Caminhos para a ciência

Como é comum acontecer em vésperas de se proclamar o novo presidente da República, avolumam-se indagações sobre os muitos problemas que o aguardam, sendo que, para tanto, pouco importa sua procedência partidária ou ideológica. As dificuldades, muitas delas desafiadoras, não fazem distinção; pode-se dizer, não alimentam empatias ou reservas a quem quer que vá desembarcar em Brasília nas primeiras horas do ano. Alguns dos desafios vão se antepor aos novos titulares do Executivo e Legislativo, logo dependentes de sólida convivência que os poderes puderem construir.

Nesse caso, com justificada expectativa, há que situar uma revisão do pouco, pouquíssimo que os últimos governos têm feito no campo da pesquisa científica. Quando o Brasil mostra no exterior sua performance nessa área, os exemplos são modestos, com raras citações, ainda que notáveis. Quase sempre referências muito antigas, relativas a Osvaldo Cruz, Carlos Chagas, Santos Dumont e César Lattes, entre os gênios brasileiros reconhecidos além-fronteiras. Além desses, nossos novos talentos são imensos.

A campanha eleitoral que está em curso não ofereceu muito para que a esse respeito se conhecesse o pensamento dos candidatos, a não ser pelo sopro de citações passageiras, sem profundidade. Talvez nem sejam totalmente culpados, pois o tema não lhes foi cobrado pelos marqueteiros e entrevistadores. Mas é evidente que o eleito, a ser conhecido dentro de oito dias, terá de se envolver e se dedicar, a menos que consinta em ver seu mandato pobre de avanços num setor que a vida contemporânea dos cidadãos e as relações entre os povos não admitem estar em segundo plano nas cogitações governamentais.

Fato constrangedor é que tem sido dada pelos governos uma escassa importância ao seu papel no trato da matéria, o que, aliás, logo se sente na amplitude das tarefas da pasta encarregada: Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação. Fala-se na necessidade de se reduzir o número de ministérios ou fusão de alguns de áreas compatíveis, mas há que se cobrar algum critério, com atribuições melhor definidas.

O governo que principia, se quiser, poderá avaliar algumas experiências bem-sucedidas, tanto privadas como oficiais, em sua maioria fruto de poucos passos experimentais de um modelo que deve estar inspirado no entrosamento e no espírito de colaboração, sendo a Embrapa geralmente citada nessa primeira linha. As parcerias precisam ser ampliadas e aprofundadas, com vista às iniciativas que levem a bons resultados. Esse entendimento está consagrado nos países que comandam o engenho e a criatividade e se tornaram polos do saber. Basta conferir a nacionalidade dos ganhadores de todas as versões anuais do Prêmio Nobel. A láurea sempre vai para os países em que governo e pesquisas privadas andam de mãos dadas e primam pelo espírito de colaboração.

Para caminhar nesse sentido, Bolsonaro ou Haddad precisará cuidar para que os avanços na produção científica e tecnológica não expulsem o trabalho humano, mas que o acolham e o estimulem. Não seguir o mau exemplo dos bancos, que empregam o progresso para expulsar. Para cada caixa eletrônico instalado são demitidos 70 funcionários, segundo seus sindicatos. Há que haver uma concomitância no cuidado social, aperfeiçoando o pessoal de cada área, para absorver conquistas e a elas servir. Em recente simpósio, a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara discutia a nova categoria de cientistas de dados, como pessoal preparado para lidar com as coisas dos novos tempos ditados pelo progresso científico e tecnológico. Talvez seja ideia a considerar.

E a Câmara fará melhor ainda se começar a próxima legislatura desengavetando os projetos de pesquisa, alguns hoje provavelmente já superados. Mas tinham valor antes de serem esquecidos, carentes de interesse e de prioridade.

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