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País - Editorial

Compromisso com a Democracia

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A avalanche de votos quase levou o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, à vitória, mas foi insuficiente para impedir o segundo turno com o candidato do PT, Fernando Haddad. Nas próximas três semanas, os eleitores terão uma nova chance para decidir sobre o futuro do país. É tempo suficiente para a indispensável pacificação dos ânimos que se exaltaram num radicalismo que quase trincou a imagem de um povo alegre e cordial.

A maior vitória desta primeira etapa eleitoral foi da Democracia. E isso é um bem que deve ser exaltado por todos, a começar pelos dois contendores que foram convocados para um novo referendo. Cabe a Bolsonaro e a Haddad reafirmarem, de pronto, o compromisso com a Democracia e instar seus simpatizantes a respeitar as diferenças e o contraditório, além de deixar de lado a agressividade que ameaçou a harmonia no seio das famílias, no ambiente de trabalho e separou amigos de longa convivência.

A abstenção recorde, de mais de 20% dos 140 milhões de eleitores aptos a escolher o destino do país, mostra que uma parte expressiva dos brasileiros não concordava em transformar a eleição em campo de batalha. A despeito do ambiente belicoso, a democracia brasileira, revitalizada pela Constituição de 1988, que completou, em 5 de outubro, três décadas, provou, mais uma vez, a sua capacidade de acomodar os ventos das mudanças dentro do marco legal e institucional.

E não poderia ser diferente. A Democracia é o regime que provou no Brasil, e dá exemplos diversos no mundo, de ser o mais adequado à convivência humana, ao permitir que eventuais diferenças sejam decididas pela forma mais civilizatória: o voto. Esse mesmo voto decide, desde reuniões de condomínio e assembleias de sindicatos e de acionistas de empresas, a questões familiares de maior vulto ou até prosaicas, como o destino da família no próximo feriadão.

Nesse sentido, além do compromisso inarredável com a Democracia, os dois candidatos que vão disputar a preferência dos brasileiros para governar o país nos próximos quatro anos, a partir de 2019, precisam falar francamente e apresentar, afinal, quais são suas propostas de governo. A sociedade brasileira não pode decidir seu destino pelo não.

Os brasileiros estão ansiosos por conhecer da boca de seus candidatos, em vez de mais ofensas ou palavras agressivas contra o adversário, definições importantes sobre questões cruciais ao país. Quais as propostas para a economia sair do atoleiro de dois anos de recessão, que gerou um contingente de quase 13 milhões de desempregados, outros 4,8 milhões de desalentados, que desistiram de procurar, em vão, uma colocação num mercado estreito?

A rigor, cerca de 25 millhões de brasileiros estão impossibilitados de desenvolver plenamente sua capacidade de trabalho. O que significa menos renda e dignidade para o trabalhador e sua família. Do lado dos empresários, há uma imensa incerteza. Qual a solução para o igualmente imenso problema fiscal, que tem na deficitária Previdência o seu calcanhar de Aquiles? Quais as ações a serem apresentadas para garantir direitos sociais, os que já foram conquistados e os tantos mais que ainda precisam vir, com urgência?

Quanto mais rápido forem anunciados os planos de governo, mais fácil será para o eleitor trocar o voto do não pelo voto do sim, da afirmação de um país que tem futuro. A reforma da Previdência foi enfrentada até na Rússia de Vladimir Putin, que alongou a idade mínima de homens e mulheres. O que vai ser feito em relação à questão tributária, da qual a reforma da Previdência é a ponta do iceberg? Como vão ser enfrentados os privilégios em matéria de salários e carga tributária?

Continuarão intocáveis os cartéis e oligopólios da economia brasileira, como o sistemta bancário, que tem mais de 80% do crédito concentrado em quatro ou cinco bancos controlados por poucas famílias? A modernização da economia pede ampla concorrência e transparência nos negócios. Não cabem mais privilégios fiscais desmedidos na Zona Franca de Manaus. Com a palavra, os candidatos.



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