A virada do avesso

O que esperar de 2021?

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A poucos dias da virada, esta seria a época de fazer planos. A semana entre o Natal e o Ano Novo, período de descanso, de recarregar as baterias, um respiro depois da comilança natalina. De dar um tempo no álcool, um ou dois dias, ao menos até 31 de dezembro. Deixar assentar 2020, avaliar as conquistas, os fracassos, os percalços, quais sementes plantadas produzirão brotos no ano vindouro. De esticar os braços preguiçosamente num dia de semana, dar um tempo a nós mesmos. Buscar, após lenta respiração, o cheiro do futuro em aberto e carregado de oportunidades. Sair de chinelos nas ruas vazias e caminhar tranquilamente até a padaria mais próxima, sem a preocupação de olhar aos dois lados antes de atravessar a rua de mão única.

Vamos esquecer da política, dos políticos. Dos preços dos alimentos, da taxa de desemprego. Das queimadas no Pantanal e na Amazônia. Dos pequenos negócios dizimados, suas portas fechadas, sonhos encerrados. É possível?

Que tal se fingirmos que nada aconteceu? Que não houve ministros da saúde varridos do cargo enquanto uma crise sanitária sem precedentes virava o país e o mundo do avesso? Vamos fingir que não ficamos trancados em casa. Que, sobretudo, muitos não nos deixaram. Quase duzentos mil por causa de um vírus coroado.

Mais fácil imaginar um ano melhor. Pensamento positivo! A vacina virá. O mandatário do Executivo disse que os laboratórios devem correr atrás do Brasil. Enquanto espera e boicota a ação de subalternos, seus colegas de outros países brigam para imunizar suas respectivas populações. Por aqui, mais fácil imaginar que não temos um sujeito perverso no comando do governo.

Mas, o que? Vamos esperar a vacina, tudo vai dar certo. Esperar que a economia melhore. Vamos esperar. Enquanto esperamos, que tal celebrarmos em festas, viajar no final de ano? Com a certeza de que nada nos acontecerá, nem aos nossos parentes e amigos próximos. 2021 será o ano da virada! Virada de que?
Vamos virar o ano do avesso. Quem sabe, no final, não voltemos a 2019? Este ano não terá passado de um pesadelo, do qual acordaremos assustados e aliviados. É levantar, sacudir a cabeça e vida que segue. Logo esqueceremos. Em breve, tudo isso passará. Recomeçaremos com a certeza de prosperidade, saúde e muita diversão.

Ano que vem promete. Aliás, promessas, não faltarão. A maior, da vida voltando ao normal. Tapa o nariz, respira fundo pela boca, acredita e vai. Vai melhorar? Lembremo-nos que 2022 será um ano de eleições. A esperança, a dos que estão aí nos comandos dos governos, é que nosso fôlego dure ao menos até o segundo turno. Depois, não interessa.

Esperança, esperança. A gente vai virar esse jogo. Vai ganhar a guerra contra o vírus. Vai ganhar muitas medalhas na olimpíada de Tóquio. Se Deus quiser, a gente aproveita o movimento da virada e leva a Copa em 2022 também. Quem sabe? Vamos torcer para tudo dar certo. Agora, na improvável hipótese de que nada disso aconteça, que a vacina demore e, quando chegar, muitos a recusem, que a economia não volte a girar, ganhemos poucas medalhas no distante oriente, que as árvores não cresçam e ocupem as áreas desmatadas, há uma alternativa: na virada do avesso, para 2019, voltemos mais um ano. 2018, eleição para presidente. Vamos aguardar. Há de vir coisa melhor. Basta seguir... em frente?

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.