Eppur si muove

E nesta semana algo se moveu

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“Eppur si muove” (e, no entanto, ela se move) teria murmurado Galileu Gallilei após renegar sua teoria sobre a rotação da terra, evitando a morte sem perder a dignidade.

E nesta semana algo se moveu. A sociedade brasileira em múltiplas manifestações e tangida pelo cansaço de participar de um teatro macabro, num cenário de desolação trazida pela recidiva da Peste, e ouvir nossos maiores insistirem em retroceder séculos de ciência e humanismo em nome de ideologias escravizantes e escravocratas, finalmente falou.

A sociedade se move. No Senado, uma rotineira sabatina de embaixador designado para a chefia de nossa Missão em Genebra, encarregada da defesa dos Direitos Humanos, transforma-se numa inequívoca rejeição à politica externa brasileira. Este, o fato político maior.

Maior e ensurdecedor pelo silêncio dos senadores da base de apoio do presidente, responsável último pela orientação de uma política falida e frustrada ao levar o Brasil à marginalidade do mundo civilizado. Desacreditada por antigos aliados. Ridicularizada por sua prepotência, sua animosidade e sua delirante visão de mundo.

A mensagem era obviamente mais ampla e transcendia inclusive o patusco Chanceler, ele próprio um piromaníaco em potencial, e se endereçava ao presidente, entusiasta defensor de uma política que, em menos de dois anos, havia levado a sociedade brasileira a envergonhar-se de uma Diplomacia outrora de orgulho nacional e de respeito internacional.

Aprovar a continuidade de uma política de Direitos Humanos contrária à Carta de 1988 e aos acordos internacionais seria fazer do Senado cúmplice de um desvio civilizacional.

Em outro plano, de dramaticidade ainda mais carnal, a sociedade se depara com uma armadilha da morte anunciada diante da imprevidência governamental na responsabilidade constitucional de zelar pela proteção da saúde do povo brasileiro. O choque absurdo de ver países vizinhos, com bem menos recursos financeiros e humanos, preparados para iniciar uma vacinação em massa contra a Peste levou a sociedade a descrer da capacidade e da responsabilidade de nossa governança pública.

Tudo suportado em silêncio, inclusive a demissão de dois médicos comprometidos com a ciência, por querelas egóicas, sempre imbricadas numa ideologia mítica, tornou-se indecorosamente repulsiva ao se constatar a incúria, o desleixo e a improvisação a levarem o Brasil a estocar sem serventia milhares de testes e, supremo escárnio, a ridicularizar a óbvia preocupação com a vacinação nacional.

E a sociedade se moveu. E com ela o Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e os governadores da Federação. Aparentemente, nossos Congressistas e Jurisconsultos passam a compreender a ignomínia da malévola construção do caos. E a ela reagem. Até por instinto político de sobrevivência. Pois há por todo lado uma pulsão de morte no país.

Apenas diante deste movimento tectônico, o presidente da República muda o tom de seu descaso. Embora não hesite em estimular o negacionismo em relação a qualquer vacina, apresenta ao público um projeto de inoculação nacional a ressentir-se porém de seu elemento principal, vacinas, seringas e agulhas.

E assim, no mundo do delírio, se acredita ter-se tudo resolvido. As palavras, por serem mágicas, acentuam a incredulidade e a desconfiança, mas a sociedade percebe com clareza meridiana que o que se diz hoje se desdiz amanhã. Na irresponsabilidade totalitária dos delirantes.

O ministro da Saúde se lamenta na televisão diante das cláusulas leoninas dos contratos de venda de vacinas. E se espanta que laboratórios internacionais queiram impor tribunais de países desenvolvidos para dirimir litígios eventualmente originários no Brasil.

A perplexidade do ministro nos assombra por sua ingenuidade, embora visivelmente pertinente e patriótica. O que se poderá esperar de um vendedor neoliberal, num mercado oligopolista, tão defendido e apregoado por nosso ministro da Economia? Acaso aqui também não se defende a lei igualitária dos mercados? Acaso o ministro da Economia não se jactou de ter resolvido em dois meses negociações inconclusas por mais de 20 anos?

O que espanta o ministro da Saúde, como se fosse uma barbaridade trazida pela Peste, está escrito em preto e branco nos acordos internacionais de comércio que, de Getúlio a Temer, nos recusamos a assinar, com uma breve pausa no governo Castelo Branco. Tradição liquidada pelo acordo União Européia-Mercosul, de que muito se fala e pouco se conhece. E se fosse melhor conhecido, levantaria inúmeras sobrancelhas pelo que nele há de pernicioso para a soberania econômica e política brasileira. Tema a merecer uma análise detida do Congresso Nacional se - e quando - a ele for submetido para ratificação.

Se o ministro da Saúde der uma olhadela na nossa Lei de Patentes verá porque o SUS se apequena cada vez mais para atender as necessidades de medicamentos da comunidade brasileira, em consequência de uma indústria oligopolística, sustentada por "lobbies" bilhardários e advogados bem pagos para defender uma Lei de Patentes imposta pelos mercadores do neoliberalismo amasiados aos piores trustes e monopólios. Teoria e jurisprudência estrumadas na cobiça, no lucro e na voracidade de um Mercador de Veneza.

O ministro da Economia certamente lhe dirá que assim é a vida, como Margareth Thatcher e Ronald Reagan diziam "não haver alternativa". E assim caminhamos para o corte de salários, para a redução da assistência social, para implementação de uma reforma administrativa coronelista e para o aprofundamento abissal do desnível social, em clara e impudica traição à Constituição de 1988. A que, no limite, se rasga por ser defensora de direitos românticos, esquerdopatas, em clara oposição à liberdade de roubar e mentir. E quando não se a rasga, deforma-se seu compromisso com o bem-estar social, enfiando-lhe goela abaixo a cicuta do “teto de gastos” pelo breve tempo de vinte anos. Para regozijo dos fraudadores da Receita Federal e dos super-ricos que dela escapam pelas malhas frouxas de suas normas.

E se defende uma reforma tributária mansa, onde o consumo é mais taxado que a riqueza. Ou será que entendemos mal os cartazes pendurados nos postos Ipiranga Brasil afora?

A sociedade se move. E se dá conta que o logro e a pantomina são fatais. Enquanto se atinge a marca de quase 200 mil mortos, milhões de desempregados, nosso ministro da Economia nos assinala um crescimento em “V”. De viagem na maionese.

E a isso chegamos por nosso voto. Por nossa inarredável crença no Papai Noel. Que, esperto e bem informado, nos manda lembranças.

*Embaixador aposentado