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Artigo

O Brasil mostra sua cara

Dois mil e vinte será o ano da consciência nacional

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Dois mil e vinte será o ano da consciência nacional. A Sexta feira, 20 de novembro, escancarou profundas divergências e desigualdades a cada dia mais chocantes no tecido social de nossa nação. O país e seu povo estão a viver uma profunda e dolorosa crise de identidade.

Já não é mais possível fazer de conta sermos um povo cordial, por mais discutível e discutida seja a afirmação de Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, estudo seminal da história e da sociologia brasileiras, utilizadas, maliciosamente por uns e ingenuamente por outros, como atestado de uma sociedade brasileira mítica de paraíso dos trópicos.

Talvez a Pandemia, talvez a grotesca desigualdade social por ela revelada, certamente as alusões discriminatórias de nossas altas autoridades governamentais, tingidas de ódio e deboche, certamente o infeliz exemplo de violência política orquestrada por Trump em seu país e fora dele, talvez o abuso de crenças religiosas e a imposição de sovados costumes, de forma vicária, como muletas de um poder autoritário, talvez todas essas sociopatias associadas à ameaça da morte por um vírus renitente tenham levado este tempo a nos parecer trágico a cada dia e a nos trazer angústia a cada hora. Talvez...

Quase certamente essas hipóteses são criaturas de uma cultura conformada com as noções míticas de Pero Vaz de Caminha a anunciar o Eden terrestre, onde “em se plantando tudo dá”. E uma história do Brasil edulcorada, sempre a sublinhar o falsamente manso de nossas relações sociais, até mesmo a vinculação perversa com a escravatura e a naturalidade com que se foi incrustando no caráter nacional a desigualdade “natural entre brancos e negros”. E a certeza sociológica absurda da negritude embranquecer ao longo dos tempos.

Crismados com essas verdades fantasiosas sobre o “bom selvagem” e a catequese mercantilista vivemos séculos na confiança patética de que a sociedade brasileira “embranqueceria” por obra divina ou pela mão darwiniana, assim como a justiça social decantaria dos alforjes dos coronéis das Grandes Casas para os desvalidos negros sotopostos nas senzalas. Ilusão até hoje vendida por mercadores travestidos de economistas nesta Terra da Vera Cruz.

Quaisquer sejam as razões, este ano de 2020 quebrou o encanto. Passo a passo a arquitetura da dependência abjeta, a tecelagem rota do tecido social se rompem a olhos vistos. Nem um cantochão a ameaçar com ira de falsas divindades surpreende ou atemoriza. Escoa pela sociedade um rancor de feras enjauladas diante reiteradas alusões a futuro brilhante e rico como nas minas do rei Salomão. Ou no nióbio a ser garimpado como cascalho. Promessas de investimentos estrangeiro no Brasil, anunciadas a quatro ventos como se aqui, como sempre, dormitasse o Eldorado ou o Potosi.

E a cada giro do relógio os ponteiros se apequenam com as barbaridades ditas e ouvidas, as mensagens cruamente distorcidas a confundir e a abusar do voto de confiança e do olhar de esperança.
E quando nesta sexta-feira da “consciência negra” dois sentinelas brancos do mercado privado, esquizofrenicamente levam à morte a socos e pontapés um negro, à luz do dia, à vista de todos, indiferentes à opinião pública e ao dia festivo de uma raça irmã, um sombrio arrepio perpassa a coluna vertebral do Brasil.

Tanto quanto o vírus da pandemia, a ameaça de uma epidemia de violência social se torna cada vez mais previsível se os responsáveis pelo respeito aos preceitos constitucionais insistirem na “via crucis” de aprofundar o desnível social desta grande nação.

O triste exemplo de Trump, a revelar seu desprezo pela democracia, pelo desrespeito à lei, agarrado na teimosia dos psicopatas, para quem sempre o genocídio nada mais é que um coadjuvante do suicídio, infelizmente promove em almas gêmeas mundo afora a bandeira das guerras civis e da morte em nome de Cruzadas de pobres diabos.

Nesta encruzilhada o Brasil se encontra. Os caminhos se bifurcam e se opõem numa polarização artificial entre esquerda e direita, refratária ao penoso, mas profícuo, exercício da tolerância mútua impermeável ao canto de sereia da ilusão tatibitate de um centro passivo, talvez agente oculto da imobilidade permanente. Cortina de fumaça em que a popularidade teatral mimetiza a liderança democrática.

A estrada começa com o reconhecimento de nossa identidade como povo de negros e brancos. Com a aceitação de nossa identidade real e não fantasiosa podemos dar início à construção de uma sociedade justa, democrática, comprometida com o Estado do bem estar.

Esta tarefa exige voto. Políticas públicas para a educação, a saúde e o abrigo de todos. E imposto de renda justo. Como manda a Constituição.

O resto é uma invasão de bárbaros. Almofadinhas uns, tresloucados outros.

Embaixador aposentado