A complexidade do desemprego

Os problemas sociais, assim como suas soluções, jamais caminham sós; agrupam-se, estendem-se, criam fileiras e acabam ganhando uma intricada capilaridade. O que tem feito pensar assim, e certamente também tirando o sono de assessores do governo na área do trabalho, é o grande desafio do desemprego, que, mesmo em queda, não consegue se desatar das implicações negativas, com as quais vêm convivendo milhões de brasileiros. Uma taxa de desocupação formal cai de 17,7% para 17,3% , segundo os dados oficiais, mas os efeitos benéficos não se fazem sentir. As filas de caça às vagas continuam quilométricas em todo o país; principalmente nos grandes centros empresariais, o que é perfeitamente compreensível.

A partir de meados do ano passado, se o quadro melhorou um pouco, sobretudo nos últimos meses, cresceu o volume da informalidade no mercado de trabalho. Mais de 600 mil pessoas tentam sobreviver com um ganho mínimo, sem poderem portar a chamada “carteira assinada”. Mas como se explica o fenômeno?, se os índices de desemprego vinham desacelerando, para depois cair um pouco, ao mesmo tempo em que a produção industrial retomava a respiração. O que estaria, então, emperrando uma redução mais expressiva nos números do desemprego?, quando tudo faz crer que instrumentos eficazes estavam sendo operacionalizados, desde as últimas semanas do governo Temer.

Há uma explicação, não para ser adotada de imediato, mas considerada para estudos e conclusões objetivas: tudo o que até agora se cuidou de fazer para enfrentar a ausência de espaços na absorção da mão de obra foram medidas técnicas; insuficientes, quando se sabe, e como a experiência recomenda, devem elas serem acompanhadas de outras tantas, mas de natureza política. Parece estar claro, pois o setor produtivo privado, o único que tem como empregar em larga escala, ainda não se convenceu de que o país retomará seu ritmo de crescimento, como tem prometido o governo. O que temos é expectativa, enquanto a política econômica passa pela fase de formatação, sem detalhamentos mais claros.

Chegado a esse quadro, conclui-se que, no momento atual, o que melhor se pode prescrever para baixar a febre da desocupação social é apressar e detalhar junto aos produtores a reforma econômica prometida, de forma que as indústrias de transformação e outros setores de criação de riquezas possam se sentir suficientemente seguros, pisando em terreno firme para investir com tranquilidade. E o próprio governo tem de se interessar rapidamente, porque, com produção limitada e a grande desocupação, também ele perde nos impostos que não pode recolher, além das contribuições que deixam de entrar para os cofres da Previdência, esta cada vez mais empobrecida.

O excesso de cuidados dos empresários estaria dificultando melhores índices de produção, e com ela arregimentar os trabalhadores, afora dúvidas em relação aos procedimentos para terceirização, uma alternativa importante na redução de custos. Mas as lideranças gostariam de sustentar seus planos em cima de dados consolidados; até porque o direito de se fazer opção por terceirizar é matéria amplamente contestada por sindicatos e partidos políticos.

Percebe-se que a crise da empregabilidade, ao infelicitar milhões de brasileiros, não se agrava e nem se solucionaria por si mesma. Na verdade, cerca-se de complicadores, que a afetam em diferentes formas e intensidades. O que se espera é que o governo decida enfrentá-la, sabendo que os tentáculos e os gargalos são vários e complicados.