Memória de Portella

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Os anos 60 do século passado foram chamados dourados por minha geração. Ingressei na Universidade, prestei concurso para o Instituto Rio-Branco, os Beatles revolucionaram o pop, apareceram a pílula, a minissaia, a “nouvelle vague”, o João Gilberto, o Vinícius, o Tom Jobim. Chico Buarque nos lavou a alma em cada canção. O governo JK transferiu a capital para Brasilia, Jânio Quadros chegou montado numa vassoura foguete, Brizola criou a cadeia da legalidade, Jango ganhou o plebiscito, o comício de 13 de março sepultou as reformas de base, tanques do exército abandonaram a guarda do Palácio Laranjeiras e desfilaram pela Rua Farani (em meio ao buzinaço lacerdista), o dispositivo militar do governo caiu, começaram as listas de cassações de militares, políticos, professores universitários, estudantes e intelectuais. Um terror. O “Correio da Manhã” e o “Jornal do Brasil” denunciavam a censura com a publicação de cantos dos Lusíadas ou de receitas culinárias nas primeiras páginas.

Tudo acabou nos anos de chumbo do AI-5. No FEBEAPÁ do Stanislaw Ponte Preta e no registro imortal de Zuenir Ventura.

No meio deste tumulto conheci o Doutor Eustachio Portella Nunes Filho, psicanalista que, juntamente com Walderedo Ismael de Oliveira, dominava a terapia psicanalítica de grupo no Rio. Até hoje me lembro de nosso primeiro encontro. Portella atendia seus clientes em uma sala-escritório de seu apartamento na Rainha Elizabeth, um quarteirão e pouco depois da rua quase-quase em direção ao Arpoador. Meados de 1965. Fui seu cliente por anos e passei pelos dois consultórios que sucederam ao da Rainha Elizabeth, o primeiro na fronteira de Ipanema com Copacabana e o segundo, bem mais tarde, na Praia de Botafogo, quase ao lado da Fundação Getúlio Vargas.

Portella deveria ter trinta e seis anos e eu vinte e cinco. Sua figura impressionava pela combinação errática de grossos óculos, testa altiva e uma simpatia natural indefinível quando, sem anotações, começava a perguntar por que o cliente o havia procurado. Conversamos por quase uma hora. Falamos de banalidades e de angústias. Ele ouvia e raramente buscava um esclarecimento adicional. Fui aprovado com louvor como neurótico e uma semana depois ingressei em um de seus grupos terapêuticos para atravessar o agridoce universo da psicanálise. Foi o melhor presente que me dei. Melhor até que o meu primeiro fusquinha azul.
Aos poucos, com Portella, fui mudando minha visão de mundo e sobretudo a visão sobre mim mesmo.

Portella trabalhava a palavra como um cinzel e ia descascando crostas de velhas amarras, pesados grilhões, falsos mitos e frouxos andaimes. Nem sempre era experiência indolor, mas Portella manuseava espelhos a mostrar o verso Dorian e o anverso Gray sem dor insuportável ou alegria idealizada.

Com o passar dos anos, fui-me aproximando de outras facetas de Portella e passei a frequentar suas aulas e conferências no Instituto de Psiquiatria da UFRJ, misturado a alunos de medicina interessados ou não em psiquiatria. Suas aulas e palestras rivalizavam em clareza e profundidade com as de San Tiago Dantas e eram sempre revestidas de sabedoria de vida e de humor irônico. Tínhamos pontos em comum; nossa incondicional curiosidade pela literatura. Nosso deleite com a música de Wagner.

Irresistivelmente, embora já formado e trabalhando, ingressei numa Faculdade de Psicologia e após graduar-me participei como voluntário da enfermaria e do grupo de estudos liderado por Portella no Hospital Pedro Ernesto, no Maracanã.

Uma grande mosca azul me rondava a cabeça a me atrair para fazer formação psicanalítica. Quase fui. A então tola exigência de os psicanalistas terem obrigatoriamente curso completo de medicina me desanimou. Mesmo assim cheguei a pensar em ir para Buenos Aires e lá fazer minha formação. Mas, a roda girou e fiquei mesmo no nosocômio das Nações Unidas, onde a vivência da psicanálise me ajudou enormemente nas negociações multilaterais.

Em minhas vindas ao Brasil e principalmente ao Rio, sempre encontrava um jeito de bater um papo com Portella que já me honrava com um diálogo de amigos, embora sempre sublinhado por minha relação imorredoura de gratidão.

Nos últimos anos, Portella, muito interessado nos aspectos psicológicos da obra de Machado de Assis, me apontou exemplos da genialidade analítica de Machado, muito antes de Freud. Não sei se ele chegou a completar seu estudo. Tomara que sim.

Nossa última conversa foi triste. Ele havia perdido seu amor da vida inteira, a professora Clara Helena Portella Nunes.

Em todos nós, principalmente quando chegamos à oitava década, os encontros na vida nos acalentam e nos fazem reavaliar o impacto de alguns deles em nossos destinos. Meu encontro com Portella mudou minha travessia.

Doutor Portella morreu aos 6 de novembro de 2020. Tinha 91 anos. Merece uma estátua à sombra das árvores do Instituto de Psiquiatria da UFRJ. E uma edição completa de seus artigos acadêmicos e literários. E o reconhecimento das gerações de psicanalistas que tiveram o prazer de conviver com seu inabalável compromisso por uma humanidade melhor.

Portella "foi um rio que passou em nossas vidas”. Como ouvi cantar, em alegria comovente, de forma inesperada e espontânea, os pacientes internados no Hospital Pinel antes de uma de suas memoráveis palestras no auditório daquela instituição pública. Não conheço maior homenagem a um curador de almas.


EM TEMPO:


“Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”
(Paulinho da Viola)

“Se um dia
Meu coração for consultado
Para saber se andou errado
Será difícil negar
Meu coração
Tem mania de amor
Amor não é fácil de achar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar
A marca dos meus desenganos
Ficou, ficou
Só um amor pode apagar...
Porém! Ai, porém!
Há um caso diferente
Que marcou num breve tempo
Meu coração para sempre
Era dia de Carnaval
Carregava uma tristeza
Não pensava em novo amor
Quando alguém
Que não me lembro, anunciou
Portela, Portela
O samba trazendo alvorada
Meu coração conquistou...
Ah! Minha Portela!
Quando vi você passar
Senti meu coração apressado
Todo o meu corpo tomado
Minha alegria voltar
Não posso definir
Aquele azul
Não era do céu
Nem era do mar
Foi um rio
Que passou em minha vida
E meu coração se deixou levar
Foi um rio
Que passou em minha vida”.


*Embaixador aposentado