Os ambientalistas tentavam chamar a atenção dos líderes mundiais para que durante a reunião do G20, além da crise econômica, os problemas do clima do planeta fossem tratados. O protesto foi bombardeado por críticas por ter congestionado por algumas horas o trânsito na ponte e pela poluição visual que causou.
Dezenas de internautas postaram no blog da ONG suas posições. Enquanto alguns o classificaram de lindo , outros o consideraram completamente ridículo . Os mais raivosos postaram o desejo de que os ativistas ficassem na cadeia pelo resto de suas vidas . Para muitos outros, a crítica de que o protesto causou poluição pelo congestionamento é, no mínimo, absurda, uma vez que vem de pessoas que vão ao trabalho todos os dias de carro e, muitas vezes, com o ar-condicionado ligado.
Apesar das críticas negativas, os dirigentes das organizações não-governamentais ambientais garantem que a sociedade apóia e que as mobilizações são fundamentais para o desenvolvimento de uma consciência ecológica na sociedade. Mas as críticas costumam incomodar.
Protestar é um direito do cidadão. Não danificamos propriedades, não machucamos pessoas afirma o coordenador de campanha do Greenpeace, Sérgio Leitão. E temos que fazê-lo porque no Brasil a sociedade está anestesiada. A situação política do país, com os constantes escândalos de desvio do dinheiro público, é um exemplo. Apesar das denúncias, não existe ação mobilizadora para mudar a situação. Se a imprensa para de falar sobre o assunto, cai no esquecimento.
Foco distorcido
Leitão, no entanto, acredita que uma parcela considerável da mídia preocupa-se em criticar as manifestações e esquece de abordar o assunto que as motivam, gerando uma inversão que deve ser questionada . As manifestações democráticas são, na opinião do coordenador, são bem mais aceitas em países europeus e nos Estados Unidos. Fato que ele credita a alta escolaridade da população daquelas nações.
Muitos ainda ridicularizam os protestos lamenta Leitão. Ainda somos chamados de eco-chatos. Mas começaram a dar atenção agora a coisas que defendíamos desde a Eco 92.
Defensor da causa ambiental há 35 anos, o diretor de Mobilização da SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani, compartilha da mesma opinião:
O tema é muito novo para a sociedade. Mas é preciso sensibilizá-la. A aprovação da Lei da Mata Atlântica, assim como a recuperação do Rio Tietê, em São Paulo, foram consolidados, principalmente, pelas mobilizações diz Mantovani.
O ambientalista lembra, por exemplo, que o abaixo-assinado pela revitalização do Rio Tietê reuniu mais de um milhão de assinaturas e resultou na obra de saneamento que teve, no Brasil, o maior aporte financeiro da década de 90: US$ 2,6 bilhões.
Pensar que coisas dessa magnitude aconteceram por mobilização da sociedade civil emociona afirma Mantovani.
Assim como Leitão, o diretor acredita que depois de muito criticarem, as pessoas acabam abrindo os olhos para a causa ambiental. E cita como exemplo um episódio que viveu na década de 70, quando foi ridicularizado pela imprensa por um protesto que fez na represa de Billings, em São Paulo.
Quiseram passar a imagem que éramos loucos lembra Mantovani. As fotos mostravam uma bando de gente gritando que a água ia acabar e a imagem era de um mundo de água atrás. Passados 20 anos, o estado precisa agora de um US$ 1 bilhão para recuperar a represa.
Montavani faz questão de ressaltar que a SOS Mata Atlântica segue uma linha de mobilização educativa, fundamental para o controle social:
Os políticos não querem seus nomes ligados a destruição ambiental. Por isso essa pressão é fundamental observa.
Para esse controle social, os ambientalistas têm, atualmente, a internet como aliada. São centenas de abaixo-assinados que circulam na rede protestando contra a destruição ambiental. Muitos deles vão parar nas mesas dos gestores municipais e estaduais.
Em 35 anos de ativismo, nunca fui preso. É uma frustração ironiza Mantovani. Abraçava árvore, entrava na frente de trator. Mas não teve jeito.