A insistência em nos ludibriar

Outro dia, o ministro da Economia, com a cara mais envernizada do hemisfério ocidental, decretou ser a retomada da pandemia no Brasil um exagero sem pé na realidade

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Outro dia, o ministro da Economia, com a cara mais envernizada do hemisfério ocidental, decretou ser a retomada da pandemia no Brasil um exagero sem pé na realidade. Pouco tempo depois, numa breve aparição na televisão, o ministro da Saúde nos encantou com o melhor esclarecimento científico sobre o comportamento do Covid-19, ao precisar não estarmos diante de uma segunda onda, mas de um "repique".

Fiquei a carambolar. Quando vemos uma onda se espraiar em espuma e retroceder mar adentro, encher como muro e voltar a espumar na areia, estamos diante de uma nova onda ou de um repique? Talvez, a distinção pareça fútil, mas torna-se de óbvia importância para quem se afoga no mar. Morreu de onda ou de repique? Ninguém deseja morrer de repique. Como ninguém morre de piquenique, morre-se de um ovo cozido engasgado, mas o piquenique não tem nada com isso.

Depois me pus a refletir. Quem sou eu para criticar o uso das palavras e a sintaxe de nossas autoridades? Forçosamente teríamos que retroceder aos tempos de Talleyrand, a quem se atribui a famosa frase “as palavras foram feitas para esconder nossos pensamentos”. Como imaginar nossos dedicados líderes contaminados pela mesma perversão política do Maquiavel francês?

Passei a ver com clareza minha própria ignorância, minha obtusa incapacidade de compreender a língua falada no Brasil, mais particularmente no Planalto Central, sede de nossa capital, cidade não só futurista na arquitetura, mas também na semântica. Quando a mais alta autoridade republicana se refere a um quilombola como dotado de peso quantificado em arrobas, não há na frase, como se imaginaria, resquício de racismo desprezível. Muito pelo contrário, o que se está a dizer é ser simplesmente inconcebível a sociedade arcar com a proteção dos territórios de quase-animais, distinguíveis e inconfundíveis com o civilizado branco, engravatado e armado. Muito da confusão atribuída a nossos maiores, apenas revela nossa incapacidade de apreender o real e sempre confundi-lo com o mito.

É verdade que em inúmeros casos, e cada vez com maior frequência, felizmente surge um intérprete coroado e dissipa eventuais dúvidas, seja explicando-nos seja traduzindo-nos o verbo tal como pensado na sua fonte pura. É o que nos salva de especulações ambíguas, quando não desrespeitosas, sobre o vernáculo oficial.

Há porém nesta harmonia uma nota dissonante sempre a nos desafiar a benevolência e até mesmo a confiança na palavra autorizada. Refiro-me ao Ipiranga, homem iluminado de acentuados dotes verbais, debatedor temível e palestrante incansável, embora, já não poucas vezes, tenha sido publicamente contido, de forma sempre delicada e quase sempre imperceptível a olhos menos atentos ou mais enfeitiçados. Há invejosos sem limites, infelizmente.

Realmente, há uma musicalidade de flauta em suas frases sempre esclarecidas, embora nem sempre esclarecedoras. Ainda recentemente, nosso Ipiranga, num breve hipogeu das curvas de mortandade no país, retomou com a verve e o entusiasmo característicos de sua personalidade, a urgência de implementar a tríade sagrada de sua macroeconomia: o corte de gastos públicos, a redução ou congelamento dos salários de funcionários públicos e a imposição de um tributo regressivo nos moldes da falecida CPMF. Além de privatizar os bens públicos. Reduzir o Estado a simples coadjuvante da cobiça saudável do espírito animal.

Suas palavras desta vez não mereceram nem tradução nem reparo de seus pares. Ficou soando como realejo desafinado em que até o periquito, apanhador dos papelotes de sorte, parecia em busca de um galho de árvore salvador daquela lamentável logorréia.

O único efeito palpável das palavras do Ipiranga foi a de destruir minha teoria de que haveria no Brasil uma incapacidade de o povo entender o que nos falam as altas autoridades. Ao contrário, o povo se mostra cansado de tanta ladainha a prometer milagre e pede, num simples gesto de coragem, que Ipiranga et caterva assumam os erros e a delinquência de persistir numa politica econômica aparentemente ditada por um exército invasor do território de um inimigo sanguinário. Ou traduzindo em português claro: que peçam o boné, deixem a caixinha dos serviçais e agradeçam a atenção dispensada. Para o bem de todos e felicidade geral da nação.

Como negar ser o aumento do consumo observado nos últimos meses decorrente do auxilio emergencial proposto pelo Congresso, à revelia do Ipiranga? Como negar que a pandemia escancarou ser o Brasil não um, mas muitos, embora apenas uns poucos dele se apropriem? Como insistir numa política de austeridade genocida condenada até pelo FMI, sacrossanto protetor das hoje falidas teses de constrangimento social em nome do crescimento econômico? Como insistir neste Quasímodo chamado teto de gastos? Como justificar na Pandemia o baião de três no Ministério da Saúde? Como explicar a troca de um boquirroto por um surdo-mudo no Ministério da Educação? Como admitir a transformação do Itamaraty num solar da mãe Joana onde se defende um anarquismo irresponsável promovido contra os melhores interesses da exportação brasileira?

Ou será que não se trata nem de repique nem de segunda onda? Trata-se singelamente de ludibriar os incautos com a bazófia da ciência econômica e o espantalho do terrorismo fiscal. Com a benção da Santa Ignorância.

Em tempo: Recomendo com entusiasmo o lançamento do livro digital “Economia Pós- Pandemia” disponível gratuitamente nas plataformas usuais. Redigido, em linguagem acessível, por um conjunto de professores de universidades brasileiras, é leitura indispensável para quem pretenda conhecer alternativas viáveis e constitucionalmente sólidas para o desenvolvimento do Brasil. Leitura obrigatória para universitários.

*Embaixador aposentado