Jornal do Brasil

País - Eleições 2018

Candidatos atacam Bolsonaro e Haddad na esperança de se tornar uma terceira via nas opções do eleitorado

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Eleitores indecisos ou que podem mudar de candidato foram o principal alvo dos presidenciáveis que participaram do último debate na TV antes do primeiro turno, realizado ontem pela Rede Globo, todos de olho em se tornar uma alternativa a Jair Bolsonaro (PSL), ausente do programa, ou Fernando Haddad (PT). Primeiro a fazer perguntas, Ciro Gomes (PDT), relembrou a eleição de Dilma Rousseff e Aécio Neves, em 2014, numa “disputa assentada no ódio. O presidente eleito nessa mesma circunstância vai conseguir governar?”

Primeiro bloco

Com tema livre, cada candidato escolheu para quem iria dirigir a pergunta. Ciro Gomes perguntou para Marina Silva se o presidente eleito será alvo de novo impeachment. Marina responde que, "se permanecer essa polarização não haverá condições de governar o Brasil". "O voto de uma pessoa pode ser usado para melhorar, sobretudo, o sistema político, quer está degradado", disse a presidenciável da Rede. Ela também trabalhou com o "medo e do ódio" para atacar Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, além de se posicionar como uma alternativa.

"As palavras de Marina são sábias e o brasileiro que está ouvindo que ainda não decidiu seu voto, deve ouvi-las. O que está em jogo aqui não é paixão partidária nem o ódio, mas milhões de desempregados", disse Ciro, para quem a eleição deste ano caminha para repetir a trajetória de ódio que marcou o período após a eleição de 2014, que culminou com o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) e a chegada ao poder do vice, Michel Temer (MDB).

Geraldo Alckmin escolheu Fernando Haddad, a quem perguntou se ele, caso eleito, insistiria no jeito do PT de governar.

"Enquanto FHC governava, a carga tributária aumentou de 26% para 32% e a dívida pública dobrou neste período. A carga tributária, inclusive, aumentou no 'lombo do trabalhador'. O que o candidato não reconhece é que, depois que seu partido foi derrotado em 2014, o PSDB se associou ao Temer para sabotar o governo aprovando as chamadas pautas-bomba. Isso levou o país à crise, e não as políticas do PT", respondeu o candidato petista.

"O PT terceiriza responsabilidade. O PT votou contra o Plano Real. O PT sempre votou a favor do corporativismo. Quem quebrou o governo foi o PT, foi a Dilma. Ganharam a eleição dando golpe no eleitor. Não acredito que, nem PT, nem Bolsonaro vão tirar o Brasil da crise", rebateu o tucano.

Alvaro Dias protagonizou momento singular. Ele estourou seu tempo para formular uma pergunta para Henrique Meirelles. Aproveitou os segundos para atacar o ex-presidente Lula. Hoje eu queria fazer uma pergunta para o candidato do PT, mas ele está preso em Curitiba", disse.

Sem ser questionado, Meirelles aproveitou para reforçar a ideia de que a polarização é nociva para a democracia e que o debate carece de propostas concretas por conta das brigas entre os candidatos.

Em sua tréplica, Alvaro voltou a disparar contra Lula e, por conseguinte, Fernando Haddad: "Trouxe a pergunta por escrito [num bilhete] para que o Haddad entregue para o candidato que está preso em Curitiba, já que ele o visita todas as segundas", disse. A declaração gerou algumas risadas da plateia.

O primeiro embate do encontro foi entre Guilherme Boulos e Geraldo Alckmin. O psolista questionou o motivo de o PSDB ter aprovado, "ao lado de Bolsonaro e Temer", a reforma trabalhista, "que retirou direitos dos trabalhadores".

Em sua resposta, o tucano frisou que "Boulos, assim como o PT, defende o corporativismo". Na tréplica, Boulos foi enfático: "Nós estamos mesmo em lados opostos. Você é da turma dos privilégios e eu sou da turma dos direitos", rebateu. "Nós temos coragem para enfrentar esses privilégios e revogar essa reforma trabalhista absurda", completou.

"Ele [Boulos] não citou um direito [trabalhista] que foi retirado. A gente precisa falar as coisas verdadeiras. O país não pode ter uma lei da década de 1980", arrematou Alckmin, que ainda acrescentou que Michel Temer é "responsabilidade do PT".

Henrique Meirelles e Ciro fizeram mais uma dobradinha azeitada do debate. O ex-ministro da fazenda perguntou: "Há quase 30 anos, o Brasil escolheu Collor presidente, que se intitulava salvador da pátria. Por que essa história de salvador da pátria sempre dá errado e termina em desastre?"

Ciro, em suma, respondeu: "Essa é a hora de o brasileiro aprender a votar em projeto, em ideia. Não existe salvador da pátria". Ciro deixou claro que não se pode votar em alguém que se vende como "salvador da pátria", fazendo alusão a Jair Bolsonaro.

Em nova tabelinha, desta vez à esquerda, Fernando Haddad perguntou a Boulos o que o último achava das declarações do general Hamilton Mourão, vice de Jair Bolsonaro, que se referiu ao 13º e ao adicional de férias como "jabuticabas". O petista também lembrou que o capitão da reserva nunca fez "nada" nos seus 28 anos como parlamentar.

Boulos destacou que "essa turma do ódio, a turma do Bolsonaro, é também a turma da destruição dos direitos trabalhistas".

Ao fim do primeiro bloco, Marina Silva e Alvaro Dias também fizeram dobradinha. Os candidatos voltaram a reforçar a questão da polarização entre Haddad e Bolsonaro e que há de se ter uma terceira via na eleição presidencial.

Segundo bloco

Em sua segunda pergunta a Geraldo Alckmin, o candidato do PSOL, Guilherme Boulos, voltou a relacioná-lo com o governo do presidente Michel Temer ao abordar o presidenciável sobre custo-Brasil. O psolista questionou o conceito lembrando que existem muitos incentivos fiscais a grandes empresários concedidos pelo governo federal e afirmou que apenas o governo de São Paulo concedeu R$ 15 bilhões em "bolsa-empresário" no Estado, mais do que se gasta com as universidades estaduais.

Em sua resposta, Alckmin reiterou que a reforma trabalhista não retira direitos do trabalhador e disse que vai trabalhar pela reforma tributária, que pode ajudar a mitigar o problema do custo-Brasil e lembrou que seu governo em São Paulo teve superávit fiscal investindo em obras e até reduzindo tributos sobre produtos como o ICMS do pão, macarrão e bolachas sem recheio. O tucano disse ainda que vai caminhar com novas estatizações e lembrou que apenas o PT criou 43 estatais.

"Vou trabalhar para não eleger nem o PT nem o Bolsonaro. Nenhum dos dois vai resolver a crise ou o custo-Brasil", disse Alckmin.

Alvaro Dias e Fernando Haddad (PT) protagonizaram o debate mais ríspido até o momento do debate da TV Globo. O ex-governador do Paraná brincou que quer entregar, através do ex-prefeito, uma pergunta ao "verdadeiro candidato do PT", o ex-presidente Lula. Dias disse ainda que o partido roubou dinheiro público utilizando, para isso, estatais como a Petrobras.

Em sua resposta, o Haddad pediu "mais compostura" a Dias, que tem extrapolado os tempos destinados a suas falas no programa, e fez um discurso voltado à economia. O petista disse que pretende retomar o crescimento econômico diminuindo o fardo sobre os mais pobres e incentivando o consumo. Haddad prometeu ainda "enquadrar os bancos, que cobram juros extorsivos".

Provocado novamente por Dias em sua réplica, Haddad disse ainda que o valor de mercado da Petrobras passou US$ 15 bilhões para US$ 80 bilhões durante a gestão petista. "Vou retomar o petróleo da Petrobras para investir em saúde e educação. Você votou uma lei para alienar aos americanos o que é do brasileiro", retrucou o petista.

Os candidatos Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT) aproveitaram uma pergunta sobre meio ambiente para fazer uma "parceria" e tecer críticas a Jair Bolsonaro (PSL), que não participou do debate por orientação médica.

Haddad, que comentava sobre desenvolvimento sustentável, disse que o capitão reformado do Exército é apoiado por "ruralistas arcaicos", que estão querendo retroceder com o Brasil."

Ciro, além de criticar o candidato do PSL, utilizou a deixa para criticar a polarização que o PT ajudou a introduzir no País. Para ele, o partido perdeu a condição política de reunir a população brasileira. "Boas ideias necessitam de ambiente político para enfrentar o fascismo e a radicalização estúpida que Bolsonaro representa", afirmou.

Depois de dizer que Henrique Meirelles era cúmplice de corrupção, o emedebista obteve direito de resposta. "O candidato Alvaro Dias está bastante confuso, inclusive sobre o que é ficha limpa", disse o ex-ministro.

Terceiro bloco

Marina Silva abriu o novo bloco de tema livre. Ela disse que faria pergunta sobre rejeição para Jair Bolsonaro, mas este "amarelou" e não foi ao debate. No entanto, voltou armas para o candidato do PT, Fernando Haddad. Marina também questionou se Haddad jamais faria autocrítica dos anos de administração petista.

"É lamentável que você não reconheça nenhum dos erros. Você reitera todos os erros cometidos", disse a candidata da Rede. "A gente tem que pensar em um projeto de país", completou.

"Você não está sendo fiel à verdade", respondeu Haddad. "Dou entrevista reconhecendo erros. Sei o que foram os 12 anos de governo do PT", completou sem mencionar os dois últimos anos da administração Dilma Rousseff. O petista disse ainda ter "uma vida pública sem nenhum reparo".

Macaque in the trees
Debate entre presidenciáveis na TV Globo (Foto: Roberto Herrera/ Jornal do Brasil)

Henrique Meirelles perguntou para Ciro: "São 7 milhões de crianças estão em idade de ir para creche e não podem ir pois não tem creche perto da casa de família. A Dilma prometeu entregar seis mil creches. Entregou 80. Como vamos resolver esse problema das creches para as crianças carentes do Brasil?"

Ciro respondeu: "Quando governei o Ceará, consegui com creches comunitárias um programa parecido com esse. Conseguir abrir uma creche a cada dois dias de governo. Consegui ir na ONU receber o prêmio mundial de combate à mortalidade infantil. Se o Ceará pode fazer, me dê uma oportunidade para fazer em todo o País."

Apesar de se vender como 'candidato independente', Henrique Meirelles é o único representante no debate que fez parte do governo de Michel Temer. Guilherme Boulos aproveitou a oportunidade para questionar o ex-ministro da Fazenda o que ele faria para combater a corrupção, mesmo fazendo parte da "turma do Temer".

Meirelles ironizou: "Em primeiro lugar, trabalho. Sei que isso pode parecer estranho para você". Boulos rebateu dizendo que estranho era o ex-ministro dizer que trabalhava. "Banqueiro não trabalha", disparou. O psolista também aproveitou para voltar a atacar Jair Bolsonaro. Disse que o candidato do PSL "comprou mais imóvel do que aprovou projeto [enquanto parlamentar]" e novamente citou as falas do general Mourão sobre a possível extinção de direitos trabalhistas num eventual governo Bolsonaro.

O capitão da reserva também foi alvo de ataques de Ciro Gomes. O pedetista perguntou para Henrique Meirelles se ele achava correta a atitude de Bolsonaro, que estava "fugindo do debate".

"O candidato deve estar sujeito a críticas, ataques, discordâncias, até ofensas. O eleitor merece respeito", respondeu o ex-ministro de Temer. Ciro atacou novamente a campanha de Bolsonaro e a sua cúpula. Disse que Paulo Guedes, guru econômico do capitão, "vai diminuir impostos dos ricos e aumentar dos pobres e chegou a propor a CPMF". O pedetista também classificou general Mourão como uma pessoa "tosca". "Me assusta uma equipe de três pessoas brigando às vésperas da eleição", completou.

Os candidatos Alvaro Dias e Geraldo Alckmin se juntaram para criticar o PT e Jair Bolsonaro (PSL). O senador, que fez a pergunta, entoou novamente o bordão de que "na Olimpíada da mentira, o PT é medalha de ouro" e questionou o tucano sobre como "acabar com isso que está aí".

Em resposta, o ex-governador de São Paulo disse que o Brasil já passou por uma experiência de governo petista, com "13 milhões de desempregados, criminalidade na altura e contas públicas com problema". Por outro lado, Alckmin disse que o caminho não é o radicalismo de direita, que não tem "sensibilidade social", e elencou propostas que partiram da campanha do PSL, como não direcionar mais recursos para a saúde, acabar com o 13º e recriar a CPMF.

"O Brasil já tem problema demais. Não podemos ter presidente para ser mais um problema", disse o tucano. "O Brasil só vai mudar com reformas, senão vai ser o mesmo marasmo".

Quarto bloco

Na primeira pergunta deste bloco, Haddad teceu comentários sobre a reforma da Previdência da administração Temer. Ciro perguntou: "Ela não diferencia os brasileiros. Tem Estados em que brasilerios tem 60 anos de vida, outros que o Brasil tem 60 anos de vida. Qual sua visão sobre a proposta da reforma da Previdência?"

"Qualquer mexida na Previdência que não levar em conta que somos diferentes será injusta. Trabalhador da classe pobre não pagará a conta", respondeu o presidenciável do Partido dos Trabalhadores.

Ciro perguntou sobre segurança pública para Henrique Meirelles. "Quase todos negros, quase todos filhos da periferia. Qual a sua proposta para enfrentar isso?"

" Estado tem que comprar equipamento, contratar policiais. Temos estados sem contratar policiais há 10 anos ou mais. É preciso ter uma política econômica para o Estado crescer e ter condições de comprar equipamento e armamento", respondeu Meirelles. Ciro citou na tréplica a PEC do teto de gastos. "Se quisermos estimular a segurança pública, é preciso revogar a Emenda 95". Ex-ministro da Fazenda de Temer, o emedebista se esquivou.

Guilherme Boulos perguntou sobre saneamento básico para Geraldo Alckmin: "Esse é um drama que afeta milhões de pessoas que tem uma vala no fundo de sua casa. Isso fez até ressurgir epidemias no país". O candidato pergunta sobre privatizações na área de saneamento. "Saneamento é um negócio ou direito?"

"As empresas de saneamento pagam PIS, PASEP e Cofins. Nós vamos devolver esse dinheiro para investimento em água e esgoto. Se tiver um bom marco regulatório, podemos trazer empresas para investir mais", respondeu o candidato tucano.

Guilherme Boulos aproveitou pergunta sobre impostos, feita por Marina Silva, para criticar propostas de Jair Bolsonaro. "O governo é um Robin Wood ao contrário. Ele tira dos mais pobres e dá aos mais ricos", diz o psolista. Boulos também tece comentário incisivo sobre o agronegócio. "Nós vamos fazer uma reforma agrária agroecológica. O agronegócio mata", disparou.

Alvaro Dias pergunta sobre corrupção para Fernando Haddad. A plateia riu. "Sinto que há uma conspiração contra a Operação Lava Jato. Nesta eleição vejo conspiradores com medidas que podem ser adotadas contra a operação. Certamente temos que valorizá-la. No seu governo, o que ocorrerá com a Operação Lava Jato?"

"Sempre escolhemos o mais preparado para ser o Procurador-Geral da República. O que é errado é partidarizar, ter um juiz que incide no processo para beneficiar amigos", respondeu o candidato petista. Alvaro Dias aproveitou, em sua tréplica, para dizer que aquelas eram "palavras soltas ao vento".

Considerações finais

Geraldo Alckmin diz que a polarização "não vai levar a nada. "Agora que vai decidir. 20% dos votos se decidem no último dia".

Alvaro Dias diz estar de "consciência tranquila" e que "combateu a corrupção" e "chegou a prender pessoas enquanto governador. "Acabei com privilégios. Acabei com meus próprios privilégios".

Henrique Meirelles: "É momento de comparar e decidir o Brasil dos próximos anos" e destaca experiência no governo. "Ódio não gera emprego. O que o Brasil precisa agora é de confiança, que traz renda, emprego."

Fernando Haddad: "É muito ruim um brasileiro acordar e não ter um destino. Aprendi com Lula que é possível oferecer essa oportunidade para todos. As minhas obsessões durante os quatro anos de mandato serão trabalho e educação para todos."

Marina Silva afirmou não ter "caído na tentação das falsas promessas" e afirma ser uma "pacifista". "Estou aqui porque sou uma pacificadora, que é muitas vezes mal compreendida. Esse País não tá precisando de força física. Precisa de força moral, de respeito, com seu dinheiro, com a Constituição, com a diversidade."

Guilherme Boulos pediu para que o eleitor "não vote com ódio". "Na sua urna só vai estar você, sua consciência e seus sonhos. Vote com esperança. Não vote com ódio. Não vote com medo."

(Com Estadão conteúdo)



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