Divórcio à vista?

As metáforas amorosas do presidente Jair Bolsonaro já entraram para o anedotário político brasileiro

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As metáforas amorosas do presidente Jair Bolsonaro já entraram para o anedotário político brasileiro. De Gustavo Bebianno a Paulo Guedes, de Regina Duarte a Rodrigo Maia, muitos atores da cena política recente já foram objetos das alegorias sentimentais do capitão-presidente. Por mais simpáticas que possam ser para os seus apoiadores, essas representações simplórias por vezes chegam ao absurdo. Um desses momentos ocorreu em março de 2019, quando, arguido sobre a ausência de mea culpa das Forças Armadas em face das graves violações aos Direitos Humanos perpetradas pela ditadura, Bolsonaro respondeu: “Qual casamento é uma maravilha? De vez em quando tem uns probleminhas.”

Eterno defensor do regime militar (1964-1985), já tendo, inclusive, homenageado publicamente o Cel. Brilhante Ustra, um dos mais abjetos torturadores brasileiros, Bolsonaro não esconde sua admiração pela caserna e sua estreita relação com a força da qual foi desligado com desonra, o Exército Brasileiro. Não por outro motivo, seu vice-presidente, Hamilton Mourão, é um general da reserva. Outra expressão da militarização do seu governo é o fato de que Bolsonaro emprega mais de seis mil militares ou ex-militares nos diversos escalões do Executivo Federal, tendo, inclusive, nomes importantes, ainda na ativa, no seu ministério, como o Gen. Eduardo Pazuello, titular da pasta da saúde.

Ainda não há elementos capazes de garantir que a eleição de Jair Bolsonaro tenha sido um projeto militar, meticulosamente gestado em suas escolas de comando e Estado Maior. Todavia, desde que foram alijados do poder, sob irresistível pressão popular, os militares nutrem certo ressentimento, já que, acreditando terem salvado o país do comunismo, foram diretamente responsabilizados pelos fracassos nacionais no decurso dos anos 1970 e 1980.

Neste sentido, é razoável supor que, após duas décadas de regimes de centro (PSDB) e de centro-esquerda (PT), os militares tenham visto em Bolsonaro uma possibilidade de redenção. Com certo pendor revanchista, inerente a um estamento sócio-político que pariu a república e dela se colocou na condição de tutor, os militares talvez tenham acreditado que o governo Bolsonaro fosse a possibilidade de retomar uma “relação estável” com a sociedade civil. Logo, mesmo cientes de que o ex-capitão era um neopopulista destemperado e primário, não se furtaram a apoiá-lo, se colocando como fiadores de um presidente que, ao fim e ao cabo, julgavam poder controlar.

Ledo engano. Desde o início Bolsonaro deixou claro que seu antigo desligamento do Exército deixara feridas ainda não cicatrizadas. Por isso, sempre fez questão de mostrar que, agora, na qualidade de presidente da república, era ele quem mandava nos generais que antes o desprezara. Por essa razão, Santos Cruz, Rêgo Barros e Braga Netto estão entre os militares de primeira linha já humilhados pelo capitão-presidente, quiçá uma expressão daquilo que de pior existe no baixo-oficialato brasileiro. Politicamente sustentado pelo “centrão”, párias fisiológicos da “velha política” que estiveram na sustentação de todos os presidentes da república desde 1985, Bolsonaro parece acreditar que, enfim, pode abrir mão do apoio do generalato, como fez com Sérgio Mouro e faz com Paulo Guedes, ora em franco processo de fritura.

Mas o cenário parece mudar. Declarações recentes de generais como o “indemissível” Mourão e o próprio Pazuello, deixam claro que os militares podem pular fora do barco governamental a qualquer momento. O sinal mais evidente deste “abandono do lar” veio do general Edson Pujol. Em uma semana pródiga em diatribes, na qual Bolsonaro afirmou que o Brasil é um “país de maricas” e que iria utilizar “pólvora” contra os Estados Unidos na defesa da Amazônia, coube ao Comandante do Exército afirmar que as Forças Armadas são “instituições de Estado”, que não mudam de pensamento “a cada quatro anos”. Com essa fala, Pujol quer resgatar a dignidade das Forças Armadas, aviltados pela contínua fulanização do generalato promovida pelo capitão-presidente. Diante desta verdadeira “crise conjugal”, cabe perguntar: divórcio à vista?

Lier Pires Ferreira – Professor do Ibmec e do CP2. Pesquisador do Lepdesp/Uerj.
Renata Medeiros de Araújo – Advogada. Doutoranda em Psicanálise/UVA.