Brasil para o mundo

Poucos governos terão iniciado sua jornada sob expectativas tão acentuadas, como vai ocorrer com o do ex-deputado Jair Bolsonaro, a inaugurar-se no primeiro dia de janeiro; além das ansiedades gerais, quando se trata de iniciativas governamentais que o novo presidente promete rechear de inovações. Situações mais tensas certamente houve em mudanças de comando no passado, quando movimentos golpistas tentaram impedir que Juscelino e João Goulart chegassem à presidência. Não é o caso presente, porque ele assumirá com as instituições preservadas e a vontade do eleitorado plenamente acatada.

Se expectativas há em quase todos os setores da vida nacional confiados à equipe iniciante, uma que não perde em importância, até porque desperta o interesse de governos e instituições de outros países, refere-se à conduta política a ser adotada pelo ministério das Relações Exteriores. A antecipação das atenções estrangeiras certamente se deveu ao fato de Bolsonaro haver proposto algumas ideias que lhe parecem de toda conveniência, embora muita coisa que um presidente deseja, pessoalmente, não seja possível no momento em que chega ao poder. Entra-se num labirinto onde muitas vezes não se associam o querer e o poder. Mas, sem dispensar essa ressalva, ofereceu-se logo cuidado em torno de certas questões, uma carga pesada que já garante muito trabalho ao futuro chanceler.

Estamos, de imediato, chamados a solucionar pendências com a comunidade europeia, e com o presidente Macron em particular, graças a diretrizes, ainda não bem definidas, que o Brasil poderá propor ao Mercosul. Interessante que, num primeiro lance, semanas passadas, porta-vozes do futuro governo descartavam atenções especiais ao organismo gestor da política de mercado continental; mas os europeus não estão acreditando muito nisso, e sugerem maiores esclarecimentos, principalmente no que diz respeito a discrepâncias nos volumes de compras e exportações. Querem equilíbrio.

Nas relações externas, outra particularidade, também delicada por envolver altos interesses da balança comercial, é a abertura de um flanco divergente e desnecessário nas relações comerciais com a China, que se torna nossa principal parceira, quando se trata de comparar o volume de negócios. O governo brasileiro assumiria conduta descuidada se esfriasse relações com os chineses, sob a intenção de parecer simpático aos americanos; porque, é prudente levar em conta que Washington dispõe de recursos e poderes para medir forças com o grande concorrente. Coisa que nós não temos.

O ministro prepara-se também para caminhar sobre ovos em outro desafio, criado pelo reconhecimento de Jerusalém como capital do estado de Israel; porém, essa é uma opção que o Brasil não faz isoladamente, e terá companhias para dividir o rancor dos árabes. Mas não faltarão consequências.

Interessante observar que, em relação aos nossos presidentes, principalmente os três últimos, prosperavam constantes críticas em relação a um certo acanhamento, um excessivo recato da política externa brasileira. Cobrava-se mais empenho, maior participação nos grandes debates e questões internacionais, tendo ou não em relação a eles o interesse direto do país. Num mundo de povos cada vez mais interligados e interdependentes, seria aconselhável - afirmavam os críticos - uma atuação ostensiva. Pois, dá-se que, pelas observações do recém-diplomado Bolsonaro ou pela voz e pontos de vista de seus assessores, ocorreu o oposto e inusitado: antes mesmo de assumirem, lançaram propostas em questões delicadas. Se nos governos passados era a escassez, agora é o excesso; ou, pelo menos fora da hora.