Palavra é problema

De volta à casa, depois da temporada hospitalar, pode ser que o presidente Bolsonaro queira ouvir, de amigos e assessores bem intencionados, o que consideram como desafio mais sensível que se revela ao governo, nestas primeiras semanas. Certamente, havendo a convocação, será apresentada uma gama de dificuldades diversas; porque os problemas, além de serem muitos, têm a propriedade de se agravarem. Em relação ao momento que vive o Planalto, talvez alguma preocupação deva de fixar nos desencontros da arte da comunicação, ainda não dominada em Brasília. Um de seus antecessores mais recentes, que na mesma cadeira esteve por duas vezes, Fernando Henrique, já reconheceu que, no começo, o atual, como qualquer governo, pode se confundir. Mas há um desafio - entende-se por palavra imprópria, inoportuna ou não bem dita - que tem característica para agravar, por disseminar dúvidas e discórdias; e costuma contaminar a confiança nas bases do próprio poder.

Conhecidas as consequências, nos 45 primeiros dias de sua gestão, o presidente Bolsonaro pode se sentir no direito de recomendar aos seus ministros que economizem as palavras. Economizando-as, avaliem, cuidadosos, a capacidade de elas provocarem dissenções e protestos populares. Nem se dispensaria recomendação para que as atenções sejam observadas, até mesmo quando os temas referidos pelos porta-vozes não deixarem dúvidas quanto à verdade que eles retratam. Até para retratar o real, aquilo que não comporta dúvidas, as palavras têm de adotar precauções quando entram no terreno da interpretação dos interlocutores. Inúmeras vezes se tem dito isso.

Nas salas que cercam o gabinete presidencial, havendo campeonato de impulsividade verbal há que se conferir justo destaque aos ministros da Educação e da Mulher, que, exatamente por terem um estilo de discurso polêmico, são constantemente provocados. Já são festejados por não se vexarem a dizer coisas sensacionais. A ministra, que vem de mostras anteriores, acaba de enriquecer seu repertório, sugerindo que deixem o Brasil os pais de meninas em risco de abusos sexuais, sem dizer a esses mesmos pais, objetivamente, o que o governo dela pode e deve fazer por eles e seus filhos. Estima-se que a exótica receita não prospere para outros setores governamentais. Imagine-se que, numa acesso de destempero, o ministro Moro, por exemplo, recomendasse que fossem para o Exterior os cariocas que desejam se ver livres da violência urbana

Com mais alguma contribuição desse gênero, ela poderá ser chamada a explicar-se na Câmara dos Deputados, como convocado já está o colega da Educação, que dela não se distancia quando está em questão questionar o Executivo pelas excentricidades. Não há antecedente de um governo principiante conviver com esse problema, e ministros serem cobrados a dar explicações. Em outros tempos, tinham a virtude de sempre carregar na maleta a economia no dizer, e, dizendo, ater-se ao fundamental e ao necessário.

O presidente caminha para completar o segundo mês de seu mandato, tempo que ainda não autoriza maiores definições, mas suficiente para que - pode parecer redundante - chame às falas o discurso dos que em seu nome falam à população. Um alinhamento mínimo revelaria prudência, mais ainda quando chegar o momento do diálogo produtivo com os parlamentares para a tramitação das mensagens importantes, a reclamar seriedade e unidade de pensamentos e palavras. Vencendo a fase da convalescença, ele devia cuidar, entre os problemas a desafiá-lo, da conduta verbal dos que se pronunciam em seu nome.