Clima é o desafio

A desejável melhoria das condições do clima, se não agora, pelo menos a partir da terceira década do século, é tema que pode ter, como seu primeiro problema, o fato de permanecer restrito ao clube dos governantes dos principais países e aos meios científicos, estes também geograficamente concentrados. É o que leva muitos a achar que se trata de assunto para círculos pedantes e pesquisadores diletantes, sem que as populações se empenhem diretamente na luta pela adoção de medidas ambientalistas corajosas, ainda que ferindo altos interesses econômicos. Os povos estão sentindo mais calor, testemunham as manifestações da natureza a reclamar um basta nas agressões, veem as geleias polares se desfazendo, as águas que faltam para muitos viverem é a mesma que afoga e mata milhares; mas nem por isso o cidadão comum entra frontalmente na discussão para fazer mudar o rumo e evitar o desastre futuro. Limita-se a ler nos jornais as reuniões anuais dos governantes, que sempre repetem o que não farão. Raramente pequenos grupos vão às ruas para reivindicar e protestar.

Parece indiscutível, contudo, que depende do envolvimento direto das massas a possibilidade de o mundo caminhar para um futuro menos sombrio. O que só acontecerá à medida que os problemas se avolumarem e, ao mesmo tempo, as populações sejam instruídas, didaticamente, a enfrentar os desastres que estão se avizinhando. Nunca, em tempo algum, tantos terão de ser instruídos e informados, para a preservação de qualidades mínimas de vida, sob bom clima.

Ainda na semana passada, cientistas credenciados advertiram populações que vivem em orlas marítimas sobre o contínuo aquecimento das águas dos oceanos. O que significa isso? Significa que é possível que as ondas se projetem em avanços bem mais perigosos. Já se vê: elas começam a passar por cima das praias e invadem prédios litorâneos. Comprova-se que, à medida em que se aquecem, tornam-se mais violentas; como atestam alguns países onde o fenômeno tem ocorrido, felizmente ainda sem regularidade.

O desmatamento, que muitos gostam de localizar apenas na Amazônia, universalizou-se de tal forma, que são raros os países que não têm concorrido para substituir as paisagens verdes pelas manchas desérticas. É um caso cada dia mais instigante, pois o desenvolvimento industrial no setor madeireiro já conseguiu produzir sucedâneos de qualidade, mais do que suficientes para que sejam poupadas as árvores. Estas são a segunda a merecer atenções conservacionistas, só superadas pelas águas, que delas também dependem. Quanto às responsabilidades brasileiras, não podem se restringir à Amazônia, embora se reconheça tratar-se de nosso mais caro patrimônio ambiental. Na verdade, são muitas as outras reservas a reclamar atenções.

Fala-se, com propriedade, que um dos enfoques governamentais deve contemplar a área educacional, onde se fixaria prioridade para orientar os meninos, depois os adolescentes, num primeiro passo para garantir gerações mais conscientes em relação à defesa dos recursos naturais. Quando se insiste, com toda razão, nos brasileiros que agora estão em fase de formação, é porque a sociedade de hoje não foi instruída para se preocupar com os enormes recursos que a natureza achou por bem deixar aqui. Dos adultos de hoje não se pedia que a compreendessem; mas, inopinadamente, o que a eles foi ensinado é que tudo aqui, a começar pelo clima, é fruto da generosidade de Deus; portanto, inesgotável.

Hoje, sabemos que não é bem assim. O Criador também tem duas mãos: afaga com uma e castiga com a outra.