As guerras e suas lições

Mais expressivas do que se esperava, mais abrangentes quanto à sua dimensão histórica, as celebrações pela passagem do centenário do armistício da Primeira Guerra Mundial deixaram, como detalhe singular, a solene advertência de que é tempo de a sociedade humana repensar as ideias que instruem os tradicionais nacionalismo e populismo, inúmeras vezes instrumentalizados para agredir a democracia e abafar os princípios da solidariedade entre os povos. O presidente francês, monsieur Emmanuel Macron, ao anfitrionar, em Paris, as representações estrangeiras, foi o intérprete desse sentimento, no memorável evento que colocou, lado a lado, as grandes lideranças do mundo contemporâneo. Em seu discurso, lembrou, sem rodeios, que dos conturbados dias daqueles 1914-1918, grandes lições tornaram-se imperecíveis. Não morrerem, exatamente para serem um permanente apelo à convivência. Em suma, que não mais se sacrifiquem, estupidamente, milhões de vidas.

Quando falou dos riscos da fraternidade universal, nada ficou mais claro do que a maldição do populismo e do nacionalismo exacerbados ter de ser superada e corrigida, em primeiro lugar, pelas grandes potências, que, em nome de seus interesses, não hesitam em sufocar os menores, em alguns casos sob o escândalo de regimes neoescravistas. E estavam ali, na capital francesa, sob a majestade do Arco do Triunfo, homens e mulheres que têm o poder de fazer o mundo melhor ou pior. Entre eles, sisudo, como sempre, o presidente Trump, há tempos criticado por sentenciar que, antes de tudo e sobre todos, está a sua América; não necessariamente a América de nós outros.

O populismo, que o presidente Macron vê com reservas, reclama correções em seu curso, principalmente no que tange à enganação com que tem sido praticado em larga escala nos países sofridos e despreparados; e exatamente por isso, acessíveis às ondas dos salvadores da pátria, notáveis produtores de frustrações que a História guarda diligentemente.

Outra experiência ensinada pela Primeira Guerra Mundial, que não pode sofrer a injustiça de estar condenada a plano inferior, é a humilhação a que sempre ficam submetidos os povos vencidos. No caso, esfolou-se de tal forma o orgulho da Alemanha derrotada, que, a bem dizer, o superficial armistício de 1918 haveria de deixar escancaradas as portas para a Segunda Guerra, a louca vingança germânica, em péssima hora confiada ao chanceler Hitler, com consequências ainda mais danosas, das quais sobrevivem resquícios que ainda hoje respingam nas relações europeias. Mas que não passe despercebido, na triste crônica das retaliações, que o que Berlim sofreu em 1945 não foi muito diferente da humilhação que pouco antes havia imposto a Paris, na antecedente guerra franco-prussiana. Chumbo trocado dói, e como!

Os conflitos, como esse centenário de triste memória, tornam-se serviçais da vingança e da humilhação, que, se horrorizam na convivência das pessoas, muito mais em se tratando de relações entre povos. Agora mesmo, seja lembrado de passagem, o agravamento dos problemas no Oriente Médio, pois, além das intermináveis divergências entre árabes e judeus, permanece à vista o estopim capaz de arrastar outros países às unhas da interminável disputa. O fato de a consciência mundial exorcizar circunstâncias capazes de gerar maiores embates, não sugere descuido das lideranças. Macron tem razão: chega de desastres; que as guerras fiquem no passado, e, com base nas lições, continuar trabalhando por um mundo melhor.